25/05/2002
Número - 260


 

 

 

Sarita Barros



FEIJÃO COM ARROZ

No reino das panelas, cebolas, mamadeira e fraldas, a mulher. Só ela. Rainha do lar. Santa no altar. Nasci num reino assim. Num tempo assim. Destino traçado. Meus limites as duas portas. A da frente e a dos fundos. Sim senhor. Sim senhora. Olhos baixos. Sorriso sem gargalhada. “Bela menina. Vai casar e ter lindos filhos. Há de encontrar um bom homem que a queira e sustente” Ouvia de minha avó. Detestava o vaticínio. Vou ser minha dona! Odiava chá-de-bonecas. Todas nós, vestidos rodados, tranças e cachos. Fazendo que bebíamos em minúsculas xícaras vazias. Nós e nossas filhas. Fazer comidinha com pasto e flores em um fogão sem fogo. Fugia delas. O reino dos homens me atraía. Ação. Corrida, bola e socos. Áspero, hostil e forte. Tive de provar que podia. Apanhei sem chorar. Unhei. Dei pontapés. Acertei o alvo. Fiz o gol. Quebrei o vidro da janela. Fui aceita. Só não consegui fazer belo arco ao urinar. Graças a Deus esse teste só existia em minha cabeça. Aprendi a jogar bafo. Cuspir longe. Comecei como bandido. Terminei como mocinho. Hopalong Cassidi. Zorro. Aramis. Fui mais. Mary Marvel. Miss América. Nyoca. Uma guria liderando um bando de garotos. Estudei. Colei grau. Pensava haver exorcizado o reino do borralho. Veio o Príncipe encantado em seu cavalo branco. Acordei em meio a panelas, cebolas, mamadeira e fraldas. Que da sina dos genes não se escapa. Nem da cultura se foge. Cozinhei, lavei, escamei, troquei fraldas. Fiquei angustiada ante a febre. Velei à cabeceira. Administrei empregadas. Sonhei. Sou mulher. Tenho queros e leros. Briguei por meu homem com uma taquara-tetuda que estava se insinuando. Sou baixinha e miúda, mas no que é meu ninguém tasca. Não sem antes sentir o peso da minha mão e provar a força do meu pé direito. Puxei a sacripanta pelo braço. Lasquei: puta cretina tetuda de merda se tu não tem competência pra arrumar um homem pra ti vai roubar o macho da tua mãe!. Foi aquele rio de sangue... De susto, culpa e medo a grandona menstruou. Que mulher tem dessas coisas. Quem segura a vergonha do sangue lambuzando as pernas assim de repente? Fora de hora. Sem esperar. Bateu na lona. Chorou. Disse haver jurado roubá-lo porque ele nem a olhava. Não suportava ver um “homão” daqueles com uma baixinha de nada. Vê-lo grudado em mim. Sair correndo por um dengo meu. Nem teve graça. Foi saindo com enorme mancha vermelha no vestido branco. Cachorro molhado com o rabo entre as pernas. Tive pena. Não se deixa uma cadela daquelas desmoralizar a raça das mulheres. Joguei-lhe uma toalha encarnada. Não sou de tripudiar. Eu. Defendendo meu reino. Boca de pitanga madura e olhos paixão. Sorriso grudado na cara. Esfreguei as mãos e fui cevar o chimarrão. Esperar meu homem. Enquadrada. Entre a porta da frente e a dos fundos. Eu!

 
(25 de maio/2002)
CooJornal no 260
    


Sarita Barros
produtora cultural, poeta e escritora
RS  
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