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Rui Martins
RIGOLETTO, A ÓPERA POLÍTICA DE VERDI
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Quem poderia imaginar que a origem do trecho
de ópera mais conhecido, cantado e assoviado em todo mundo – é de crítica
política?
A mulher é volúvel, qual pluma ao vento ela muda de tom de voz e de
pensamento, sempre amável e de rosto bonito, sorrindo ou chorando, está
sempre mentindo, cantava o cínico, mulherengo e machista duque de Mantova,
na música de Giuseppe Verdi.
A melodia do La donna è mobile resiste à moda das composições
techno artificiais e, apesar das palavras depreciativas da mulher, é um
dos toques de celular mais populares na Itália. Esse refrão é um dos
trechos fortes e o mais popular da ópera Rigoletto, inspirada na peça O
rei se Diverte, drama escrito por Vitor Hugo, em 1832, e com encenação
imediatamente proibida por ser uma crítica ao debochado rei francês
François I, à sociedade da época e à sua hipocrisia.
Por que essa referência a Verdi, Rigoletto e Vitor Hugo?
Para falar da estréia da ópera Rigoletto, dirigida por Reto Nickler, no
Teatro Municipal de Berna, agora sob o novo administrador Marc Adam. Por
uma razão especial – a visão vanguardista da cena dessa ópera criada há
150 anos, por Reto Nickler. “A cena da ópera não é um museu, disse ele
numa entrevista, mas um espetáculo ao vivo, que deve assim ser
representado”.
Bela frase, porém como dar um formato novo a uma ópera verdiana, mais que
centenária, num mundo mais ligado ao visual virtual que ao real? É claro,
para ser ópera, não se pode mudar o libreto, nem o idioma, nem o canto.
Mas se pode mudar a cena. Carmen, de Bizet, e Madame Butterfly, de Puccini,
já inspiraram algumas versões cinematográficas, sem que fossem traídos
seus compositores.
Entretanto, no caso do cinema, pode-se recorrer ao recurso da mobilidade
nas cenas externas. Num teatro, com espaço restrito, o cenário pouco pode
mudar. Ora, Reto Nickler procurou vencer essa limitação recorrendo aos
mais recentes recursos visuais da nossa sociedade - as câmeras de
vigilância, para que os espectadores possam ser informados do que se passa
ou se passou fora de cena. As telas móveis dos monitores são um recurso
adicional ao que se passa no palco. A idéia inovadora, entregue a uma
sociedade alemã de vídeos poderia ter sido mais criativa, porém vale pela
ousadia.
O espaço do palco é contido dentro da caixa de um aparelho tevê gigante
que se abre e fecha para dar entrada e acesso à tela aos aristocratas
envolvidos no drama, cuja idéia central é uma maldição lançada sobre o
bufão da corte, Rigoletto, que incentiva a sedução do duque sobre as
mulheres e ridiculariza os maridos cornudos e os pais com filhas
desonradas. Corcunda, rejeitado, Rigoletto desfruta de uma posição
protegida numa classe à qual não pertence. E isso vai lhe custar a vida de
sua filha, vítima do apetite voraz do duque.
Não acredito haver um despertar de consciência social nos espectadores
abastados desse espetáculo de elite que é a ópera, mas no original de
Vitor Hugo e na trama de Verdi, a crítica é evidente – conviver com o
poder não dá igualdade com seus detentores. A maldição de Monterone, o pai
ultrajado, é a mesma maldição lançada sobre os vendidos de toda espécie
que, no fim, pagam caro sua pretensão e ao mesmo tempo sua ingenuidade.
(23 de fevereiro/2008)
CooJornal
no 569
Rui Martins é jornalista, autor de "O Dinheiro sujo
da Corrupção"
correspondente internacional na Suíça
ruimartins@hispeed.ch
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