Rui Martins
Vida de brasileiro vale
menos
que a vida de europeu?
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Parece que sim, e não sou eu quem fala mas um dos responsáveis pelo teste
de colisão do carro Fox da Volks, na Alemanha, e uma jornalista da
televisão suíça. O caso já circulou aí no Brasil, agitado pela Pro Teste.
A novidade foi o teste ter sido mostrado na íntegra, na televisão suíça,
num programa de defesa de consumidores, no que se chama horário nobre,
20.00h, por ter um máximo de telespectadores.
Existem dois carros Fox: um fabricado pela Volks para brasileiros, outro
fabricado pela mesma Volks, na mesma fábrica, no Brasil, para europeus. O
carro brasileiro não tem airbags, nem cinto moderno de segurança com
pré-tensionador e nem aviso sonoro para que o motorista coloque o cinto.
O Fox brasileiro, no caso de um choque a 64 km/hora, mata o motorista, que
bate com a cabeça no volante, e causa ferimentos graves no tórax do
acompanhante. No mesmo tipo de acidente, o Fox exportado para a Europa só
causa ferimentos não graves nos ocupantes.
E tem mais, apesar de não ser tão seguro quanto o modelo exportado para os
europeus, o Fox brasileiro é mais caro, coisa de 3 mil francos suíços. E
quem quiser fazer a opção com airbags precisa pagar mais o equivalente a
2,5 mil francos. Não adianta ir no concessionário pedir a versão européia,
porque ela só vale para exportação.
A falta dos airbags tem também uma razão – a lei brasileira não exige que
os carros se equipem com essa proteção. E embora os brasileiros gostem de
estar sempre na moda e na frente, os cintos de segurança europeus são
melhores, mais modernos e protegem suficientemente o tórax no caso de
choques. Existem outras pequenas diferenças, depois do teste de colisão:
no Fox brasileiro, a barra de direção se desloca, o assoalho se deforma e
a porta dianteira não abre. No caso de incêndio, não se pode retirar o
motorista.
Existe um ministro dos Transportes no Brasil? Geralmente os ministros
viajam bastante, já deve ter visto a diferença, mas não deu o estrilo. Nem
os deputados pensaram nisso, talvez porque viajam atrás e tenham
motoristas que no caso de batida frontal amortecem o choque com a cabeça.
Ou porque usam carros de uma gama superior. Ou será que o lobby da Volks é
convincente?
São nessas coisas mais simples, como a segurança dos cidadãos, que se pode
avaliar o grau de preocupação dos legisladores pela população. Por que não
exigir Fox igual para brasileiros e europeus com airbags, com cintos
modernos e com sinal sonoro para não deixar de colocar os cintos? Afinal,
os padrões de segurança brasileiros deveriam ser tão exigentes quanto os
dos europeus, é uma questão de vida.
Quando um Fox brasileiro é vendido, mais caro que o europeu, isso quer
dizer que o comprador brasileiro está financiando a exportação para os
europeus? Mesmo se os europeus têm salário e rendimentos superiores aos
dos brasileiros?
Até que ponto isso é importante para a imprensa brasileira, sujeita aos
anúncios publicitários? Aqui na Europa, onde vida é coisa séria e
importante, essa insegurança na versão brasileira daria manchete nos
jornais e haveria imediatamente suspensão da venda dos veículos pelas
autoridades.
Por que a Volks vende no Brasil um carro que não poderia vender na
Alemanha? Por que os jornais não denunciam a ponto de fazer cair a venda
e criar escândalo? Por que os políticos toleram, sabendo que morrerão
milhares de pessoas?
(10 de março/2007)
CooJornal
no 519