16/02/2008
Número - 568

ARQUIVO  
RUI MARTINS

 
Rui Martins



Voltaire negra denuncia inferioridade
da mulher na religião muçulmana


 

Uma africana nascida na Somália há 41 anos, está começando a ser chamada de Voltaire negra por intelectuais franceses. Voltaire, considerado um dos precursores da Revolução Francesa, se notabilizou como provocador e por ironizar e não acreditar nos dogmas da Igreja católica.

Ayaan Hirsi Ali é chamada de versão negra de Voltaire por ironizar, criticar, não aceitar e não acreditar nos escritos de Maomé, constantes do Corão. Tanto que circula na Holanda, onde chegou a ser deputada, uma ameaça de morte proferida pelos autores do assassinato do cineasta Theo Van Gogh, em represália a um filme crítico da religião muçulmana, principalmente os fundamentalistas. Ayaan Hirsi Ali foi co-diretora do filme Submissão e, por isso, assim como aconteceu com Salman Rushdie, corre o risco de ser assassinada em nome de uma fátua ditada pelo fanatismo religioso.

A africana que fugiu da casa dos pais, na juventude, para escapar a um casamento forçado, permitido pela religião muçulmana, tinha sido excisada aos cinco anos, prática ainda existente em alguns países muçulmanos africanos e que consiste em se cortar os lábios da vagina e o clitóris a fim de preservar as mulheres da tentação dos prazeres da carne.

Dotada de um extraordinária coragem e energia, chegou bastante jovem na Holanda, como refugiada, mentiu aos holandeses para não ser expulsa, conseguiu completar estudos universitários e se tornar deputada na terra dos moinhos.

Perdeu o mandato e precisou se exilar nos EUA, sob pressão de uma ministra da Justiça que ouviu, num programa de televisão, sua confissão de ter mentido para obter o estatuto de refugiada.

A presença de Ayaan Hirsi Ali, em Paris, na semana passada, onde conta com o apoio de intelectuais, como o filósofo Bernard Henri Levy, tinha por objetivo pleitear a nacionalidade francesa e obter proteção policial para escapar à fátua ou condenação à morte por heresia pelos fundamentalistas muçulmanos.

Essa presença da Voltaire negra na capital francesa quase coincidiu com a declaração do Arcebispo de Canterbury em favor de uma adaptação pelos ingleses da Charia ou Sharia, uma espécie de código penal muçulmano, em vigor nos países teocráticos islamitas e que condena ladrões à amputação das mãos e as mulheres acusadas de adultério a serem mortas a pedradas na praça pública.

Talvez o Arcebispo anglicano não soubesse que, há uns três anos, em Genebra, o neto do criador do movimento Irmãos Muçulmanos, no Egito, Sani Ramadan, foi destituído do seu posto de professor secundário por ter justificado num artigo publicado no jornal francês Le Monde, o apedrejamento das mulheres adúlteras e outras medidas da Sharia.

Numa entrevista a uma rádio francesa, Ayaan Hirsi Ali foi perguntada sobre a proposta do Arcebispo e considerou absurdo se colocar o obscurantismo no mesmo plano da lei e da liberdade.

A situação das mulheres em muitos países só poderia piorar, no caso de se transplantar a Sharia para Inglaterra ou para a União Européia. Forçadas ao casamento, forçadas à obediência ao marido, as mulheres submetidas à Sharia não têm o direito de dispor de sua vida. Ao contrário, podem ser espancadas pelo marido e têm poucas chances de se divorciar, enquanto ao marido é fácil obter um divórcio.. As mulheres acabam aceitando sua submissão. A proposta do Arcebispo constitui um pesadelo para as mulheres que obtiveram no Ocidente o respeito aos seus direitos e mesmo uma igualdade com os homens. Seria um retrocesso”.

Ayaan critica o que chama de irresponsabilidade dos democratas europeus que ignoram as violências cometidas contra as mulheres pelos fundamentalistas, em nome de uma tolerância, que pode ser fraqueza ou ignorância dos textos da religião muçulmana.

Para a Voltaire negra, a cultura muçulmana precisa ter seu século das Luzes, como ocorreu na França no século XVIII.




(16 de fevereiro/2008)
CooJornal no 568


Rui Martins é jornalista, autor de "O Dinheiro sujo da Corrupção"
correspondente internacional na Suíça
ruimartins@hispeed.ch