19/05/2007
Número - 529

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RUI MARTINS

 
Rui Martins



A Igreja não tem o monopólio do aborto

 

Meu artigo sobre a Igreja católica, no dia da chegada do Papa Bento XVI em São Paulo, me valeu um recorde em matéria de comentários de leitores. Infelizmente não posso responder a todos individualmente, por isso, decidi uma resposta coletiva, comentando as principais críticas recebidas.

Alguns estranharam minhas opiniões numa questão de igreja, já que o Papa vindo ao Brasil não estava obrigando ninguém a ouvi-lo ou a seguir suas doutrinas. O argumento parece perfeito, porém não procede. A questão do aborto, por exemplo, não está restrita às paredes das igrejas. Se a linguagem do Papa orientasse unicamente seus fiéis a não praticarem o aborto, eu não teria metido minha colher. Porém, é conhecida a promessa de mobilização da Igreja contra qualquer projeto de lei descriminalizando o aborto.

Então, não se trata de um tema restrito à fé católica e sim a toda população. Desde a proclamação da República, o Brasil optou pela laicidade (embora a separação da Igreja do Estado brasileiro se tenha efetivado só por volta dos anos 50) e argumentos religiosos não deveriam interferir na elaboração das leis.

Porém, isso não ocorre nem nos EUA, onde os protestantes criacionistas votam leis obrigando as escolas a rejeitarem a teoria de Darwin e adotarem a criação divina da espécie humana. Por que se exigir da Igreja católica se omitir diante do debate sobre o aborto, no Brasil?

É compreensível que a Igreja tente interferir, mas neste caso o tema deixa de ser restrito às igrejas, para interessar a todos os cidadãos. Se os favoráveis ao aborto ficarem calados, a pressão dos devotos poderá convencer os legisladores e continuará ilegal no Brasil. Não vale, portanto, pedir para eu me calar, quando a Igreja quer decidir no mundo laico das leis e para isso usa de todas as influências possíveis.

Outra coisa, não devem me pedir para ficar calado porque não pertenço à Igreja e, portanto, não estou sujeito às suas ordens, como Leonardo Boff, que, num artigo distribuído pela Internet nesta semana, fala no “silêncio obsequioso” a ele imposto pelo cardeal Ratsinger, hoje em Papa Bento XVI.

O tema aborto, portanto, interessa a todos nós brasileiros. O mesmo ocorre com a transmissão do vírus da Aids. Se bem entendi certos leitores, os católicos praticam a abstenção sexual antes e fora do casamento e assim estão protegidos contra essa doença.

Ótimo para eles, mas nem todos os brasileiros são católicos praticantes e, o calor tropical ajudando, são tidos como sexualmente ativos desde a puberdade, cedendo com freqüência aos instintos da carne, mesmo porque revistas, publicidades, rádio e televisão não deixam de falar nisso, pois o apelo ao desejo sexual faz parte da sociedade de consumo.

Então, o que fazer? Querer que toda sociedade adote o padrão papal da abstinência proposto aos católicos e assim impedir a distribuição de camisinhas a pretexto de evitar o deboche? Sabendo que sem camisinha a juventude não católica praticante poderá contrair Aids e que a doença, em fase de controle em muitos países, se irá propagar como a peste ?

E de onde a Igreja tirou a idéia da abstinência e do pecado sexual? Até o surgimento da sífilis na Europa, homens e mulheres tomavam banhos nus no Sena e outros rios, no verão, sem se sentirem debochados pecadores. A sífilis (que os mesmos leitores irão considerar como castigo de deus) gerou o conceito do pecado sexual, a virgindade, assim como na travessia do deserto do Sinai a religião criou o tabu dos animais imundos, por favorecerem doenças se incluídos na alimentação. A diferença entre a sífilis e a Aids é que, naquela época medieval, não havia preservativo e nem antibiótico.



(19 de maio/2007)
CooJornal no 529


Rui Martins é jornalista, autor de "O Dinheiro sujo da Corrupção"
correspondente internacional na Suíça
ruimartins@hispeed.ch