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Sarita Barros
Istorinha sem H ou Parábola sem Hipérbole
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Com a cabeça metida no poço desencanto perguntava Rei Nando "quando me trarão almoço?" Paciência, espera um pouco, respondia-lhe a Rainha lá de outro calabouço. Veio arroz com farinha misturado a grãos de ervilha. A cabeça real exclamou: "vejam só que mixaria, quem dera fosse lentilhas! "Cala a boca e come pilantra que nem isso recebiam aqueles que aí minguavam" gritou-lhe o Bobo da Corte enquanto coxinhas de grilo temperadas na manteiga, comia. "Quem me dera ter agora um pouco que fosse das sobras que da palaciana mesa
caíam", exclamou Dona Realeza sem que alguém escutasse sua longa ladainha.
O Rei recusou-se a comer. Foi definhando, definhando, definhando... Saiu pelo ralo. A Rainha fez pacto com o cozinheiro e foi engordando, engordando, engordando até sua circunferência silhuetal rebentar as grades. Foi ser cozinheira no Palácio do Crepúsculo para novos reis sem coroa. Os súditos, alheios ao processo, continuam no poço...
(julho 2001)