| Sarita Barros
FEIJÃO COM ARROZ
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No reino das
panelas, cebolas, mamadeira e fraldas, a mulher. Só ela. Rainha do
lar. Santa no altar. Nasci num reino assim. Num tempo assim. Destino
traçado. Meus limites as duas portas. A da frente e a dos fundos. Sim
senhor. Sim senhora. Olhos baixos. Sorriso sem gargalhada. “Bela
menina. Vai casar e ter lindos filhos. Há de encontrar um bom homem
que a queira e sustente” Ouvia de minha avó. Detestava o
vaticínio. Vou ser minha dona! Odiava chá-de-bonecas. Todas nós,
vestidos rodados, tranças e cachos. Fazendo que bebíamos em minúsculas
xícaras vazias. Nós e nossas filhas. Fazer comidinha com pasto e
flores em um fogão sem fogo. Fugia delas. O reino dos homens me
atraía. Ação. Corrida, bola e socos. Áspero, hostil e forte. Tive de
provar que podia. Apanhei sem chorar. Unhei. Dei pontapés. Acertei o
alvo. Fiz o gol. Quebrei o vidro da janela. Fui aceita. Só não
consegui fazer belo arco ao urinar. Graças a Deus esse teste só
existia em minha cabeça. Aprendi a jogar bafo. Cuspir longe. Comecei
como bandido. Terminei como mocinho. Hopalong Cassidi. Zorro. Aramis.
Fui mais. Mary Marvel. Miss América. Nyoca. Uma guria liderando um
bando de garotos. Estudei. Colei grau. Pensava haver exorcizado o
reino do borralho. Veio o Príncipe encantado em seu cavalo branco.
Acordei em meio a panelas, cebolas, mamadeira e fraldas. Que da sina
dos genes não se escapa. Nem da cultura se foge. Cozinhei, lavei,
escamei, troquei fraldas. Fiquei angustiada ante a febre. Velei à
cabeceira. Administrei empregadas. Sonhei. Sou mulher. Tenho queros e
leros. Briguei por meu homem com uma taquara-tetuda que estava se
insinuando. Sou baixinha e miúda, mas no que é meu ninguém tasca. Não
sem antes sentir o peso da minha mão e provar a força do meu pé
direito. Puxei a sacripanta pelo braço. Lasquei: puta cretina
tetuda de merda se tu não tem competência pra arrumar um homem pra ti
vai roubar o macho da tua mãe!. Foi aquele rio de sangue... De
susto, culpa e medo a grandona menstruou. Que mulher tem dessas
coisas. Quem segura a vergonha do sangue lambuzando as pernas assim de
repente? Fora de hora. Sem esperar. Bateu na lona. Chorou. Disse haver
jurado roubá-lo porque ele nem a olhava. Não suportava ver um “homão”
daqueles com uma baixinha de nada. Vê-lo grudado em mim. Sair correndo
por um dengo meu. Nem teve graça. Foi saindo com enorme mancha
vermelha no vestido branco. Cachorro molhado com o rabo entre as
pernas. Tive pena. Não se deixa uma cadela daquelas desmoralizar a
raça das mulheres. Joguei-lhe uma toalha encarnada. Não sou de
tripudiar. Eu. Defendendo meu reino. Boca de pitanga madura e olhos
paixão. Sorriso grudado na cara. Esfreguei as mãos e fui cevar o
chimarrão. Esperar meu homem. Enquadrada. Entre a porta da frente e a
dos fundos. Eu!
(25 de maio/2002)
CooJornal no 260
Sarita
Barros
produtora cultural, poeta e escritora
RS
barros@alternet.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-02.htm