Sarita Barros


COMENTÁRIO COMENTADO

Meu amigo, agradeço o comentário sobre meu poema, não pensei ficasses tão chocado. Ao enviar-te "Pietá", esqueci pertenceres a outro mundo. Perdoa ferir tua amorosidade, sim? Também amo o ser humano e me revolto quando o vejo vilipendiado, reduzido à sucata, despojado de sua dignidade. Faço, então, paralelos e dou uma paulada. O poema é duro, concordo. É que a vida, nestas latitudes é dura. Temos 50 milhões de pessoas abaixo da linha de miséria. São, de excluídos, quase 6 Rio Grande do Sul, talvez 4 ou 5 do teu amado Portugal. O Brasil em concentração de renda só perde para 3 países africanos. África do Sul tem melhor distribuição de renda. O poder aquisitivo do povo foi parar no calcanhar.

Essas "pietás" existem. Não são produto de mente doentia. Têm carne, nervos e ossos. Mas, nos tornamos apáticos, não as vemos nem delas nos apercebemos. - Stalim disse algo + ou - assim: "10 mortos, uma tragédia, 10 000 mortos, um dado estatístico". Transformamos o Brasil marginalizado em 'dados estatísticos'. Anônimos em uma tabela. Fica fácil lidar com números. Números não têm endereço, nome, sentimentos, dores, alegria, tristezas e revolta. 

Ontem meu filho e nora foram visitar amiga que ganhara nenê. Como o Plano Saúde dela é bom não houve problema de quarto, atendimento, etc. Encontraram na portaria uma mocinha, com a mãe, esperando baixa pelo SUS - Sistema Único de Saúde - desde o dia 2 esperando. Não há vaga, repetia enquanto chorava dor e desespero. Segurava barriga mole e caída tendo uma ponta dura e saliente no lado esquerdo. Há 3 dias o bebê não se movia, possivelmente, morto em seu ventre. Isso se multiplica aos milhares e milhões pelo resto do país. Entretanto os 'rombos' no sistema previdenciário e de saúde continuam. São milhões e milhões de dólares roubados que jamais voltam de onde saíram. No Brasil 47% das mulheres em idade fértil estão esterilizadas e cerca de 30% de mulheres morrem ainda de parto ou pós-parto. Em função disso estamos passando rapidamente de país jovem para um de idosos. Aqui o ser humano, além de ser violentado em sua essência, é descartado. É grande a prostituição infantil de ambos os sexos. Nossas crianças desamparadas, desescolarizadas, famintas e entregues à própria sorte aprendem o vício, a violência e o medo nas ruas e dentro de casa. 

Em certas ocasiões bate uma tristeza e um desalento tão grande... É que me faz mal à alma e ao coração falar, lembrar, comentar tanta iniqüidade, insensibilidade e desrespeito ao ser humano. Somos um dos países mais ricos do mundo e vivemos chapéu na mão mendigando aos países que nada tem, além da rapacidade que lhes é própria. Até quando o 'ter' continuará cegando pessoas, povos, países? 

Uso a poesia para me entender e entender o mundo - poesiterapia? Creio por isso serem, por vezes, meus poemas amargos e chocantes. É a forma de sublimar coisas que não entendo, coisas que me ferem a compaixão, coisas que me fazem duvidar da 'humanidade' de certos ' humanos' detentores do poder mundial e nacional. Qual a diferença entre estas "Pietás" - Marias sem nome e a Mãe de Deus? Todas elas arrastam a mesma dor. Perdem seus filhos ante a indiferença e desprezo do mundo. Seus filhos são sacrificados para que a cobiça, a intolerância e o poder floresçam. 

(setembro 2001)
    


Sarita Barros
produtora cultural, poeta e escritora
RS  
barros@alternet.com.br
  
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-02.htm