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Sarita Barros
PRIMAVERA
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A glicínia sorri perfume pendurada ao muro. Em azuis suaviza a mancha vermelha que o sangue do menino deixou. Menino morto por outro que queria seu tênis. O muro amarelo aparou o sangue. A glicínia o perfuma de azul. Paz sobre a violência. Qual violência? A navalha que encontra carótida ou a que obriga pessoas a procurarem comida entre lixos? O supermercado expõe-se provocativamente a quem não consegue sequer centavos para litro de leite. Colibri verde nacarado achega-se ao muro. Traz poesia nas asas. Beijoqueiro insuperável saltita de racemo em racemo. Um tênis vale uma vida? O "fila" valia um salário mínimo... Uma formiga desce o muro pela trilha vermelho escuro carregando folhinha verde. Mal equilibra-se com o peso. O passante escarra. Condecora-se a mancha. A cortadeira tenta desesperadamente puxar sua folha daquela gosma amarelo esverdeada. Não consegue. Desorienta-se. Não sabe se desce ou sobe. Dá voltas sobre si. Resolve voltar. Vem com muitas companheiras, cada uma com pedacinho de folha. Rebordam a trilha de verde. Verde esperança. Esperança em um mundo melhor. Um mundo onde crianças não matem crianças por um sonho de consumo. Onde mãos humanas não precisem rasgar freneticamente sacos de lixo a procura de fruta semi-apodrecida. Crianças possam ser crianças. E a paz das glicínias não se conjugue ao sangue inocente.
(agosto 2001)