Sarita Barros



FENACRI

Faz tempo este escrito está em meus guardados. De quando em vez faço faxina e me desfaço do que considero ultrapassado. Este já estava no corredor da morte, recebeu indulto. 

Quando compro um novo eletrodoméstico, não o ponho em uso imediatamente. Primeiro leio as instruções, instalo, olho, observo e o deixo esperando. Não o incorporo de pronto a minha rotina. Antes tenho de me adaptar à sua presença. Quando passo por ele sem olhá-lo é que me atrevo a ligá-lo, experimentá-lo, usá-lo. É um ritual.

Detesto falar ao telefone se não consigo visualizar a pessoa do outro dado. Quando ligo para alguém e me deparo com aquela voz metálica, da secretária eletrônica, o assunto some da minha cabeça. Na segunda tentativa, quando já estou psicologicamente preparada, é que consigo deixar mensagem e pensar que tenho uma geringonça dessas... Fiz um curso de informática para leigos, mas ainda sinto vertigens quando me deparo com um bicho desses (ao vivo e a cores). Apertar teclas, seguir entradas, caminhos, janelas, diretórios. E a máquina lá, implacável e submissa: ligando, apagando, gravando, perguntando, apitando, pensando, impondo escolhas...

Não sei se compro um micro ou um carro usado, digo re-usado ou melhor: tri-usado. Os dois me fascinam, os dois me apavoram. Os dois são imprescindíveis neste mundo louco, moderno, rápido e eficiente. Isso sem contar que comunicação entre humanos se faz, cada vez mais, via máquina! De bom grado preferiria realizar a dança da chuva ou participar de uma pajelança, ou cerimônia Druída, porém, que fazer se a magia, o ritual, o cerimonial perderam espaço neste chamado século da comunicação? Usamos menos palavras e menos toques uns com os outros!

Como nascerão os filhos dos meus netos? Com o incremento da AIDS a possibilidade de bebês de proveta ao alcance do bolso, creio que em futuro próximo as crianças serão feitas em assépticos laboratórios, após criteriosa escolha dos genes que mais se adaptem ao Mercado. Minha linhagem cultivada em estufa? Como orquídeas! A fim de menor custo, usar-se-á clonagem em série. E, naturalmente, os novos modelos, lançados na FENACRI - Feira Nacional da Criança. - Infantes Prêt a Porter!

Enquanto tiro o filé ao molho madeira do freezer e o coloco no micro ondas, lembro meu amigo Ferro: O futuro da América Latina está congelado. Precisamos tirar nosso futuro do freezer e colocá-lo no micro! Abro o forninho e meu filé é um grande sorriso que me atravessa e sai rua em fora se grudando nos rostos! Corro à janela; todas as bocas têm dentes! Atônita ligo a TV. O plantão extra enforma:  

GRANDE TRAGÉDIA - débil mental brasileiro inventa bactéria que se propaga através das máquinas. Transforma ganância e indiferença em ética e humanização. Todos os eletro-eletrônicos estão contaminados. Cuidado!


(novembro 2001)
    


Sarita Barros
produtora cultural, poeta e escritora
RS  
barros@alternet.com.br
  
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-02.htm