Falta tempo para responder, falta tempo para ler, falta tempo para sorrir. O tempo tornou-se precioso, é o que mais nos falta, o que mais desejamos. Por que falta tempo? Por que, justamente, para fazer o que queremos? Por que se transforma lazer em competição, obrigação? As necessidade a que atendemos serão necessárias? Ou foram criadas para atender ao bem estar de outros? Quais realmente as necessidades e prioridades? É mesmo imprescindível que se tenha toda essa parafernália eletrônica para ser feliz?
Ou a alegada falta de tempo é desculpa para não atender assuntos não prioritários, que nos enfadonham e dos quais não queremos tratar? Se é assim por que invocamos falta de tempo? Não assumimos nosso não-querer? Não tomamos as rédeas da vida em vez de ficarmos nas mãos dos quefazeres? Civilidade? Compaixão? Não magoar? Será que não sendo veraz o outro ficará feliz? Mentira piedosa, culpa, remorso como e onde vão estourar em nosso corpo? Dor de cabeça, prisão de ventre, diarréia, ataque asmático, câncer de mama, próstata ou colo do útero?
Perseguimos metas. É moda ter objetivos e perseguir metas. Nada contra. Só desconfio que as metas escolhidas talvez não sejam nossas. Sejam implantadas pelo mercado, sociedade, cultura, religião. Ou qualquer outro formador de opinião. A necessidade de ter o carro do ano, é nossa ou do fabricante de carros? Sofremos da epidemia "consumismo". Comprar, adquirir, ter, competir. Sacrificamos família, amigos, tempo, lazer, nós mesmos para ter o que o outro tem. Fazer mais que o outro. Sobressair. Atingir metas. Ultrapassar estatísticas. Nos robotizamos. Nosso ideal é a máquina. Erro zero. Eficiência absoluta. Corpo perfeito: malhação, plástica, silicone. Ciborgs? Guiness!
Performances no trabalho, estudo, cozinha, cama. Tudo vira número. É quantificado, escalonado, comparável. Só o primeiro, o melhor, o maior, vale. O resto é o resto. Estudantes se suicidam porque não conseguem indicação para bolsa no exterior. Outros se drogam ou alcoolizam para não sentir a dor desse viver. Outros são viciados em trabalho, comida, computador. Muletas. Não nos permitimos sorrir, relaxar. Se nos deixamos ficar no doce embalo do nada fazer.... remorsos e culpas. Parece que roubamos algo a alguém. Além da síndrome do pânico foi constatada a síndrome da pressa. Temos de correr, mesmo sem motivo para tal. Temos de dar a impressão de estarmos super ocupados, sem tempo para coisa alguma. Ratos de laboratório. Esquilos?
Será para isso que nascemos? Somos felizes? Nossa felicidade importa a alguém ou a nós mesmos? Quem somos? Qual a verdadeira meta? Estamos todos famintos! Lutamos, matamos morremos por símbolos de poder: comida, carro, carro importado, viagens, avião, roupa, roupa de griffe, roupa exclusiva, roupa bordada com diamantes no valor de 2 milhões e oitocentos mil dólares... Quando saberemos qual a verdadeira fome?
Em nome do progresso matamos florestas, rios, mares, animais, pessoas. Destruímos meio-ambiente, camada atmosférica. Criamos o buraco de ozônio. Também o lixo atômico, cósmico e mental. Coisificamos pessoas e individualizamos o papel, o impulso magnético. Seremos realmente inteligentes? Seremos humanos? Fomos feitos a imagem de qual Deus? Ou matamos o Deus em nós?
(novembro 2001)
Sarita
Barros
produtora cultural, poeta e escritora
RS
barros@alternet.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-02.htm