Rui Martins
QUANDO LINDENBERG E
BUSH SE ENCONTRAM
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Ainda me lembro da minha emoção de jovem secundarista quando vi, em Santos
onde vivia, o filme O Espírito de St. Louis. Era a história épica do
extraordinário aeronauta americano Charles Lindenberg, o primeiro a
atravessar o Atlântico com seu monomotor, em 1927, abrindo o caminho para
a aviação comercial.
O filme terminava em apoteose, com Lindenberg recebido em Nova Iorque como
herói. Não contava quando a desgraça se abateu sobre sua família com o
seqüestro e assassinato de seu filho. Uma crime que abalou os EUA. A
façanha desse homem corajoso, grande, esportivo e a tragédia quase tão
grande quanto sua vitória, tornaram Charles Lindenberg o homem mais
conhecido e popular, durante os anos difíceis da depressão americana.
Tanto que Charles Lindenberg poderia ter sido eleito presidente dos
Estados Unidos, caso se candidatasse contra o democrata Roosevelt,
desgastado com dois mandatos e diminuído pela paralisia infantil. O
escritor Philip Roth imaginou essa hipótese e escreveu um volumoso livro,
traduzido agora em francês, contando como o alto e imponente aviador,
retrato perfeito de um ariano, derrotou Roosevelt nas eleições americanas
de 1940 com uma campanha pacifista, contra o engajamento americano na
guerra à Alemanha nazista.
Imitando Stalin, o Lindenberg imaginário de Philip Roth selou um pacto de
não agressão com Hitler e a história do mundo poderia ter mudado, sem os
americanos lutando contra o nazismo. Essa ficção política era possível ser
imaginada porque o herói americano dos ares - e o filme hollywoodiano da
minha juventude não contava - era líder de um partido nacionalista
americano de tendência nazista e não escondia sua simpatia por Hitler e
pela Alemanha, tendo sido mesmo condecorado com um cruz gamada pelo líder
nazista Goering.
Anti-semita declarado, se Lindenberg fosse presidente americano teria
participado da campanha anti-semita de Hitler, permitido a ocorrência de
pogrooms contra os judeus e criado mesmo campos de concentração.
Como o livro foi escrito em 2004, três anos depois do ataque às Torres
Gêmeas e do Patriotic Act, que permitiu o encarceramento de suspeitos
terroristas em Guantânamo, é provável que o provocador Philip Roth, também
autor de Casei-me com um Comunista, sobre a perseguição aos esquerdistas
vermelhos na época do macartismo, tenha usado a idéia de uma nazificação
americana, para criticar o atual presidente Bush, sob o qual são outros
semitas as vítimas de suspeição - os árabes.
Usando a primeira pessoa e seu próprio nome, Philip Roth imagina como
teria sido a vida de sua família numa América nazista, onde ter um nome
judeu provocava perseguição como na Alemanha hitlerista. Ora, a vida real
talvez não esteja tão longe da imaginária. Ter hoje nos EUA um nome árabe
pode ser um problema. O comunitarismo americano, resultante da não
integração mas do desenvolvimento em separado das comunidades de
imigrantes, favorece a discriminação nesses momentos de medo.
Howard Fast, na sua autobiografia, conta as perseguições de que ele e
outros tantos foram vítimas, na época da Guerra Fria, e fala numa época de
fascismo americano. A discriminação não se fazia em termos de nomes ou
origens mas de ter ou não vinculação com os vermelhos comunistas. A
substituição do inimigo vermelho pelos terroristas islamitas reformulou os
tipos de discriminação.
O ataque, invasão e ocupação do Iraque, em desrespeito à ONU, a visão
generalista do islamismo, o ensino nas escolas do creacionismo em
obediência ao fundamentalismo dos evangélicos, a tentação imperialista
talvez não estejam longe dos EUA do presidente Charles Lindenberg.
(02 de setembro/2006)
CooJornal
no 492