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Rui Martins
O BRASIL NÃO TEM O
MONOPÓLIO DA CORRUPÇÃO
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Às vezes fico preocupado com o negativismo
ou o pessimismo dos brasileiros, com as afirmações de que "a maior
corrupção do mundo está aqui, a Justiça mais cega está aqui, as maiores
safadezas se fazem aqui".
Realmente, o Brasil não é nenhum paraíso, mas vamos com calma, será que
não existe corrupção, safadeza e arbitrariedade nos outros países mais
avançados, os chamados do Primeiro Mundo ?
A título de ilustração vou contar um caso estampado, nos últimos dias, nas
primeiras páginas dos jornais suíços e mesmo com longos minutos, por
diversos dias, na televisão. Envolve um informático português, imigrante
na Suíça, e a direção da Rádio Suíça Romande ou de língua francesa.
Jorge Resende é o nome do português, imigrante na Suíça há 16 anos. Chegou
como serralheiro, viveu aquela vida dura de todo imigrante, mas, lutador,
conseguiu fazer um curso de informática, tornou-se um especialista e
conseguiu trabalhar como informático da Rádio Suíça Romande. Passou a
ganhar um bom salário, necessário para educar suas três filhas, duas no
colégio e a mais nova no ginásio.
Ora, ninguém nunca está livre de um azar. E, quando tudo parecia resolvido
na vida do Jorge Resende, que chegou mesmo a pedir a naturalização suíça,
aconteceu seu dia de azar. Ao procurar resolver um problema no computador
da rádio, localizou no lugar de arquivos apagados os vestígios de fotos de
crianças e olhando melhor viu serem fotos pornográficas com meninas e,
portanto, fotos pedófilas.
Porém, não eram só fotos deletadas, havia algumas centenas guardadas num
arquivo pesado. E como estava no coração do computador percebeu
estarrecido fazerem parte do arquivo de gente da direção da rádio. Pior
ainda, as fotos não tinham vindo de algum site pedófilo da Internet e ali
gravadas, tudo indicava se tratar de fotos transferidas de uma máquina
fotógrafica digital.
Ou seja, fotos feitas em algum lugar privado pelo alto funcionário ou
mesmo numa festinha pedófila. Jorge Resende ficou estarrecido e contou
para seu chefe imediato que, depois de constatar o uso indevido dos
arquivos da rádio para fotos pedófilas, descoberto por acaso, enviou um
memorando para a direção.
Jorge Resende foi chamado pela direção e ali lhe informaram que a Rádio ia
tomar as providências necessárias, mas que ele não deveria de forma alguma
comentar com seus colegas sua descoberta, sob pena de demissão.
Ora, a Rádio advertiu no alto funcionário, mandou ele se tratar com um
psiquiatra e enterrou o caso, mesmo porque o tal funcionário estava
predestinado a dirigir um canal de televisão. Jorge Resende, com seu
segredo virando úlcera e não vendo nada acontecer, decidiu falar logo
depois de uma festa de Natal na rádio, onde a direção distribuía presentes
para os filhos e filhas dos empregados.
Chamou seu chefe e avisou que não podia ser cúmplice com seu silêncio.
Logo a seguir foi demitido. Mas o caso acabou se tornando conhecido pela
Polícia, que requisitou computadores da direção da rádio. Ora, uma rádio
não é a mesma coisa que uma fábrica de um produto qualquer. Uma rádio mexe
com comunicação, com informações, com o grande público. Um pedófilo na
alta cúpula de uma rádio é coisa perigosa.
Portanto, a rádio vem perdendo sua credibilidade, enquanto seus
funcionários exigem a punição do pedófilo e a reintegração do empregado
demitido por ter agido corretamente. A rádio já ofereceu uma boa
indenização para Jorge Resende sair pela porta dos fundos, mas ele
rejeita, deseja apenas ser readmitido e promete acampar diante da rádio
enquanto não obtiver essa reintegração.
No passado, um guarda-noturno suíço, em Zurique, salvou um pacote de
documentos que o banco UBS ia destruir, relacionado com o roubo do
dinheiro deixado nos seus cofres por judeus mortos no holocausto. Os
documentos foram entregues à Polícia, que os devolveu ao banco e o
guarda-noturno foi processado por violação do segredo bancário. Precisou
fugir da Suíça e se tornou o primeiro refugiado suíço nos EUA. O Congresso
americano lhe deu o asilo e Clinton lhe providenciou um green card.
Jorge Resende vive num apartamento simples com sua família, e agora não
tem mais dinheiro para pagar o aluguél. Enquanto isso, a rádio diz que o
honesto português não foi demitido por ter achado as fotos
comprometedoras, mas por não ter guardado o silêncio pedido.
Como vêem, a hipocrisia, a safadeza e a corrupção não são monopólio do
Brasil.
(19 de abril/2008)
CooJornal
no 577