23/02/2008
Número - 569

ARQUIVO  
RUI MARTINS

 
Rui Martins



RIGOLETTO, A ÓPERA POLÍTICA DE VERDI


 

Quem poderia imaginar que a origem do trecho de ópera mais conhecido, cantado e assoviado em todo mundo – é de crítica política?

A mulher é volúvel, qual pluma ao vento ela muda de tom de voz e de pensamento, sempre amável e de rosto bonito, sorrindo ou chorando, está sempre mentindo, cantava o cínico, mulherengo e machista duque de Mantova, na música de Giuseppe Verdi.

A melodia do La donna è mobile resiste à moda das composições techno artificiais e, apesar das palavras depreciativas da mulher, é um dos toques de celular mais populares na Itália. Esse refrão é um dos trechos fortes e o mais popular da ópera Rigoletto, inspirada na peça O rei se Diverte, drama escrito por Vitor Hugo, em 1832, e com encenação imediatamente proibida por ser uma crítica ao debochado rei francês François I, à sociedade da época e à sua hipocrisia.

Por que essa referência a Verdi, Rigoletto e Vitor Hugo?

Para falar da estréia da ópera Rigoletto, dirigida por Reto Nickler, no Teatro Municipal de Berna, agora sob o novo administrador Marc Adam. Por uma razão especial – a visão vanguardista da cena dessa ópera criada há 150 anos, por Reto Nickler. “A cena da ópera não é um museu, disse ele numa entrevista, mas um espetáculo ao vivo, que deve assim ser representado”.

Bela frase, porém como dar um formato novo a uma ópera verdiana, mais que centenária, num mundo mais ligado ao visual virtual que ao real? É claro, para ser ópera, não se pode mudar o libreto, nem o idioma, nem o canto. Mas se pode mudar a cena. Carmen, de Bizet, e Madame Butterfly, de Puccini, já inspiraram algumas versões cinematográficas, sem que fossem traídos seus compositores.

Entretanto, no caso do cinema, pode-se recorrer ao recurso da mobilidade nas cenas externas. Num teatro, com espaço restrito, o cenário pouco pode mudar. Ora, Reto Nickler procurou vencer essa limitação recorrendo aos mais recentes recursos visuais da nossa sociedade - as câmeras de vigilância, para que os espectadores possam ser informados do que se passa ou se passou fora de cena. As telas móveis dos monitores são um recurso adicional ao que se passa no palco. A idéia inovadora, entregue a uma sociedade alemã de vídeos poderia ter sido mais criativa, porém vale pela ousadia.

O espaço do palco é contido dentro da caixa de um aparelho tevê gigante que se abre e fecha para dar entrada e acesso à tela aos aristocratas envolvidos no drama, cuja idéia central é uma maldição lançada sobre o bufão da corte, Rigoletto, que incentiva a sedução do duque sobre as mulheres e ridiculariza os maridos cornudos e os pais com filhas desonradas. Corcunda, rejeitado, Rigoletto desfruta de uma posição protegida numa classe à qual não pertence. E isso vai lhe custar a vida de sua filha, vítima do apetite voraz do duque.

Não acredito haver um despertar de consciência social nos espectadores abastados desse espetáculo de elite que é a ópera, mas no original de Vitor Hugo e na trama de Verdi, a crítica é evidente – conviver com o poder não dá igualdade com seus detentores. A maldição de Monterone, o pai ultrajado, é a mesma maldição lançada sobre os vendidos de toda espécie que, no fim, pagam caro sua pretensão e ao mesmo tempo sua ingenuidade.




(23 de fevereiro/2008)
CooJornal no 569


Rui Martins é jornalista, autor de "O Dinheiro sujo da Corrupção"
correspondente internacional na Suíça
ruimartins@hispeed.ch