02/09/2006
Número - 492

ARQUIVO  
RUI MARTINS

 

Rui Martins


QUANDO LINDENBERG E BUSH SE ENCONTRAM
 

Ainda me lembro da minha emoção de jovem secundarista quando vi, em Santos onde vivia, o filme O Espírito de St. Louis. Era a história épica do extraordinário aeronauta americano Charles Lindenberg, o primeiro a atravessar o Atlântico com seu monomotor, em 1927, abrindo o caminho para a aviação comercial.

O filme terminava em apoteose, com Lindenberg recebido em Nova Iorque como herói. Não contava quando a desgraça se abateu sobre sua família com o seqüestro e assassinato de seu filho. Uma crime que abalou os EUA. A façanha desse homem corajoso, grande, esportivo e a tragédia quase tão grande quanto sua vitória, tornaram Charles Lindenberg o homem mais conhecido e popular, durante os anos difíceis da depressão americana.

Tanto que Charles Lindenberg poderia ter sido eleito presidente dos Estados Unidos, caso se candidatasse contra o democrata Roosevelt, desgastado com dois mandatos e diminuído pela paralisia infantil. O escritor Philip Roth imaginou essa hipótese e escreveu um volumoso livro, traduzido agora em francês, contando como o alto e imponente aviador, retrato perfeito de um ariano, derrotou Roosevelt nas eleições americanas de 1940 com uma campanha pacifista, contra o engajamento americano na guerra à Alemanha nazista.

Imitando Stalin, o Lindenberg imaginário de Philip Roth selou um pacto de não agressão com Hitler e a história do mundo poderia ter mudado, sem os americanos lutando contra o nazismo. Essa ficção política era possível ser imaginada porque o herói americano dos ares - e o filme hollywoodiano da minha juventude não contava - era líder de um partido nacionalista americano de tendência nazista e não escondia sua simpatia por Hitler e pela Alemanha, tendo sido mesmo condecorado com um cruz gamada pelo líder nazista Goering.

Anti-semita declarado, se Lindenberg fosse presidente americano teria participado da campanha anti-semita de Hitler, permitido a ocorrência de pogrooms contra os judeus e criado mesmo campos de concentração.

Como o livro foi escrito em 2004, três anos depois do ataque às Torres Gêmeas e do Patriotic Act, que permitiu o encarceramento de suspeitos terroristas em Guantânamo, é provável que o provocador Philip Roth, também autor de Casei-me com um Comunista, sobre a perseguição aos esquerdistas vermelhos na época do macartismo, tenha usado a idéia de uma nazificação americana, para criticar o atual presidente Bush, sob o qual são outros semitas as vítimas de suspeição - os árabes.

Usando a primeira pessoa e seu próprio nome, Philip Roth imagina como teria sido a vida de sua família numa América nazista, onde ter um nome judeu provocava perseguição como na Alemanha hitlerista. Ora, a vida real talvez não esteja tão longe da imaginária. Ter hoje nos EUA um nome árabe pode ser um problema. O comunitarismo americano, resultante da não integração mas do desenvolvimento em separado das comunidades de imigrantes, favorece a discriminação nesses momentos de medo.

Howard Fast, na sua autobiografia, conta as perseguições de que ele e outros tantos foram vítimas, na época da Guerra Fria, e fala numa época de fascismo americano. A discriminação não se fazia em termos de nomes ou origens mas de ter ou não vinculação com os vermelhos comunistas. A substituição do inimigo vermelho pelos terroristas islamitas reformulou os tipos de discriminação.

O ataque, invasão e ocupação do Iraque, em desrespeito à ONU, a visão generalista do islamismo, o ensino nas escolas do creacionismo em obediência ao fundamentalismo dos evangélicos, a tentação imperialista talvez não estejam longe dos EUA do presidente Charles Lindenberg.




(02 de setembro/2006)
CooJornal no 492


Rui Martins é jornalista, autor de "O Dinheiro sujo da Corrupção"
correspondente internacional na Suíça
ruimartins@hispeed.ch