19/04/2008
Número - 577

ARQUIVO  
RUI MARTINS

 
Rui Martins



O BRASIL NÃO TEM O MONOPÓLIO DA CORRUPÇÃO



 

Às vezes fico preocupado com o negativismo ou o pessimismo dos brasileiros, com as afirmações de que "a maior corrupção do mundo está aqui, a Justiça mais cega está aqui, as maiores safadezas se fazem aqui".

Realmente, o Brasil não é nenhum paraíso, mas vamos com calma, será que não existe corrupção, safadeza e arbitrariedade nos outros países mais avançados, os chamados do Primeiro Mundo ?

A título de ilustração vou contar um caso estampado, nos últimos dias, nas primeiras páginas dos jornais suíços e mesmo com longos minutos, por diversos dias, na televisão. Envolve um informático português, imigrante na Suíça, e a direção da Rádio Suíça Romande ou de língua francesa.

Jorge Resende é o nome do português, imigrante na Suíça há 16 anos. Chegou como serralheiro, viveu aquela vida dura de todo imigrante, mas, lutador, conseguiu fazer um curso de informática, tornou-se um especialista e conseguiu trabalhar como informático da Rádio Suíça Romande. Passou a ganhar um bom salário, necessário para educar suas três filhas, duas no colégio e a mais nova no ginásio.

Ora, ninguém nunca está livre de um azar. E, quando tudo parecia resolvido na vida do Jorge Resende, que chegou mesmo a pedir a naturalização suíça, aconteceu seu dia de azar. Ao procurar resolver um problema no computador da rádio, localizou no lugar de arquivos apagados os vestígios de fotos de crianças e olhando melhor viu serem fotos pornográficas com meninas e, portanto, fotos pedófilas.

Porém, não eram só fotos deletadas, havia algumas centenas guardadas num arquivo pesado. E como estava no coração do computador percebeu estarrecido fazerem parte do arquivo de gente da direção da rádio. Pior ainda, as fotos não tinham vindo de algum site pedófilo da Internet e ali gravadas, tudo indicava se tratar de fotos transferidas de uma máquina fotógrafica digital.

Ou seja, fotos feitas em algum lugar privado pelo alto funcionário ou mesmo numa festinha pedófila. Jorge Resende ficou estarrecido e contou para seu chefe imediato que, depois de constatar o uso indevido dos arquivos da rádio para fotos pedófilas, descoberto por acaso, enviou um memorando para a direção.

Jorge Resende foi chamado pela direção e ali lhe informaram que a Rádio ia tomar as providências necessárias, mas que ele não deveria de forma alguma comentar com seus colegas sua descoberta, sob pena de demissão.

Ora, a Rádio advertiu no alto funcionário, mandou ele se tratar com um psiquiatra e enterrou o caso, mesmo porque o tal funcionário estava predestinado a dirigir um canal de televisão. Jorge Resende, com seu segredo virando úlcera e não vendo nada acontecer, decidiu falar logo depois de uma festa de Natal na rádio, onde a direção distribuía presentes para os filhos e filhas dos empregados.

Chamou seu chefe e avisou que não podia ser cúmplice com seu silêncio. Logo a seguir foi demitido. Mas o caso acabou se tornando conhecido pela Polícia, que requisitou computadores da direção da rádio. Ora, uma rádio não é a mesma coisa que uma fábrica de um produto qualquer. Uma rádio mexe com comunicação, com informações, com o grande público. Um pedófilo na alta cúpula de uma rádio é coisa perigosa.

Portanto, a rádio vem perdendo sua credibilidade, enquanto seus funcionários exigem a punição do pedófilo e a reintegração do empregado demitido por ter agido corretamente. A rádio já ofereceu uma boa indenização para Jorge Resende sair pela porta dos fundos, mas ele rejeita, deseja apenas ser readmitido e promete acampar diante da rádio enquanto não obtiver essa reintegração.

No passado, um guarda-noturno suíço, em Zurique, salvou um pacote de documentos que o banco UBS ia destruir, relacionado com o roubo do dinheiro deixado nos seus cofres por judeus mortos no holocausto. Os documentos foram entregues à Polícia, que os devolveu ao banco e o guarda-noturno foi processado por violação do segredo bancário. Precisou fugir da Suíça e se tornou o primeiro refugiado suíço nos EUA. O Congresso americano lhe deu o asilo e Clinton lhe providenciou um green card.

Jorge Resende vive num apartamento simples com sua família, e agora não tem mais dinheiro para pagar o aluguél. Enquanto isso, a rádio diz que o honesto português não foi demitido por ter achado as fotos comprometedoras, mas por não ter guardado o silêncio pedido.

Como vêem, a hipocrisia, a safadeza e a corrupção não são monopólio do Brasil.





(19 de abril/2008)
CooJornal no 577


Rui Martins é jornalista, autor de "O Dinheiro sujo da Corrupção"
correspondente internacional na Suíça
ruimartins@hispeed.ch