14/06/2008
Número - 585

ARQUIVO  
RUI MARTINS

 
Rui Martins



MULHER PERDE DIREITO COM ISLAMIZAÇÃO



 

Quando um Estado laico por excelência, como a França, aceita anular um casamento por defeito constatado na vagina da mulher, na noite das núpcias, é bom todas as mulheres colocarem a barba ou os pelos e pentelhos de molho.

O pedido de anulação não foi feito por um machão latino-americano, como poderia ocorrer nos anos 50, antes da revolução sexual ocidental, mas por um marido muçulmano, engenheiro, casado com uma jovem muçulmana estudante, portanto, ambos de nível cultural universitário.

O marido, que entrou na justiça com o pedido de divórcio amigável e ganhou sentença favorável com base “no erro sobre as qualidades da pessoa”, conseguiu assim, dentro do território laico francês, a aplicação da lei religiosa do Corão, a charia, que permite a anulação de casamento quando se constata que a noiva não é virgem.

Voltaire e todos os ateus do iluminismo, que acabaram com a teocracia católica romana na França, devem ter estremecido em suas tumbas – o laicismo ou separação entre Estado e religião, princípio vigente nos países ocidentais, obtido pelos maçons na proclamação da república brasileira, começa a ser posto em questão na Europa, a pretexto de se respeitar a religião muçulmana dos imigrantes árabes.

Há cerca de seis meses, foi o próprio cardeal anglicano de Canterbury, na Inglaterra, que soltou um primeiro balão de ensaio, ao se pronunciar em favor da aplicação da lei da charia, a lei deixada por Maomé no Corão, nos conflitos envolvendo imigrantes vivendo nas comunidades muçulmanas.

Ora, há seis anos, um professor em Genebra, filho do criador do movimento fundamentalista de origem egípcia Irmãos Muçulmanos, Hani Ramadan, provocou tremores na inteligência francesa, ao defender a aplicação da charia muçulmana, num artigo publicado no jornal Le Monde, numa questão mais grave que virgindade da noiva.

Hani Ramadan, irmão do líder muçulmano, Tarik Ramadan, tentou justificar para os exigentes leitores do Le Monde, a lapidação ou apedrejamento até a morte das mulheres adúlteras e o ato de se decepar as mãos dos ladrões. Isso na época da condenação à morte por lapidação, na Nigéria, de duas mulheres tidas como adúlteras, Safyia e Amina, quando centenas de milhares de homens e mulheres ocidentais pediam por carta ou e-mail à Nigéria a anulação desse suplício digno da nossa época medieval.

Rani Hamadan foi demitido da escola onde lecionava pelo governo de Genebra, porém, acabou sendo indenizado com cerca de 500 mil dólares, por vício de forma na demissão do professor.

Ainda este mês, o jornal holandês De Telegraaf publicou uma manchete inquietante: "KLM cede a um pedido sexista de uma muçulmana". Do que se tratava?

Simples, o líder do partido democrata-cristão Alex Van Drooge, de Amsterdã, viajava num avião da empresa aérea KLM, quando lhe pediram para trocar de lugar. Como perguntasse a razão, ficou sabendo que sua vizinha de assento, de véu fundamentalista muçulmano cobrindo a cabeça e parte do rosto (chador), tinha explicado que sua religião proibia viajar ao lado de um homem estranho à sua família. E o jornal perguntava, diante do ocorrido, se havia uma islamização dos costumes na Holanda e precisamente na KLM.

Em todo caso, existe um setor da medicina que vem sendo adaptado em todos os hospitais europeus, a pretexto de respeito da religião – as mulheres grávidas muçulmanas ou seus maridos exigem serem mulheres médicas ginecologistas que acompanhem a gravidez e o parto. Como alguns hospitais franceses rejeitam essa exigência, muitas mulheres grávidas muçulmanas sem condições de ir a uma clínica privada ficam sem fazer o pré-natal.

Nas escolas, os pais muçulmanos pedem dispensa de suas filhas das aulas de natação e dos cursos de educação física, quando deles participam também meninos ou rapazes. E, em algumas cidades européias, as piscinas locais têm um dia exclusivo para as mulheres muçulmanas, alugado por suas associações.

Enquanto muitos justificam essas exceções em nome de respeito à liberdade religiosa, muitos franceses não entendem como um Estado láico se sente obrigado a criar diferenças entre seus cidadãos e cidadãs em nome de culto religioso.

O caso da noiva não-virgem provocou numerosos protestos entre as associações femininas, preocupadas com o risco de um retorno à mulher objeto, obrigada a não apresentar nenhum traço de utilização anterior, antes de ser consumida pelo marido. “Não haverá necessidade de tribunais muçulmanos, se a justiça francesa se dobra diante da charia e aceita aplicar suas leis sexistas e ultrapassadas”, diz uma dessas associações.

Nos meios jurídicos franceses diz-se que será preciso uma nova lei, deixando claro que a questão da virgindade não pode ser invocada numa anulação de casamento. Enquanto isso, a decisão cria jurisprudência e, como nos países muçulmanos, haverá na França numerosos pedidos de anulação por não-virgindade da noiva, obrigando as jovens muçulmanas não virgens mas sujeitas às leis da família e religião, ao recurso da reconstituição cirúrgica do hímen.

Existem na França muitas anulações de casamentos obrigados, arranjados pelos pais, segundo a tradição muçulmana, em que as noivas vão conhecer seus maridos não virgens, geralmente bem mais velhos, no leito nupcial.

PS. A ministra francesa da Justiça, de origem argelina, decidiu recorrer da anulação do casamento, embora tivesse aceitado no início, diante da revolta geral provocada. Nada impede ao casal se divorciar por mútuo consentimento, porém anular-se um casamento por hímen deflorado a pretexto de que a mulher mentiu ser virgem, seria uma violenta marcha à ré nos direitos conquistados pelas mulheres.




(14 de junho/2008)
CooJornal no 586


Rui Martins é jornalista, autor de "O Dinheiro sujo da Corrupção"
correspondente internacional na Suíça
ruimartins@hispeed.ch