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Sarita Barros
RECORDAÇÕES
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Alegria no ar. Parece que as flores estão passeando pelas ruas. É um cheiro diferente! As pessoas todas rindo. Saem pulando, máscaras na cara. Roupas esquisitas. São os mascarados. Por que o rádio só toca: 'nega do cabelo duro', 'bugui-ugui' e 'jardineira porque estás tão triste'?
A mãe disse que é carnaval. E hoje dona Marica vai ficar comigo e com o mano porque eles vão ao baile. Que amanhã de noite vai nos levar para ver os blocos, se formos bonzinhos. Vou incomodar dona Marica, não gosto dos blocos.
São loucos. Mulheres vestidas de homem e homens com roupa de mulher. Cantam coisas que não entendo e ficam pulando, pulando, pulando. Mexem com as pessoas, querem pegar minhas tranças. Uns colocam barriga postiça e ficam com a saia acima dos joelhos, com as pernas cabeludas de fora. Por que fazem isso? Só porque é carnaval?
O que é carnaval? O pai me disse que quarenta dias depois é a morte de Cristo. Que o Cristo morreu na cruz para nos salvar. Que é que tem a morte de Cristo com o carnaval? Quem é Cristo? Ah! Cristo é o mesmo Nosso Senhor Jesus que está pregado na cruz, lá na igreja, disse a mãe. Mataram Jesus porque ele não gostava de carnaval? Tá bem, vou pro pátio. Vocês não falam coisa com coisa e a burra sou eu. Gente grande! Quem entende gente grande?
Descobri! O cheiro de carnaval sai de um tubinho dourado. A gente aperta num rabinho e pela pescocinho dele sai esse cheiro que toma conta do ar. As pessoas jogam esse perfume nos olhos e nas costas das outras. É frio. Dá um arrepio. O pai jogou em mim. É bom. O nome dessa latinha é "lança-perfume". Eu gosto de brincar com lança-perfume, serpentina e confete. Carnaval é bom!
Aos cinco anos constatei que em certa época do ano tudo ficava diferente...
(dezembro 2001)
Sarita
Barros
produtora cultural, poeta e escritora
RS
barros@alternet.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-02.htm
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