| Sarita Barros
DE VOLTA AO COMEÇO
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Estive me mimando um pouco. Relógio esquecido em uma sacola
qualquer. Só em livrar-me desse minúsculo e exigente ditador fez-me
sentir um pássaro. Livre de horários, compromissos, chatices. Fiz o
solene juramento de não chegar perto da TV, jornais e revistas.
Consegui manter! Assim tive a ilusão de estar fora deste comezinho
mundo de violência, drogas, desamor e politiquices. Fiquei sem saber
do Prefeito/Governador/FHC/Roseana/Serra/Lula/Bush/ Bin Laden/Arafat/Papa/
FMI/Big Brother e outras quinquilharias.
Curti um mar maravilhoso e um sol exuberante. Convivi com velhos
amigos e fiz novas amizades. Fui à praia todos os dias e entreguei-me
aos caprichos da natureza beira-mar. Deixei-me ser levada pelo vento
por quilômetros e quilômetros, enfrentei sua força na volta.
Apanhei chuva e chuvisco. Dias nublados e dias brilhantes. Mar
beijoqueiro e mar animal. Apanhei aqueles marisquinhos, chamados
corruptos, que estavam com as patinhas ao céu e os devolvi ao mar.
Joguei conversa fora. Passeei de barco. Troquei de cor. Só alguns
pequenos sítios ficaram preservados da tintura solar. Tomei banho de
lua e sob as estrelas, julguei-me uma.
Pedi para não me ligarem, só em caso de banalidades ou alguma urgência
urgentíssima. Só ligaram para matar saudades. Criei um limbo próprio
e fiquei suspensa entre o céu e o inferno. Livre do: quem casou, quem
morreu, quem matou, quem roubou, quem foi preso, quem ficou impune,
quem ficou pobre, quem apareceu rico. Livre do: o que subiu, o que foi
apreendido, o que foi sonegado, o que foi queimado, o que foi
invadido, o que foi derrubado, o que foi incendiado, o que foi
alagado, o que foi destruído, o que foi fechado, o que foi aberto, o
que foi construído.
Depois desse tempo fora do ar, volto ao mundo. Volto saudosa dos
amigos que heroicamente ficaram enfrentando atrocidades quotidianas.
Saudosa dos amigos da rede. Saudosa do meu canto, meus livros, meu PC,
meu banheiro, meu colchão. Ainda estou malemolente. Continuo a pensar
e mover-me em Câmara Lenta. Meus neurônios ainda não fizeram todas
as conexões necessárias. Mas o mundo me tomou de assalto. Chavez
caiu. Argentina um caos. Paraguai e a Ponte da Amizade. Israel x
Palestinos. Felipão x Romário. USA x ? (todo mundo). Dai-me forças
Senhor, preciso tua sabedoria e compaixão para atravessar mais ano.
(20
de abril/2002)
Sarita
Barros
produtora cultural, poeta e escritora
RS
barros@alternet.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-02.htm