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Rui Martins
Alemães
querem fechar as
cavernas européias de Ali Babá
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Os governos europeus não querem mais sofrer
a sangria das evasões fiscais e fugas de capitais para os paraísos
fiscais.
Os alemães decidiram punir duramente todos seus cidadãos fraudadores do
fisco, pois descobriram os malefícios dos paraísos fiscais com seus
segredos bancários que lhes subtraem capitais destinados à população e ao
progresso do país. É o caso de se dizer, enfim! Mas irão mesmo os alemães
conseguir o impossível – fechar as cavernas de Ali Baba, existentes na
Suíça, Luxemburgo, Andorra, Áustria, Mônaco e Liechetenstein, para se
citar só os mais importantes da Europa?
A Suíça inventou o segredo bancário em 1934, quando percebeu que o
desenvolvimento do nazismo levaria muita gente a tentar salvar suas
economias depositando-as num país neutro. O sucesso foi maior que o
esperado. Os depósitos de capitais em busca de proteção, diante do risco
de guerra, foram se avolumando. A guerra mostrou uma Suíça ilesa em meio a
uma Europa destruída e reforçou a confiança dos interessados em guardar
seu dinheiro, proveniente dos seus próprios esforços ou subtraídos dos
cofres de seus países ou ainda fugidos do fisco para os cofres alpinos.
Dos milhões as somas chegaram aos trilhões e seus bancos se tornaram
potentes, participando mesmo da gestão do país e colonizando o parlamento.
O segredo bancário passou a ser um dos pilares de sua riqueza, que, mesmo
mal distribuída, criou trabalhadores e classe média acima dos níveis
europeus, anestesiados em questões sociais.
Em 1976, um jovem esquerdista, vindo do ex-Congo belga, onde trabalhava
para a ONU no momento da independência e do assassinato de Lumumba,
escreveu o livro Uma Suíça acima de qualquer suspeita, mostrando que os
bancos suíços com suas contas secretas, já não serviam mais para proteger
capitais com medo da guerra, mas para aspirar as riquezas dos países
pobres, transferidas por seus políticos e ditadores para os cofres suíços.
Considerado um traidor da pátria durante uns vinte anos, Jean Ziegler viu
reconhecidas suas teses contra os banqueiros, logo depois da criação da
União Européia. Os paraísos fiscais europeus constituem uma tentação para
os milionários, incapazes de repartir seus excessos de ganhos e de pagar
seus impostos. A União Européia tentou acabar, sem sucesso, com a atração
exercida por esses paraísos. Com algum malabarismo, a Suíça e seu
prolongamento financeiro conhecido como principado do Liechtenstein
conseguiu contornar as novas exigências fiscais, esperando ter pelo menos
mais dez anos de segredo bancário.
Agora, esse prazo parece destinado a uma drástica redução. Um funcionário
de banco do Liechtenstein vendeu milhares de nomes de clientes do seu
paraíso fiscal à Alemanha, trocou de nome, ganhou documentos e passaporte
alemães antes de desaparecer e estourar o escândalo dos fraudadores do
fisco de diferentes nacionalidades européias, pois a Alemanha revendeu
para o fisco dos países vizinhos a lista de nomes de milionários comprada
por cerca de três milhões de dólares.
Vai acabar o segredo bancário? Com certeza acabará para os europeus. Não
ainda para os cidadãos dos países emergentes, como o nosso, e dos países
pobres. Para isso, seria necessária uma ação de caça aos fraudadores igual
à desencadeada pelos alemães. Porém, ter uma conta bancária secreta ainda
é para muitos políticos não-europeus uma questão de status e de segurança
para o futuro. Dizem que só do Brasil existem mais de cem bilhões
guardados na Suíça, sem se falar dos outros paraísos fiscais como Ilhas
Caymans. Mesmo que algum bancário suíço oferecesse os nomes dos clientes
detentores desses bilhões, nenhum governo sul-americano ou africano
compraria, porque, infelizmente, mesmo muita gente de esquerda tem o rabo
curto. Mas seria uma bela campanha, se os países emergentes e pobres,
inspirados pelo exemplo alemão, decidissem pedir de volta os trilhões
depositados nos paraísos bancários europeus. Seria uma maneira de
compensar a pauperização atual provocada pelo neoliberalismo.
(08 de março/2008)
CooJornal
no 571