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Rui Martins
A Igreja não
tem o monopólio do aborto
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Meu artigo sobre a Igreja católica, no dia da chegada do Papa Bento XVI em
São Paulo, me valeu um recorde em matéria de comentários de leitores.
Infelizmente não posso responder a todos individualmente, por isso, decidi
uma resposta coletiva, comentando as principais críticas recebidas.
Alguns estranharam minhas opiniões numa questão de igreja, já que o Papa
vindo ao Brasil não estava obrigando ninguém a ouvi-lo ou a seguir suas
doutrinas. O argumento parece perfeito, porém não procede. A questão do
aborto, por exemplo, não está restrita às paredes das igrejas. Se a
linguagem do Papa orientasse unicamente seus fiéis a não praticarem o
aborto, eu não teria metido minha colher. Porém, é conhecida a promessa de
mobilização da Igreja contra qualquer projeto de lei descriminalizando o
aborto.
Então, não se trata de um tema restrito à fé católica e sim a toda
população. Desde a proclamação da República, o Brasil optou pela laicidade
(embora a separação da Igreja do Estado brasileiro se tenha efetivado só
por volta dos anos 50) e argumentos religiosos não deveriam interferir na
elaboração das leis.
Porém, isso não ocorre nem nos EUA, onde os protestantes criacionistas
votam leis obrigando as escolas a rejeitarem a teoria de Darwin e adotarem
a criação divina da espécie humana. Por que se exigir da Igreja católica
se omitir diante do debate sobre o aborto, no Brasil?
É compreensível que a Igreja tente interferir, mas neste caso o tema deixa
de ser restrito às igrejas, para interessar a todos os cidadãos. Se os
favoráveis ao aborto ficarem calados, a pressão dos devotos poderá
convencer os legisladores e continuará ilegal no Brasil. Não vale,
portanto, pedir para eu me calar, quando a Igreja quer decidir no mundo
laico das leis e para isso usa de todas as influências possíveis.
Outra coisa, não devem me pedir para ficar calado porque não pertenço à
Igreja e, portanto, não estou sujeito às suas ordens, como Leonardo Boff,
que, num artigo distribuído pela Internet nesta semana, fala no “silêncio
obsequioso” a ele imposto pelo cardeal Ratsinger, hoje em Papa Bento XVI.
O tema aborto, portanto, interessa a todos nós brasileiros. O mesmo ocorre
com a transmissão do vírus da Aids. Se bem entendi certos leitores, os
católicos praticam a abstenção sexual antes e fora do casamento e assim
estão protegidos contra essa doença.
Ótimo para eles, mas nem todos os brasileiros são católicos praticantes e,
o calor tropical ajudando, são tidos como sexualmente ativos desde a
puberdade, cedendo com freqüência aos instintos da carne, mesmo porque
revistas, publicidades, rádio e televisão não deixam de falar nisso, pois
o apelo ao desejo sexual faz parte da sociedade de consumo.
Então, o que fazer? Querer que toda sociedade adote o padrão papal da
abstinência proposto aos católicos e assim impedir a distribuição de
camisinhas a pretexto de evitar o deboche? Sabendo que sem camisinha a
juventude não católica praticante poderá contrair Aids e que a doença, em
fase de controle em muitos países, se irá propagar como a peste ?
E de onde a Igreja tirou a idéia da abstinência e do pecado sexual? Até o
surgimento da sífilis na Europa, homens e mulheres tomavam banhos nus no
Sena e outros rios, no verão, sem se sentirem debochados pecadores. A
sífilis (que os mesmos leitores irão considerar como castigo de deus)
gerou o conceito do pecado sexual, a virgindade, assim como na travessia
do deserto do Sinai a religião criou o tabu dos animais imundos, por
favorecerem doenças se incluídos na alimentação. A diferença entre a
sífilis e a Aids é que, naquela época medieval, não havia preservativo e
nem antibiótico.
(19 de maio/2007)
CooJornal
no 529