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Sarita Barros
ALVÍSSARAS
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Dia desses abri o correio e recebo notícia boa, em primeira mão, de um amigo. Respondi: as alvíssaras são tuas! Alvíssaras... A palavra rolou doce em minha boca. Voltei à infância no Alegrete/RS. Minha vó, que morava em Montevidéu, passava uns dias conosco. Eu e meu mano disputávamos em levar a ela boas notícias. O alvissareiro ganhava um tubinho de drops se limão (eu pensava que se chamavam alvíssaras). Quem lembra dos drops de limão? As boas novas eram: o pintinho quebrou a casca do ovo, a galinha vermelha deu o primeiro passeio com seus filhos, o papagaio aprendeu nova palavra, o Mimi pegou um rato, eu colhi as primeiras amoras, o botão da rosa da mãe abriu, tá chegando a carreta de lenha, tá vindo o homem dos perus (os perus eram pastoreados pelas ruas na época do Natal, escolhidos e comprados, passavam uma semana a milho para limparem e depois serem mortos em solene ritual). Minha infância pertence a outro mundo. Onde a carreta puxada a bois, a carrocinha do padeiro, os tarros do leiteiro presos nos costados do cavalo? A barra de gelo carregada nos ombros, o telefone de manivela que existia em poucas casas ou o rádio RCA Vitor?
Minha avó nunca mentiu sua idade. Quando as amigas diziam que poderia tirar 10 anos, sorria e arrematava:
"cada idade tem o seu encanto, a sua beleza, quem quer aprisionar o tempo fica prisioneiro dele. O tempo é bom amigo e mau carcereiro."
Quantos mundos fizeram parte do meu mundo... Pós-guerra, nova república, guerra-fria, muro de Berlim, ditadura, Brasil ameoudeixeo, imperialismo americano, esquerda/direita, queda do muro, norte/sul e outros. Em todos esses mundos temos sido prisioneiros do tempo por não aceitarmos, nem sermos tolerantes, nem nos solidarizarmos. Sempre há alguém (governo, nação ou facção) querendo aprisionar o tempo, ser Senhor dos acontecimentos.
Desde o dia 11 estamos em um mundo novo, ainda não sabemos que cara terá, porém sabemos que é outro bem diferente do vivido até então. Uma coisa é certa: iniciamos o tempo da colheita. A grande águia colheu o que semeou na guerra-fria. Não aceitou a messe e vai à luta, crendo-se inocente, conclamando outros. Nova semeadura de ódio e violência? O Afeganistão será outra Cartago?
Domindo (30) é dia de vestirmos branco e sairmos às ruas pela paz. Vamos semear amor, perdão, verdade, benquerença, tolerância e paz. Vamos construir um novo mundo sem esperar pelas ações dos poderosos.
Quando:
· houver paz em nossos corações;
· aceitarmos nosso tempo interior;
· amarmos e formos tolerantes conosco, nossa família, amigos e com o hipotético outro
estaremos sendo amigos do tempo e não prisioneiros dele.
Aí haverá paz no mundo.
Quem trará a BOA-NOVA? Sejamos todos construtores. Sejamos todos alvissareiros!
(setembro 2001)