08/03/2008
Número - 571

ARQUIVO  
RUI MARTINS

 
Rui Martins



Alemães querem fechar as
cavernas européias de Ali Babá


 

Os governos europeus não querem mais sofrer a sangria das evasões fiscais e fugas de capitais para os paraísos fiscais.

Os alemães decidiram punir duramente todos seus cidadãos fraudadores do fisco, pois descobriram os malefícios dos paraísos fiscais com seus segredos bancários que lhes subtraem capitais destinados à população e ao progresso do país. É o caso de se dizer, enfim! Mas irão mesmo os alemães conseguir o impossível – fechar as cavernas de Ali Baba, existentes na Suíça, Luxemburgo, Andorra, Áustria, Mônaco e Liechetenstein, para se citar só os mais importantes da Europa?

A Suíça inventou o segredo bancário em 1934, quando percebeu que o desenvolvimento do nazismo levaria muita gente a tentar salvar suas economias depositando-as num país neutro. O sucesso foi maior que o esperado. Os depósitos de capitais em busca de proteção, diante do risco de guerra, foram se avolumando. A guerra mostrou uma Suíça ilesa em meio a uma Europa destruída e reforçou a confiança dos interessados em guardar seu dinheiro, proveniente dos seus próprios esforços ou subtraídos dos cofres de seus países ou ainda fugidos do fisco para os cofres alpinos.

Dos milhões as somas chegaram aos trilhões e seus bancos se tornaram potentes, participando mesmo da gestão do país e colonizando o parlamento. O segredo bancário passou a ser um dos pilares de sua riqueza, que, mesmo mal distribuída, criou trabalhadores e classe média acima dos níveis europeus, anestesiados em questões sociais.

Em 1976, um jovem esquerdista, vindo do ex-Congo belga, onde trabalhava para a ONU no momento da independência e do assassinato de Lumumba, escreveu o livro Uma Suíça acima de qualquer suspeita, mostrando que os bancos suíços com suas contas secretas, já não serviam mais para proteger capitais com medo da guerra, mas para aspirar as riquezas dos países pobres, transferidas por seus políticos e ditadores para os cofres suíços.

Considerado um traidor da pátria durante uns vinte anos, Jean Ziegler viu reconhecidas suas teses contra os banqueiros, logo depois da criação da União Européia. Os paraísos fiscais europeus constituem uma tentação para os milionários, incapazes de repartir seus excessos de ganhos e de pagar seus impostos. A União Européia tentou acabar, sem sucesso, com a atração exercida por esses paraísos. Com algum malabarismo, a Suíça e seu prolongamento financeiro conhecido como principado do Liechtenstein conseguiu contornar as novas exigências fiscais, esperando ter pelo menos mais dez anos de segredo bancário.

Agora, esse prazo parece destinado a uma drástica redução. Um funcionário de banco do Liechtenstein vendeu milhares de nomes de clientes do seu paraíso fiscal à Alemanha, trocou de nome, ganhou documentos e passaporte alemães antes de desaparecer e estourar o escândalo dos fraudadores do fisco de diferentes nacionalidades européias, pois a Alemanha revendeu para o fisco dos países vizinhos a lista de nomes de milionários comprada por cerca de três milhões de dólares.

Vai acabar o segredo bancário? Com certeza acabará para os europeus. Não ainda para os cidadãos dos países emergentes, como o nosso, e dos países pobres. Para isso, seria necessária uma ação de caça aos fraudadores igual à desencadeada pelos alemães. Porém, ter uma conta bancária secreta ainda é para muitos políticos não-europeus uma questão de status e de segurança para o futuro. Dizem que só do Brasil existem mais de cem bilhões guardados na Suíça, sem se falar dos outros paraísos fiscais como Ilhas Caymans. Mesmo que algum bancário suíço oferecesse os nomes dos clientes detentores desses bilhões, nenhum governo sul-americano ou africano compraria, porque, infelizmente, mesmo muita gente de esquerda tem o rabo curto. Mas seria uma bela campanha, se os países emergentes e pobres, inspirados pelo exemplo alemão, decidissem pedir de volta os trilhões depositados nos paraísos bancários europeus. Seria uma maneira de compensar a pauperização atual provocada pelo neoliberalismo.



(08 de março/2008)
CooJornal no 571


Rui Martins é jornalista, autor de "O Dinheiro sujo da Corrupção"
correspondente internacional na Suíça
ruimartins@hispeed.ch