01/06/2002
Número - 261

 

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Sarita Barros



FILHOS DA PODA

Gosto de observar as árvores. Mesmo sendo da mesma espécie nenhuma é igual a outra. Suas copas diferem conforme a galharia conseguiu se estender. Cada uma conta uma história: ventos enfrentados, épocas de seca ou chuva em demasia. Basta prestar atenção. Quando vejo uma árvore imagino sua idade. Observo altura, perímetro do tronco, copa e comparo com outras cuja idade sei. Muitas têm mais de cinqüenta, algumas mais de cem. Visualizo-a pequenina lutando com adversidades, predadores, enfrentando seca e tempestades. Recebendo carinho, proteção, cuidados. Algumas possuem parte do tronco enegrecido ou grande parte da copa queimada, vestígio dos raios que sobre elas caíram.

Senti enorme dor quando encontrei a minha preferida, uma araucária, totalmente queimada por raio. Vulto negro contra os céus. Embora morta conservava sua dignidade e magnificência. Conservara sua individualidade. Agora, faz três ou quatro anos, minhas amigas vêm enfrentando novo problema. A motosserra em prestações. Em um ano elas estão ali. Belas, indefesas e poderosas, limpando nosso ar. Despoluindo. Enfeitando avenidas, praças e recantos. No ano seguinte, aparecem disformes, igualadas na dor. Apenas tronco e desesperados galhos verdes com folhas desmedidamente grandes. Parecem lágrimas clorofiladas que saltam aos borbotões dos membros mutilados. Eu as olho e lembro dos “filhos da talidomita.

Crianças que nasceram com deformidade nos membros superiores em virtude de suas mães haverem tomado remédio com essa substância durante a gravidez. Muitas vieram ao mundo sem antebraço. Só toquinhos de braço. Outras com dedinhos onde deveria ser o cotovelo. Algumas com mãos pequeninas saindo dos cotovelos. Vi uma com pequenas mãos de três dedos nos ombros, Ou têm um braço normal e o outro com algum tipo de problema. O remédio foi liberado antes do tempo, pressão dos laboratórios. Foi liberado antes de serem estudados os efeitos que poderiam causar nos bebês. Essas crianças passaram a ser chamadas “filhos da talidomita”.

No ano seguinte os troncos (cujo cerne exposto e desprotegido, apodreceu) nus, frios e secos são novamente serrados. Foi-se mais uma árvore. Causa mortis: poda assassina. Morte encomendada. Feita aos pedaços. Antes sorteavam uma ou outra árvore em meio a muitas. Agora os delinqüentes, devido à impunidade, estão mais audazes e arrasam quarteirões inteiros. Agem acobertados pelas autoridades. Contratados pelas prefeituras. Nossas ruas e avenidas estão ficando feias e sem vida. Nossas lareiras, em grande parte, alimentadas pelas “filhas da poda”.

As vítimas são produzidas pela ganância, pela rapacidade e pela cupidez humana.
 

(01 de junho/2002)
CooJornal no 261
    


Sarita Barros
produtora cultural, poeta e escritora
RS  
barros@alternet.com.br
  
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-02.htm