Sarita Barros


PÁSSARO PRETO

Creio que o Cosmos nos fala através de pequenos sinais. Que "coincidências" e "acasos" trazem lições ou oportunidades. Folheava revista, já lida, quando não mais que de repente por "puro acaso", sou atraída por crônica em torno "da quase captura de um pássaro preto". O autor manifestava indignação, considerava-se amigo do pássaro. Segundo ele encontravam-se "quase todo dia à hora do café quando vinha comer o alpiste caído da gaiola dos meus canários".

Fiquei estupefata. Primeira expressão lembrada: "macaco, olha o teu rabo!" A liberdade desesperadamente defendida ao "quase apresado pelo vizinho", era desnecessária aos seus? Terá perguntado alguma vez aos canarinhos se preferiam ficar engaiolados, ou cruzar ares livremente? Namorar? Passear? Ter amigos? 

Sentiu felicidade quando: "o calço da portinhola não disparando o belo pássaro preto alçou vôo". A felicidade seria igual se, pela porta da gaiola aberta, suas aves saíssem?

Abominou a tentativa do outro e não conseguiu enxergar-se como carcereiro-de-aves. Se conseguíssemos nos ver com a mesma objetividade com que vemos nosso semelhante...

"Tira primeiro o argueiro do teu olho", falou o Mestre. O mundo é nosso espelho. A odiosa face mostrada é a nossa que nele refletimos.

E eu? Por que essa leitura me deixou reflexiva? Em que escuro guardo a incongruência tão prontamente detectada na atitude do outro? Devo ter pelo menos um 'o que' ou 'alguém' aprisionado em meu ser, ou mundo. Talvez seja um aspecto de mim trancafiado em algum porão da alma.. Sendo professora procuro abrir caminhos e portas aos outros, quais caminhos e portas mantenho fechados em mim? Somos nosso maior enigma. 
(julho 2001)
    


Sarita Barros
produtora cultural, poeta e escritora
RS  
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