|
Rui Martins
MULHER PERDE DIREITO COM ISLAMIZAÇÃO
|
 |
Quando um Estado laico por excelência,
como a França, aceita anular um casamento por defeito constatado na vagina
da mulher, na noite das núpcias, é bom todas as mulheres colocarem a barba
ou os pelos e pentelhos de molho.
O pedido de anulação não foi feito por um machão latino-americano, como
poderia ocorrer nos anos 50, antes da revolução sexual ocidental, mas por
um marido muçulmano, engenheiro, casado com uma jovem muçulmana estudante,
portanto, ambos de nível cultural universitário.
O marido, que entrou na justiça com o pedido de divórcio amigável e ganhou
sentença favorável com base “no erro sobre as qualidades da pessoa”,
conseguiu assim, dentro do território laico francês, a aplicação da lei
religiosa do Corão, a charia, que permite a anulação de casamento quando
se constata que a noiva não é virgem.
Voltaire e todos os ateus do iluminismo, que acabaram com a teocracia
católica romana na França, devem ter estremecido em suas tumbas – o
laicismo ou separação entre Estado e religião, princípio vigente nos
países ocidentais, obtido pelos maçons na proclamação da república
brasileira, começa a ser posto em questão na Europa, a pretexto de se
respeitar a religião muçulmana dos imigrantes árabes.
Há cerca de seis meses, foi o próprio cardeal anglicano de Canterbury, na
Inglaterra, que soltou um primeiro balão de ensaio, ao se pronunciar em
favor da aplicação da lei da charia, a lei deixada por Maomé no Corão, nos
conflitos envolvendo imigrantes vivendo nas comunidades muçulmanas.
Ora, há seis anos, um professor em Genebra, filho do criador do movimento
fundamentalista de origem egípcia Irmãos Muçulmanos, Hani Ramadan,
provocou tremores na inteligência francesa, ao defender a aplicação da
charia muçulmana, num artigo publicado no jornal Le Monde, numa questão
mais grave que virgindade da noiva.
Hani Ramadan, irmão do líder muçulmano, Tarik Ramadan, tentou justificar
para os exigentes leitores do Le Monde, a lapidação ou apedrejamento até a
morte das mulheres adúlteras e o ato de se decepar as mãos dos ladrões.
Isso na época da condenação à morte por lapidação, na Nigéria, de duas
mulheres tidas como adúlteras, Safyia e Amina, quando centenas de milhares
de homens e mulheres ocidentais pediam por carta ou e-mail à Nigéria a
anulação desse suplício digno da nossa época medieval.
Rani Hamadan foi demitido da escola onde lecionava pelo governo de
Genebra, porém, acabou sendo indenizado com cerca de 500 mil dólares, por
vício de forma na demissão do professor.
Ainda este mês, o jornal holandês De Telegraaf publicou uma manchete
inquietante: "KLM cede a um pedido sexista de uma muçulmana". Do que se
tratava?
Simples, o líder do partido democrata-cristão Alex Van Drooge, de
Amsterdã, viajava num avião da empresa aérea KLM, quando lhe pediram para
trocar de lugar. Como perguntasse a razão, ficou sabendo que sua vizinha
de assento, de véu fundamentalista muçulmano cobrindo a cabeça e parte do
rosto (chador), tinha explicado que sua religião proibia viajar ao lado de
um homem estranho à sua família. E o jornal perguntava, diante do
ocorrido, se havia uma islamização dos costumes na Holanda e precisamente
na KLM.
Em todo caso, existe um setor da medicina que vem sendo adaptado em todos
os hospitais europeus, a pretexto de respeito da religião – as mulheres
grávidas muçulmanas ou seus maridos exigem serem mulheres médicas
ginecologistas que acompanhem a gravidez e o parto. Como alguns hospitais
franceses rejeitam essa exigência, muitas mulheres grávidas muçulmanas sem
condições de ir a uma clínica privada ficam sem fazer o pré-natal.
Nas escolas, os pais muçulmanos pedem dispensa de suas filhas das aulas de
natação e dos cursos de educação física, quando deles participam também
meninos ou rapazes. E, em algumas cidades européias, as piscinas locais
têm um dia exclusivo para as mulheres muçulmanas, alugado por suas
associações.
Enquanto muitos justificam essas exceções em nome de respeito à liberdade
religiosa, muitos franceses não entendem como um Estado láico se sente
obrigado a criar diferenças entre seus cidadãos e cidadãs em nome de culto
religioso.
O caso da noiva não-virgem provocou numerosos protestos entre as
associações femininas, preocupadas com o risco de um retorno à mulher
objeto, obrigada a não apresentar nenhum traço de utilização anterior,
antes de ser consumida pelo marido. “Não haverá necessidade de tribunais
muçulmanos, se a justiça francesa se dobra diante da charia e aceita
aplicar suas leis sexistas e ultrapassadas”, diz uma dessas associações.
Nos meios jurídicos franceses diz-se que será preciso uma nova lei,
deixando claro que a questão da virgindade não pode ser invocada numa
anulação de casamento. Enquanto isso, a decisão cria jurisprudência e,
como nos países muçulmanos, haverá na França numerosos pedidos de anulação
por não-virgindade da noiva, obrigando as jovens muçulmanas não virgens
mas sujeitas às leis da família e religião, ao recurso da reconstituição
cirúrgica do hímen.
Existem na França muitas anulações de casamentos obrigados, arranjados
pelos pais, segundo a tradição muçulmana, em que as noivas vão conhecer
seus maridos não virgens, geralmente bem mais velhos, no leito nupcial.
PS. A ministra francesa da Justiça, de origem argelina, decidiu recorrer
da anulação do casamento, embora tivesse aceitado no início, diante da
revolta geral provocada. Nada impede ao casal se divorciar por mútuo
consentimento, porém anular-se um casamento por hímen deflorado a pretexto
de que a mulher mentiu ser virgem, seria uma violenta marcha à ré nos
direitos conquistados pelas mulheres.
(14 de junho/2008)
CooJornal
no 586