Rui Martins
A hora e a vez da África |
 |
Na classificação dos continentes por pobreza e doença a África surge na
frente. Em termos de mortes causadas pela Aids e de órfãos de pais
aidéticos é ainda a África que surge com maiores números de vítimas.
Por isso, nada mais justo se entregar a direção da Organização Mundial da
Saúde a um africano. E a um africano, cujo passado foi de luta contra o
colonialismo europeu na África. No caso, o médico Pascoal Mocumbi, um dos
criadores da Frente Nacional de Libertação do Moçambique.
Essa oportunidade surgiu novamente ao líder moçambicano, atualmente
trabalhando numa parceria da União Européia de combate às doenças, depois
da morte repentina do diretor da OMS, faz alguns meses.
As chances de Mocumbi aumentam, quando se sabe haver uma regra não
escrita, pela qual os continentes se sucedem nas direções e pela qual os
países ou continentes não devem acumular posta de maior importância. Ora,
justamente quando vai chegando ao fim o mandato de Kofi Annan, como
secretário-geral da ONU, surge a vaga na direção da OMS. E, outro pormenor
favorece a candidatura de Mocumbi - a América Latina, a Europa e a Ásia já
participaram da direção da OMS, falta um representante africano.
Será a hora e vez de Pascoal Mocumbi?
Talvez nenhum outro africano possua as qualidades e experiência de Mocumbi
para dirigir a OMS. Seu passado foi de combate ao colonialismo português
na África. Essa militância fez com que tivesse de abandonar seu curso de
Medicina, no Porto, em Portugal durante a ditadura de Salazar.
Transferiu-se para a França, mas só concluiu seu curso alguns anos depois,
em Lausanne, na Suíça.
Essa vida de militância e combate foi interrompida aos 26 anos, para viver
na Suíça, onde fez seu internato como médico em diferentes especialidade
como cirurgia, obstetrícia, medicina geral e pediatria. Quando retornou a
Moçambique, no ano da independência, tinha acabado de obter um título de
doutor em planejamento sanitário. Foi, portanto, com experiência de médico
que depois de ministro da Saúde, assumiu o cargo de primeiro-ministro de
Moçambique, durante dez anos.
O Brasil aprovou, faz três anos, a candidatura de Mocumbi para a direção
da OMS, quando foi derrotado pelo sul-coreano Jong Wook Lee. É mais que
provável um novo apoio. Se, há três anos, falta o apoio dos africanos,
desta vez ele parece assegurado, pois Mocumbi acaba de receber o apoio dos
ministros africanos da Saúde, reunidos em Addis-Abeba, Etiópia.
Mas para ser eleito, Pascoal Mocumbi precisará do apoio da maioria dos 34
membros do Conselho Executivo da OMS, que terá de se decidir entre 13
candidatos, um número recorde, na história das candidaturas à direção
dessa organização mundial filiada à ONU.
Entre os 34 membros que escolherão o novo diretor-geral da OMS, existem 8
países africanos e três países sul-africanos, entre eles o Brasil. A esses
prováveis aliados de Mocumbi, deve-se acrescentar provavelmente Portugal.
Porém, não se pode esquecer que os EUA fazem também parte e que poderão
usar de sua força e influência para evitar um candidato capaz de mudar a
estratégia da saúde no mundo.
Pascoal Mocumbi participará, no dia 22 de novembro, de um seminário
lusófono sobre Aids, em Lisboa, da OMS, destinado apenas a jornalistas de
língua portuguesa da África, com participação de jornalistas portugueses e
brasileiros.
Será o momento apropriado para a imprensa brasileira conhecer de perto o
provável futuro diretor da OMS, que também deverá levar para Genebra o
idioma português.
(16 de setembro/2006)
CooJornal
no 494