10/03/2007
Número - 519

ARQUIVO  
RUI MARTINS

 

Rui Martins


Vida de brasileiro vale menos
que a vida de europeu?



 

Parece que sim, e não sou eu quem fala mas um dos responsáveis pelo teste de colisão do carro Fox da Volks, na Alemanha, e uma jornalista da televisão suíça. O caso já circulou aí no Brasil, agitado pela Pro Teste. A novidade foi o teste ter sido mostrado na íntegra, na televisão suíça, num programa de defesa de consumidores, no que se chama horário nobre, 20.00h, por ter um máximo de telespectadores.

Existem dois carros Fox: um fabricado pela Volks para brasileiros, outro fabricado pela mesma Volks, na mesma fábrica, no Brasil, para europeus. O carro brasileiro não tem airbags, nem cinto moderno de segurança com pré-tensionador e nem aviso sonoro para que o motorista coloque o cinto.

O Fox brasileiro, no caso de um choque a 64 km/hora, mata o motorista, que bate com a cabeça no volante, e causa ferimentos graves no tórax do acompanhante. No mesmo tipo de acidente, o Fox exportado para a Europa só causa ferimentos não graves nos ocupantes.

E tem mais, apesar de não ser tão seguro quanto o modelo exportado para os europeus, o Fox brasileiro é mais caro, coisa de 3 mil francos suíços. E quem quiser fazer a opção com airbags precisa pagar mais o equivalente a 2,5 mil francos. Não adianta ir no concessionário pedir a versão européia, porque ela só vale para exportação.

A falta dos airbags tem também uma razão – a lei brasileira não exige que os carros se equipem com essa proteção. E embora os brasileiros gostem de estar sempre na moda e na frente, os cintos de segurança europeus são melhores, mais modernos e protegem suficientemente o tórax no caso de choques. Existem outras pequenas diferenças, depois do teste de colisão: no Fox brasileiro, a barra de direção se desloca, o assoalho se deforma e a porta dianteira não abre. No caso de incêndio, não se pode retirar o motorista.

Existe um ministro dos Transportes no Brasil? Geralmente os ministros viajam bastante, já deve ter visto a diferença, mas não deu o estrilo. Nem os deputados pensaram nisso, talvez porque viajam atrás e tenham motoristas que no caso de batida frontal amortecem o choque com a cabeça. Ou porque usam carros de uma gama superior. Ou será que o lobby da Volks é convincente?

São nessas coisas mais simples, como a segurança dos cidadãos, que se pode avaliar o grau de preocupação dos legisladores pela população. Por que não exigir Fox igual para brasileiros e europeus com airbags, com cintos modernos e com sinal sonoro para não deixar de colocar os cintos? Afinal, os padrões de segurança brasileiros deveriam ser tão exigentes quanto os dos europeus, é uma questão de vida.

Quando um Fox brasileiro é vendido, mais caro que o europeu, isso quer dizer que o comprador brasileiro está financiando a exportação para os europeus? Mesmo se os europeus têm salário e rendimentos superiores aos dos brasileiros?

Até que ponto isso é importante para a imprensa brasileira, sujeita aos anúncios publicitários? Aqui na Europa, onde vida é coisa séria e importante, essa insegurança na versão brasileira daria manchete nos jornais e haveria imediatamente suspensão da venda dos veículos pelas autoridades.

Por que a Volks vende no Brasil um carro que não poderia vender na Alemanha? Por que os jornais não denunciam a ponto de fazer cair a venda e criar escândalo? Por que os políticos toleram, sabendo que morrerão milhares de pessoas?


(10 de março/2007)
CooJornal no 519


Rui Martins é jornalista, autor de "O Dinheiro sujo da Corrupção"
correspondente internacional na Suíça
ruimartins@hispeed.ch