09/06/2007
Número - 532

ARQUIVO  
RUI MARTINS

 
Rui Martins



A ópera Shakespeareana de Verdi
em versão suíça

 

A ópera nem sempre é popular. O grande público conhece principalmente a Carmen de Bizet, o “la donna è mobile”, do Rigoletto de Verdi ou As Bodas de Figaro, de Mozart. Imagino alguns aficionados de Giacomo Puccini, Gioachino Rossini e Giuseppe Verdi.

No passado, ir à Ópera equivalia a um encontro social de luxo, que exigia uma certa elegância no trajar. Aqui na Europa, existem transmissões ao vivo ou gravadas das grandes óperas, mas a audiência baixa e os jovens desertam os teatros.

A ópera acabou se transformando num prazer de uma elite, mas uma elite madura. Isso, porém, não impede que os grande cantores de ópera tenham renome e cheguem a ser populares. Como Luciano Pavarotti e Plácido Domingo, para citar só esses dois, que eram convidados para cantar trechos de ópera, na abertura de campeonatos mundiais de futebol, diante de um público geralmente vacinado contra esse tipo de manifestação musical. Embora não tivessem tanto renome como Enrico Caruso, que, no começo do século passado, quando não havia gravações de boa qualidade, se transformou numa espécie de mito do canto.

Não me esqueço de uma crônica do escritor Carlos Heitor Cony, na extinta Manchete, na qual contava ouvir óperas nos engarrafamentos de trânsito. Ouvir a Boêmia de Puccini faz certamente esquecer o stress do trânsito e pode até gerar energia para um dia de trabalho.

Guardo ainda na memória, minha primeira ópera, ainda adolescente num teatro não mais existente, em Santos, o do Cine Bandeirantes. Com meu dinheiro de locutor comercial numa rádio local pude pagar a entrada e ficar bem diante da cena. Inesquecível Barbeiro de Sevilha, de Rossini.

Por que essa conversa? Porque acabo de ver a última ópera de Verdi, sobre um personagem de Shakespeare, o gordo e decadente Falstaff, aqui em Berna, no Teatro Municipal. Um espetáculo importante para a capital suíça – o diretor Eike Gramss está encerrando com essa ópera uma carreira de 16 anos, no teatro da cidade, devendo continuar sua carreira na cidade natal de Mozart, Salzburgo.

O barítono Nicola Alaimo vive uma das melhores versões dessa comédia, arrancando calorosos aplausos por sua interpretação numa perigosa produção, próxima do cafona mas nunca caindo no mau gosto ou baixaria. É verdade, algumas senhoras podem ter se chocado, nos primeiros minutos, com os gestos inconfundíveis do acólito de Falstaff ao se livrar de uma cólica intestinal ou da peluda nudez de Falstaff, ao se enxugar nu, depois de ter sido jogado no Tâmisa de Londres. Uma nudez virtual, pois Nicola Alaimo vestia um colante inteiriço no qual não faltava o sexo adormecido.

Falstaff é um velho e decadente aristocrata inglês arruinado, excessivamente gordo e flácido para conquistar mulheres, mas que prossegue com seu hábito de mulherengo e por isso ridicularizado. Verdi sempre soube compor músicas de sucesso, e em Falstaff, já com mais de 80 anos, ela inova, compondo apenas pequenos trechos que se distribuem pelos três atos.

Ao contrário de montagens luxuosas, o Falstaff de Berna é extremamente singelo, mas é o despojamento da cena que fortalece o espetáculo. Sem outras pretensões que divertir, proporcionando o prazer de ouvir música e canto, a ópera termina com uma constatação – na vida tudo é brincadeira ou comédia.




(09 de junho/2007)
CooJornal no 532


Rui Martins é jornalista, autor de "O Dinheiro sujo da Corrupção"
correspondente internacional na Suíça
ruimartins@hispeed.ch