28/04/2007
Número - 526

ARQUIVO  
RUI MARTINS

 

Rui Martins


A ESQUERDA FRANCESA TEM CARA DE MULHER BONITA


 

Pode parecer distante e sem importância a eleição presidencial na França, onde se qualificaram para o segundo turno, o candidato da direita, falsamente golista, Nicolas Sarkozy, e a candidata socialista Ségolène Royal. Mas não é. Desde há muito tempo, a França serve de modelo para movimentos sociais em todo mundo. Bem antes da revolução estudantil de 68, tinha havido a Comuna de Paris, precedendo a Revolução russa, e ainda bem antes, o Iluminismo que levou à Revolução francesa, ponto de partida e de referência para todas as outras revoluções.

Os EUA são importante financeiramente, sede do império capitalista neo-liberal, mas não lançam modas em termos de pensamentos políticos e sociais. Ainda antes de Voltaire e Jean-Jacques Rousseau, é na França que se define o futuro do pensamento mundial. E não são só os filósofos, literatos ou artistas franceses que lançam as idéias, destinadas a germinarem também em outros países.

O rabugento povo francês é fator determinante. Talvez não exista outra país cujo povo saiba tão bem defender e lutar por seus direitos. Existem greves e manifestações quase todos os dias na França, onde a solidariedade faz, por exemplo, os usuários do metrô aceitarem greves por compreenderem seu direito de ter reivindicações.

Os franceses estão habituados a derrubar ministros com suas mobilizações de massa e fazer governos anularem projetos, enquanto os políticos mais teimosos acabam liquidando definitivamente sua carreira política ao insistir em fazer frente à vontade popular.

Ora, apesar do avanço do neo-liberalismo em todo mundo, leiloando direitos trabalhistas conseguidos duramente no passado, instituindo o trabalho temporário e incerto como regra mundial, colocando o lucro e os dividendos dos acionistas acima do interesse humano e social, os franceses têm erguido barricadas de resistência.

Mas nem sempre a vitória premia as lutas populares francesas. Pode haver longos ou curtos períodos de derrotas. É o caso da escolha do presidente. Nicolas Sarkozy simboliza a direita política e econômica, a conhecida supremacia dos mais fortes sobre os mais fracos, a privatização dos bens públicos, a ativação do mercado de trabalho pela concorrência, quebra de garantias e terceirização. Com o risco de um desvio para a direita dura, com o reforço da autoridade policial, e uma política desumana de imigração.

De que lado vai soprar o vento na Europa? Tudo vai depender do resultado do segundo turno dia 6 de maio. O líder da extrema-direita francesa, Jean-Marie Le Pen foi derrotado, com apenas 11% de votos, mas não suas perigosas idéias, pois muitas delas foram apropriadas por Sarkozy. Ora, ao fazer concessões à linguagem da extrema-direita, Sarkozy quebrou um princípio mantido pela direita tradicional, que preferia perder votos a ser confundida com o partido de Le Pen.

Se Sarkozy ganhar, a França poderá detonar um ressurgimento dos governos autoritários europeus, conjugado com um neo-liberalismo inspirado nos EUA.

Se, ao contrário, for Ségolène a vencedora, com espero junto com toda uma gama do pensamento de esquerda e militantes esquerdistas, terá sido levantada uma barreira, capaz de impedir a progressão da mundialização selvagem dos nossos dias. A França que disse não ao militarismo estadunidense, dirá também não à sua filosofia econômica, em favor de leis protetoras dos trabalhadores. E isso, sem dúvida, dará coragem a muitos outros países e provocará um vaga de imitadores, quem sabe irá mesmo influenciar na escolha do sucessor de Bush, que não poderá ignorar a miséria e nem os milhões em seguro médico.

A história não se repete mas pode haver semelhanças com fases já vividas. E essa de um neo-liberalismo selvagem conjugado com mais autoridade parece nos levar às primeirs décadas do século passado.

Por isso, estas duas próximas semanas são importantes e poderão mesmo fazer parte dos cadernos de história do futuro. Se o povo francês barrar a rota do neoliberal Sarkozy, um novo movimento poderá surgir para fazer face à mundialização selvagem.

E de lambuja, a França ganhará uma nova imagem, a de uma mulher bonita, preocupada com a justiça social.



(28 de abril/2007)
CooJornal no 526


Rui Martins é jornalista, autor de "O Dinheiro sujo da Corrupção"
correspondente internacional na Suíça
ruimartins@hispeed.ch