| Sarita Barros
FAIXA OTÁRIA
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Não sei se está na cabeça, nos preconceitos, no corpo, na idade. Conversando com amigos constatei que muitas a sentimos e alguns também.
Tive um companheiro por vinte e seis anos. Os amigos riam porque sempre estávamos de mãos dadas, ou nos tocando, olhando, cochichando, beijoquinhando. O que vocês ainda têm para conversar? Quando ficava três dias longe dele meu corpo, literalmente, doía. A
dor da ausência não era metáfora, era real. Sem mais nem menos ele me mandava flores, eu o esperava com bombons ao licor. Marcávamos encontro em algum restaurante novo, ou motel e depois voltávamos para casa. Amados/amantes. Morreu de repente. Perdi o Norte. Ocupei corpo e cabeça diuturnamente. Passados alguns meses comecei a receber flores, poesias, convites, suspiros. Tudo tão irreal. Não concebia outro alguém. Aliás, não sentia falta.
Meus sentimentos em um cofre. Eu não dispunha da chave. Apareceram psicólogas reais e de almanaques. Todas palpitando. Era isto. Aquilo. Aquiloutro. Eu em santa paz. Não via olhares. Não escutava indiretas ou diretas. Não entendia insinuações. Impávido colosso. Até que um amigo mais afoito me sacudiu pelos ombros e com a sutileza própria dos gaúchos, lascou:
mulher eu quero transar contigo! Levei um susto. Pisquei e perguntei, por quê? Ele me olhou como
sapo de outro poço e disse, te olha no espelho diacho! Bateu em retirada e nunca mais falou comigo.
As amigas desistiram. Uma casou e voltou a enviuvar. A encontrei toda chorosa dia desses. Outra foi assassinada por um cara com quem mantinha um caso. Outra casada com homem bem mais jovem vive desesperada porque o dito está empregado de marido e ainda é prepotente e galinha. Outra está muito bem casada, vive feliz e acho tem medo de mim. Só nos encontramos casualmente, deixou de freqüentar minha casa e diz quando me vê: qualquer dia apareço, tá? Que Deus a tenha e guarde.
Fiz novas amizades e o tempo foi rolando. Ano passado um dos meus manos disse:
"se vais deixar de comer carne e açúcar vê pelo menos se arranja um amante porque senão vais ficar sem prazer algum na vida!" Gaúcho é assim. Fica ofendido se alguém recusa um pedaço de churrasco. Pensei: taí, por que não? Foi num repente. Estava viva, era inverno e não tinha cobertor de orelha. Foi tão engraçado! Fiquei olhando para ele com olhos esbugalhados:
se for pelo bem da família, diz ao povo que estou na parada.
Passei a perceber quando me olham, devolver olhares e sorrisos. Começaram alguns encontros/ desencontros. Mas estou fora de forma. Sou amante à moda antiga, como canta o Rei. Essa história de pacote: vê/cheira/aperta e cama, não é comigo. Gosto de clima. Pensei que "ficar" fosse só com a gurizada... Uma amiga, da praia, me disse que não sai de bailareco sem companhia, terminam a noite no apartamento dela ou dele e no outro dia a visita sai sem café para não criar vínculo. Que a vida é curta, não sabe se irá amanhecer, então o negócio é aproveitar que o futuro é hoje. Um casal do edifício dela comentou, quando perguntei porque teria encerrado a temporada antes do previsto, que ouviram um bafafá enorme no apartamento. A mulher chamou a polícia enquanto ele e outros vizinhos arrombavam a porta. O sujeito que a coroa levara tentava esganá-la. Foi preso. Era um dos foragidos do Presídio Central.
Fui à praia em um dia
borrasquento. Só eu, nem gaivotas ou biguás. Ventava forte, estava
frio e a ressaca até os quiosques. Gosto de caminhadas beira-mar. Com
qualquer tempo. Só rejeito quando além de frio chove e venta
simultaneamente. Estava de shorte e moletom. Brincava com a espuma
grossa e marrom. Chocolate servido pelo mar. Passa uma moto, pára logo
adiante. O motoqueiro desce, tira o capacete e o coloca debaixo do
braço. Usa calções curtos e largos que batidos pelo vento lembram
túnica grega. Lembro Mercúrio e rio. Ele se aproxima dizendo: nunca
pensei encontrar a própria Iemanjá brincando em seus domínios.
Sorrimos, apertamos as mãos e nos apresentamos. Simpático,
espirituoso, bom papo. Está numa praia vizinha e gosta de passear
sentindo o vento. Recuso o convite para andar de moto. Dele só sei o
que me disse e com a história de foragidos terem sido apanhados na
orla... Invento história de queda e trauma. Não insiste.
Tacitamente nos encontramos nos dias subseqüentes no mesmo lugar e
hora. Trocamos informações. Empresário do ramo de madeira, aposentado
deixou a cidade grande por uma praia pequena. Casado, três filhos
formados e trabalhando. Uma esposa/bruxa/fria. Digo que conte outra,
essa é muito manjada. Ri e me dá um beijinho na mão. Está um namorico
gostoso. Só me recomendo: cuidado mulher, não vai te envolver, leva
como passatempo, transige um pouco sua capricorniana/caxias duma figa.
Combinamos passeio de carro e jantar. Na hora da despedida rola um
beijo e... Nossa Senhora dos Aflitos, é fumante! Sinto
ranço/fedor/sarro de cigarro. Estremeço de asco, ele julga ser outra a
causa do estremecimento.
Consigo me separar: pó pará, erro essencial de pessoa, com fumante
nada feito. Como nunca havia fumado perto de mim, julguei fosse não
fumante e sequer inquiri. Agredido, revida dizendo que não sendo para
casar pouco importa ser fumante ou não, que sou muito fresca. Que só
queria passar algumas horas de prazer em boa companhia. Digo não
almejar nada além, mas que minha aversão fora maior que o prazer
sentido. Baixou a bola, tenta nova aproximação. Diz haver intuído
minha atitude, por isso se absteve de fumar, que me compreende e
espera ser compreendido. Que Iemanjá, por ser deusa, perdoa míseros
mortais. Sorrimos, mas clima havia ido parar no escoadouro...
Fui à praia em um dia borrasquento. Só eu, nem gaivotas ou biguás.
Ventava forte, estava frio e a ressaca até os quiosques. Gosto de
caminhadas beira-mar. Com qualquer tempo. Só rejeito quando além de
frio chove e venta simultaneamente. Estava de shorte e moletom.
Brincava com a espuma grossa e marrom. Chocolate servido pelo mar.
Passa uma moto, pára logo adiante. O motoqueiro desce, tira o capacete
e o coloca debaixo do braço. Usa calções curtos e largos que batidos
pelo vento lembram túnica grega. Lembro Mercúrio e rio. Ele se
aproxima dizendo: nunca pensei encontrar a própria Iemanjá brincando
em seus domínios. Sorrimos, apertamos as mãos e nos apresentamos.
Simpático, espirituoso, bom papo. Está numa praia vizinha e gosta de
passear sentindo o vento. Recuso o convite para andar de moto. Dele só
sei o que me disse e com a história de foragidos terem sido apanhados
na orla... Invento história de queda e trauma. Não insiste.
Tacitamente nos encontramos nos dias subseqüentes no mesmo lugar e
hora. Trocamos informações. Empresário do ramo de madeira, aposentado
deixou a cidade grande por uma praia pequena. Casado, três filhos
formados e trabalhando. Uma esposa/bruxa/fria. Digo que conte outra,
essa é muito manjada. Ri e me dá um beijinho na mão. Está um namorico
gostoso. Só me recomendo: cuidado mulher, não vai te envolver, leva
como passatempo, transige um pouco sua capricorniana/caxias duma figa.
Combinamos passeio de carro e jantar. Na hora da despedida rola um
beijo e... Nossa Senhora dos Aflitos, é fumante! Sinto
ranço/fedor/sarro de cigarro. Estremeço de asco, ele julga ser outra a
causa do estremecimento.
Consigo me separar: pó pará, erro essencial de pessoa, com fumante
nada feito. Como nunca havia fumado perto de mim, julguei fosse não
fumante e sequer inquiri. Agredido, revida dizendo que não sendo para
casar pouco importa ser fumante ou não, que sou muito fresca. Que só
queria passar algumas horas de prazer em boa companhia. Digo não
almejar nada além, mas que minha aversão fora maior que o prazer
sentido. Baixou a bola, tenta nova aproximação. Diz haver intuído
minha atitude, por isso se absteve de fumar, que me compreende e
espera ser compreendido. Que Iemanjá, por ser deusa, perdoa míseros
mortais. Sorrimos, mas clima havia ido parar no escoadouro...
(18 de maio/2002)
CooJornal no 259
Sarita
Barros
produtora cultural, poeta e escritora
RS
barros@alternet.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-02.htm