Deus quando resolveu criar o ser humano começou pelos animais. Precisava praticar. Aos poucos foi aprimorando. Ao achar-se em condições de lançar um produto de qualidade, chamou o Diabo para trocarem opinião. O Capeta é o Gerente de Qualidade do Senhor, segundo o escritor Rubens Alves. Está sempre testando, tentando ver até onde o sujeito agüenta. O homem já estava na forma, a mulher ainda faltava moldar, o Demo olhou, virou, mexeu e disse: Senhor por que o rabo? Deus disse que havia sido aprovado, era um apêndice muito útil, todos os animais estavam satisfeitos. O Diabo ponderou que o homem seria diferente, levaria o Selo do Criador, teria recursos sofisticados, deveria diferençar-se dos outros bichos. Posicionou-se contra o rabo. Deus coçou o cavanhaque, aquiesceu e cortou o rabo. Os humanos, assim cozidos, receberam o Espírito e foram ordenados Donos da Terra (não é que até Deus tem hora boba?). Ficaram satisfeitos com o poder e um com o outro. Mas ao olharam os bichos sentiram pontinha de inveja. Esses exibiam rabos que variavam em beleza, tamanho, grossura, porém todos de suma utilidade. O rabo dava dignidade aos animais. Os humanos sentiram-se desfavorecidos. Reclamaram, fizeram abaixo-assinado, comitê de greve, passeata e em sinal de protesto comeram a maçã. Deu no que deu... Quem hoje entende esta racinha danada chamada "humanidade"? Creio, se Deus tivesse adivinhado o trabalho que estes "bichos sem rabo" dariam, não teria ouvido ao Diabo e ostentaríamos aquela enorme cauda frisada e felpuda do plano original.
Afirmo que a maioria das trapalhadas humanas se deve à inveja sentida do apêndice caudal. Desde criança o ser humano vai incorporando à necessidade de rabo. Bate no colega e ameaça tornar a bater, se o outro abrir o bico. Um fulano vê a cena e no recreio pede-lhe dinheiro, senão conta pra "tia". O que ficou com o rabo preso, procura uma falta em alguém para se vingar. Quem prende rabos ganha poder e vantagens. Tem mordomias. Arranja quem lhe faça os temas, quem lhe compre merenda e cobra "favores" aos demais. Ao crescer, plenamente inserido no contexto, não consegue sair da roda viva. Cada um carrega seu rabo-virtual, cujo tamanho depende da falta de escrúpulos e calhordice. O interessante é que o prestígio aumenta com o tamanho do rabo. Daí surgiu o jogo do poder: o humano tem de criar um rabo, o maior possível, não deixá-lo em mãos estranhas e ainda segurar o maior número de rabos alheios. Quem possuí-lo mais grosso, felpudo, comprido e tiver mais rabos presos é o vitorioso. Para tal vitória vale tudo: desde atirar pedra em santo a roubar a previdência, queimar arquivos (reais ou figurados), mentir, fraudar, trair. Quanto mais sórdido, vil e sem escrúpulos for, mais se distingue, mais poder adquire. Os "sem-rabo-virtual" são considerados otários, manés sem visão e não dignos de confiança.
Valores morais e ética são impeditivos ao florescimento da Sociedade Rabuda, então esses princípios foram banidos do seu Código Comportamental. Deus acordou do longo dia da criação e se deu conta que o Coisarruim é rabudo. Fez questão de "desrabar" o homem para semear inveja e cobiça. É tarde. O Céu está quase vazio e o Inferno abarrotado. O Senhor matuta nova forma de ação a fim de pôr a humanidade na linha, ou destruí-la. Pensou em lançar chamas raios e trovões, mas o homem já o fez com foguetes, bombas e mísseis. Pensou em poluir as águas, mas o humano já o fez. Pensou em poluir o ar, mas o humano já o fez e foi além, esburacou o céu expondo-se aos raios ultravioletas. Pensou em destruir as matas, mas o humano já o fez através de queimadas e desmatamentos. Pensou em inventar doenças, mas o homem já o fez e foi além, criou a guerra química e a biológica. O Senhor não sabe mais o que fazer. O homem sabe. Já está fazendo.
(novembro 2001)
Sarita
Barros
produtora cultural, poeta e escritora
RS
barros@alternet.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-02.htm