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Sarita Barros
No Reino Fazdeconta
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Rei Nando preocupado: "Quem pagará despesas da próxima festa no Palácio do Crepúsculo?" Consulta Dona Realeza, concluem: "é preciso assustar nossos súditos". O Grão-Vizir-da-Prata chamado para apresentar soluções, pensa, pensa, pensa e chega à velha receita: " o monstro verde, ó poderoso". Sai correndo. O horrível monstro, pondo fogo pelas ventas, aparece acima muralhas. O povo que se havia juntado para reclamar coisas básicas, estremece apavorado. Corre em todas as direções. O dragão havia comido e queimado tanta gente quando corria solto pelo reino... Ainda lembravam o estrago. Não queriam passar outra vez semelhante experiência. Baixaram a cabeça, apertaram o cinto e foram catar formigas. O Grande Mago fora triturado. Agora, só Espírito procura dar instruções através do vento. Porém os amedrontados habitantes, metidos no poço 'desengano', cérebro embotado na luta pela sobrevivência, não levantam olhos ao céu, nem ouvem o canto do vento: "o monstro preso se alimenta dos sonhos e os cadáveres dos sonhos pesam no cangote mais que o mais pesado jugo".
Sonhos e esperanças amontoam-se no meio da praça... Quando a pilha chega aos céus, Conselheiro Mor, montado em seu Leão feroz ateia fogo. As labaredas crescem e, em seu crepitar: "queima de sonhos, queima de esperança é queima de futuro". A maioria, que tem ouvidos, não escuta e a minoria que escuta, não tem coração. Após a queimação ossinhos oníricos chegam ao bucho do Dragão. Alguns dessonhados e desesperançados ficam apáticos, olhos como
vazados, tomados de torpor enorme recusam-se a sair do caminho. A Guarda Real tem de vir retirá-los. Os cavalos reais os pisoteiam. Outros, tomados de depressão sem fim, afogam-se no rio Álcool que perpassa o Reino todo e outros, entupidos de coloridas pílulas, fazem as coisas mais estranhas... São varridos.
Enquanto o Grão-Vizir-Da-Prata repõe reservas lentamente, Rei Nando e Dona Realeza agem rapidamente: "para grandes males, grandes remédios". Marcam viagem, no Real Tapete Voador, aos Reinos vizinhos. Antes colocam na bandeja dourada miniaturas das riquezas do reino: florestas, óleo negro, água pura, cachoeiras, pedras preciosas, minerais e outras quinquilharias a fim de obsequiarem seus pares. "Estes súditos broncos reclamam quando reinóis vizinhos vêm em busca de mais. Amostra é símbolo do que se troca, todo universo sabe", Rei Nando desabafa com sua Rainha. O tapete suavemente ondula pelo Reino Fazdeconta. O monarca embevecido semicerra olhos suspirando: "como toda essa maravilha vai quedar-se em mãos desse nosso povinho caipira e burro? Essa riqueza merece mãos conhecedoras, capazes e transformadoras". Sorri satisfeito. Pensa finas iguarias, títulos e salamaleques que receberá quando mostrar seu tabuleiro, já um tanto desfalcado, aos cobiçosos olhos. Aperta a mão de Dona Realeza e a plenos pulmões: "serei lembrado nos confins da terra por muitas e muitas gerações!".
(setembro 2001)