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Sarita Barros
JORGE
AMADO
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Jorge
Amado morreu como viveu. Em meio a poderosos e simples, negros e brancos,
religião afro e católica, aplausos, choro e risos. Diferente, único e
amoroso. Para ele nada de terra a cobrir-lhe os restos para aos poucos
apodrecer. Quis engrandecer e sublimar a carne purificando-a através do
fogo e ser espalhado, pelo ar, no jardim que amava. Existem pessoas que
passam pela vida e não deixam marcas. Outras deixam uma leve impressão.
Outras deixam profundas marcas. Marcas que podem ser de ódio, devastação,
dor, alegria, construção, carinho. Ele deixou profundos sulcos de paz,
contentamento, justiça e amor.
Jorge
Amado conheci através de "Os Subterrâneos da Liberdade". Livro
proibido conseguido através de amigos. Livro que marcou profundamente minha
adolescência. Onde aprendi como o homem pode ser lobo para seu irmão. Como
a ambição, o preconceito e o fanatismo reduzem uns homens a feras, outros
a heróis, uns a carrascos, outros a vítimas, outros ainda a traidores.
Livro tão apavorante em sua crueza e realismo que cheguei a vomitar lendo
certas passagens. Livro que por muito tempo me manteve afastada de outros do
mesmo autor. Depois por acaso encontrei-me com "Capitães de
Areia". Outra linguagem, outro cenário, outras cores, a mesma
mensagem: respeito ao ser humano. Seguiram-se, para mim: Pastores da Noite e
Tendas dos Milagres onde confirmei o que havia deduzido: a pessoa por trás
do escritor era apaixonado pela vida e seus atores. Os tipos humanos mais
comuns e comezinhos ganhavam vida e dignidade. Ele os enchia com a
transbordante luz do seu amor. Ele me ensinou a olhar alguém sempre uma vez
mais, procurar o grandioso que se esconde em cada um por mais insignificante
que nos pareça ao primeiro olhar. Possuí todos os seus livros, e tanto os
fiz circular que minha coleção resumiu-se a "Tereza Batista Cansada
de Guerra". Não me arrependo. Devem ainda estar rodando neste mundo de
Deus. Se cada um que os ler for tocado pela alma sensível, simples e
grandiosa de Jorge Amado, tenho certeza, consegui uma beirinha no céu.
Ele
fez a Bahia e ajudou a amalgamar a alma brasileira. Foi traduzido pelo mundo
inteiro porque soube sintetizar o coração de um povo. Falando da sua Bahia
ajudou a nos encontrarmos com nossa brasileirice, nossa cidadania, nossa
humanidade. Não foi Prefeito, Governador ou Presidente, mas construiu a Nação
Brasileira. Construção essa feita de palavras, amor e sobretudo exemplo de
vida. Lutou por seus ideais, por eles foi preso, execrado, exilado. Por eles
continuou lutando da única forma que sabia à perfeição: seus livros.
Seus livros, nossa carta de alforria.
(agosto 2001)