Rui Martins
A ESQUERDA FRANCESA
TEM CARA DE MULHER BONITA
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Pode parecer distante e sem importância a eleição presidencial na França,
onde se qualificaram para o segundo turno, o candidato da direita,
falsamente golista, Nicolas Sarkozy, e a candidata socialista Ségolène
Royal. Mas não é. Desde há muito tempo, a França serve de modelo para
movimentos sociais em todo mundo. Bem antes da revolução estudantil de 68,
tinha havido a Comuna de Paris, precedendo a Revolução russa, e ainda bem
antes, o Iluminismo que levou à Revolução francesa, ponto de partida e de
referência para todas as outras revoluções.
Os EUA são importante financeiramente, sede do império capitalista
neo-liberal, mas não lançam modas em termos de pensamentos políticos e
sociais. Ainda antes de Voltaire e Jean-Jacques Rousseau, é na França que
se define o futuro do pensamento mundial. E não são só os filósofos,
literatos ou artistas franceses que lançam as idéias, destinadas a
germinarem também em outros países.
O rabugento povo francês é fator determinante. Talvez não exista outra
país cujo povo saiba tão bem defender e lutar por seus direitos. Existem
greves e manifestações quase todos os dias na França, onde a solidariedade
faz, por exemplo, os usuários do metrô aceitarem greves por compreenderem
seu direito de ter reivindicações.
Os franceses estão habituados a derrubar ministros com suas mobilizações
de massa e fazer governos anularem projetos, enquanto os políticos mais
teimosos acabam liquidando definitivamente sua carreira política ao
insistir em fazer frente à vontade popular.
Ora, apesar do avanço do neo-liberalismo em todo mundo, leiloando direitos
trabalhistas conseguidos duramente no passado, instituindo o trabalho
temporário e incerto como regra mundial, colocando o lucro e os dividendos
dos acionistas acima do interesse humano e social, os franceses têm
erguido barricadas de resistência.
Mas nem sempre a vitória premia as lutas populares francesas. Pode haver
longos ou curtos períodos de derrotas. É o caso da escolha do presidente.
Nicolas Sarkozy simboliza a direita política e econômica, a conhecida
supremacia dos mais fortes sobre os mais fracos, a privatização dos bens
públicos, a ativação do mercado de trabalho pela concorrência, quebra de
garantias e terceirização. Com o risco de um desvio para a direita dura,
com o reforço da autoridade policial, e uma política desumana de
imigração.
De que lado vai soprar o vento na Europa? Tudo vai depender do resultado
do segundo turno dia 6 de maio. O líder da extrema-direita francesa,
Jean-Marie Le Pen foi derrotado, com apenas 11% de votos, mas não suas
perigosas idéias, pois muitas delas foram apropriadas por Sarkozy. Ora, ao
fazer concessões à linguagem da extrema-direita, Sarkozy quebrou um
princípio mantido pela direita tradicional, que preferia perder votos a
ser confundida com o partido de Le Pen.
Se Sarkozy ganhar, a França poderá detonar um ressurgimento dos governos
autoritários europeus, conjugado com um neo-liberalismo inspirado nos EUA.
Se, ao contrário, for Ségolène a vencedora, com espero junto com toda uma
gama do pensamento de esquerda e militantes esquerdistas, terá sido
levantada uma barreira, capaz de impedir a progressão da mundialização
selvagem dos nossos dias. A França que disse não ao militarismo
estadunidense, dirá também não à sua filosofia econômica, em favor de leis
protetoras dos trabalhadores. E isso, sem dúvida, dará coragem a muitos
outros países e provocará um vaga de imitadores, quem sabe irá mesmo
influenciar na escolha do sucessor de Bush, que não poderá ignorar a
miséria e nem os milhões em seguro médico.
A história não se repete mas pode haver semelhanças com fases já vividas.
E essa de um neo-liberalismo selvagem conjugado com mais autoridade parece
nos levar às primeirs décadas do século passado.
Por isso, estas duas próximas semanas são importantes e poderão mesmo
fazer parte dos cadernos de história do futuro. Se o povo francês barrar a
rota do neoliberal Sarkozy, um novo movimento poderá surgir para fazer
face à mundialização selvagem.
E de lambuja, a França ganhará uma nova imagem, a de uma mulher bonita,
preocupada com a justiça social.
(28 de abril/2007)
CooJornal
no 526