16/09/2006
Número - 494

ARQUIVO  
RUI MARTINS

 

Rui Martins


A hora e a vez da África

Na classificação dos continentes por pobreza e doença a África surge na frente. Em termos de mortes causadas pela Aids e de órfãos de pais aidéticos é ainda a África que surge com maiores números de vítimas.

Por isso, nada mais justo se entregar a direção da Organização Mundial da Saúde a um africano. E a um africano, cujo passado foi de luta contra o colonialismo europeu na África. No caso, o médico Pascoal Mocumbi, um dos criadores da Frente Nacional de Libertação do Moçambique.

Essa oportunidade surgiu novamente ao líder moçambicano, atualmente trabalhando numa parceria da União Européia de combate às doenças, depois da morte repentina do diretor da OMS, faz alguns meses.

As chances de Mocumbi aumentam, quando se sabe haver uma regra não escrita, pela qual os continentes se sucedem nas direções e pela qual os países ou continentes não devem acumular posta de maior importância. Ora, justamente quando vai chegando ao fim o mandato de Kofi Annan, como secretário-geral da ONU, surge a vaga na direção da OMS. E, outro pormenor favorece a candidatura de Mocumbi - a América Latina, a Europa e a Ásia já participaram da direção da OMS, falta um representante africano.

Será a hora e vez de Pascoal Mocumbi?

Talvez nenhum outro africano possua as qualidades e experiência de Mocumbi para dirigir a OMS. Seu passado foi de combate ao colonialismo português na África. Essa militância fez com que tivesse de abandonar seu curso de Medicina, no Porto, em Portugal durante a ditadura de Salazar. Transferiu-se para a França, mas só concluiu seu curso alguns anos depois, em Lausanne, na Suíça.

Essa vida de militância e combate foi interrompida aos 26 anos, para viver na Suíça, onde fez seu internato como médico em diferentes especialidade como cirurgia, obstetrícia, medicina geral e pediatria. Quando retornou a Moçambique, no ano da independência, tinha acabado de obter um título de doutor em planejamento sanitário. Foi, portanto, com experiência de médico que depois de ministro da Saúde, assumiu o cargo de primeiro-ministro de Moçambique, durante dez anos.

O Brasil aprovou, faz três anos, a candidatura de Mocumbi para a direção da OMS, quando foi derrotado pelo sul-coreano Jong Wook Lee. É mais que provável um novo apoio. Se, há três anos, falta o apoio dos africanos, desta vez ele parece assegurado, pois Mocumbi acaba de receber o apoio dos ministros africanos da Saúde, reunidos em Addis-Abeba, Etiópia.

Mas para ser eleito, Pascoal Mocumbi precisará do apoio da maioria dos 34 membros do Conselho Executivo da OMS, que terá de se decidir entre 13 candidatos, um número recorde, na história das candidaturas à direção dessa organização mundial filiada à ONU.

Entre os 34 membros que escolherão o novo diretor-geral da OMS, existem 8 países africanos e três países sul-africanos, entre eles o Brasil. A esses prováveis aliados de Mocumbi, deve-se acrescentar provavelmente Portugal. Porém, não se pode esquecer que os EUA fazem também parte e que poderão usar de sua força e influência para evitar um candidato capaz de mudar a estratégia da saúde no mundo.

Pascoal Mocumbi participará, no dia 22 de novembro, de um seminário lusófono sobre Aids, em Lisboa, da OMS, destinado apenas a jornalistas de língua portuguesa da África, com participação de jornalistas portugueses e brasileiros.

Será o momento apropriado para a imprensa brasileira conhecer de perto o provável futuro diretor da OMS, que também deverá levar para Genebra o idioma português.



(16 de setembro/2006)
CooJornal no 494


Rui Martins é jornalista, autor de "O Dinheiro sujo da Corrupção"
correspondente internacional na Suíça
ruimartins@hispeed.ch