08/07/2006
Número - 484

ARQUIVO  
RUI MARTINS

 

Rui Martins


COMO SABER SE O RESULTADO NÃO FOI NEGOCIADO?



 

O futebol é a alegria do povo, mas por isso mesmo há muita gente explorando essa alegria. Porém, como o torcedor pode saber quando a vitória foi realmente conquistada e não negociada? Dúvidas sobre a seriedade dos resultados dos jogos sempre surgem, mas agora pelo menos num país, foi confirmado que, em diversos jogos de campeonatos, os resultados tinham sido negociados com os árbitros antes da equipe entrar em campo.

A Itália, que no meu olhar de simples espectador, parece ter vencido a Alemanha num jogo limpo, é o primeiro país a revelar a corrupção nos resultados de grandes encontros, a tal ponto do promotor pedir a anulação de dois títulos de campeão do Juventus.

Será que só na Itália acontece isso? Será que a corrupção no futebol se restringe apenas aos jogos de campeonatos ou pode também ocorrer em encontros de importância internacional, como, por exemplo, na Copa do Mundo? Os torcedores, além de eternos sofredores, poderão igualmente receber os títulos de paspalhos, torcendo, gritando, chorando por clubes com jogos arranjados, facilitados?

Como se não bastasse o futebol ter se transformado em negócio, com clubes cotados na Bolsa de valores, patrocinadores interessados em investimentos, jogadores transformados em ídolos populares em benefício de multinacionais, os torcedores italianos vão ter de engolir terem sido enganados diversas vezes, nos jogos do Juventus, Milão, Lazio e Fiorentina?

O escândalo não se restringe só ao futebol. Pouco antes de ser dada a partida para a Volta da França, a famosa competição ciclística, os principais corredores foram obrigados a se retirar, por ter sido provado terem usado produtos dopantes para obter melhores resultados.

Bem antes da Copa do Mundo começar, Juca Kfouri andou dizendo não acreditar numa qualificação do Brasil. Alguns jornais publicaram também haver no contrato da Seleção com a Nike, um artigo no qual se estipula ter a multinacional o direito de escalar alguns jogadores.

Seria bom se saber porque o Kfouri tinha tanta certeza da eliminação do Brasil, ele que é um dos jornalistas esportivos mais bem informados. Mas é claro que a pressão dos sponsors sobre os jogadores, colocando em primeiro lugar seus interesses de marketing e talvez até obrigando o técnico na escalação da equipe, constitui um tipo de corrupção. Tanto quanto a exclusividade da Globo com os jogadores da Seleção, transformados em objetos ícones, inflados ao máximo para servirem a objetivos pretensamente de nacionalismo esportivo, na verdade meramente comerciais.

Sem extrapolar, a própria FIFA ao faturar bilhões com a venda dos direitos de retransmissão, desfrutando igualmente de uma lei esportiva própria, que a torna mais poderosa que a ONU, não participa dessa grande encenação? Será que faz parte da competição o uso de todos os meios para se chegar ao resultado? Dizem que já entre os gregos havia certos tipos de corrupção nas Olimpíadas. Os países comunistas, principalmente a Alemanha do Leste, ganhavam montanhas de medalhas de ouro drogando seus atletas com anabolisantes.

Na impossibilidade de saber quando os resultados são truncados, o melhor mesmo para os torcedores seria de calçar chuteiras, botar a camiseta do seu time e disputar a vitória, num campinho de várzea com seus amigos. Com isso evitariam a obesidade provocada pelas horas diante da televisão, comendo pipoca ou amendoim, combateriam o colesterol e evitariam o pior ser considerados paspalhos e bestalhões como devem se sentir hoje os torcedores dos quatro maiores clubes italianos. E talvez nós mesmos torcedores da seleção canarinho...



(08 de julho/2006)
CooJornal no 484


Rui Martins é jornalista, autor de "O Dinheiro sujo da Corrupção"
correspondente internacional na Suíça
ruimartins@hispeed.ch