20/04/2002
Número - 255


 


 

Sarita Barros



DE VOLTA AO COMEÇO


Estive me mimando um pouco. Relógio esquecido em uma sacola qualquer. Só em livrar-me desse minúsculo e exigente ditador fez-me sentir um pássaro. Livre de horários, compromissos, chatices. Fiz o solene juramento de não chegar perto da TV, jornais e revistas. Consegui manter! Assim tive a ilusão de estar fora deste comezinho mundo de violência, drogas, desamor e politiquices. Fiquei sem saber do Prefeito/Governador/FHC/Roseana/Serra/Lula/Bush/ Bin Laden/Arafat/Papa/ FMI/Big Brother e outras quinquilharias.

Curti um mar maravilhoso e um sol exuberante. Convivi com velhos amigos e fiz novas amizades. Fui à praia todos os dias e entreguei-me aos caprichos da natureza beira-mar. Deixei-me ser levada pelo vento por quilômetros e quilômetros, enfrentei sua força na volta. Apanhei chuva e chuvisco. Dias nublados e dias brilhantes. Mar beijoqueiro e mar animal. Apanhei aqueles marisquinhos, chamados corruptos, que estavam com as patinhas ao céu e os devolvi ao mar. Joguei conversa fora. Passeei de barco. Troquei de cor. Só alguns pequenos sítios ficaram preservados da tintura solar. Tomei banho de lua e sob as estrelas, julguei-me uma.

Pedi para não me ligarem, só em caso de banalidades ou alguma urgência urgentíssima. Só ligaram para matar saudades. Criei um limbo próprio e fiquei suspensa entre o céu e o inferno. Livre do: quem casou, quem morreu, quem matou, quem roubou, quem foi preso, quem ficou impune, quem ficou pobre, quem apareceu rico. Livre do: o que subiu, o que foi apreendido, o que foi sonegado, o que foi queimado, o que foi invadido, o que foi derrubado, o que foi incendiado, o que foi alagado, o que foi destruído, o que foi fechado, o que foi aberto, o que foi construído.

Depois desse tempo fora do ar, volto ao mundo. Volto saudosa dos amigos que heroicamente ficaram enfrentando atrocidades quotidianas. Saudosa dos amigos da rede. Saudosa do meu canto, meus livros, meu PC, meu banheiro, meu colchão. Ainda estou malemolente. Continuo a pensar e mover-me em Câmara Lenta. Meus neurônios ainda não fizeram todas as conexões necessárias. Mas o mundo me tomou de assalto. Chavez caiu. Argentina um caos. Paraguai e a Ponte da Amizade. Israel x Palestinos. Felipão x Romário. USA x ? (todo mundo). Dai-me forças Senhor, preciso tua sabedoria e compaixão para atravessar mais ano.


(
20 de abril/2002)
    


Sarita Barros
produtora cultural, poeta e escritora
RS  
barros@alternet.com.br
  
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-02.htm