| Sarita Barros
FILHOS DA PODA
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Gosto de observar as árvores. Mesmo sendo da mesma espécie nenhuma é
igual a outra. Suas copas diferem conforme a galharia conseguiu se
estender. Cada uma conta uma história: ventos enfrentados, épocas de
seca ou chuva em demasia. Basta prestar atenção. Quando vejo uma
árvore imagino sua idade. Observo altura, perímetro do tronco, copa e
comparo com outras cuja idade sei. Muitas têm mais de cinqüenta,
algumas mais de cem. Visualizo-a pequenina lutando com adversidades,
predadores, enfrentando seca e tempestades. Recebendo carinho,
proteção, cuidados. Algumas possuem parte do tronco enegrecido ou
grande parte da copa queimada, vestígio dos raios que sobre elas
caíram.
Senti enorme dor quando encontrei a minha preferida, uma araucária,
totalmente queimada por raio. Vulto negro contra os céus. Embora morta
conservava sua dignidade e magnificência. Conservara sua
individualidade. Agora, faz três ou quatro anos, minhas amigas vêm
enfrentando novo problema. A motosserra em prestações. Em um ano elas
estão ali. Belas, indefesas e poderosas, limpando nosso ar.
Despoluindo. Enfeitando avenidas, praças e recantos. No ano seguinte,
aparecem disformes, igualadas na dor. Apenas tronco e desesperados
galhos verdes com folhas desmedidamente grandes. Parecem lágrimas
clorofiladas que saltam aos borbotões dos membros mutilados. Eu as
olho e lembro dos “filhos da talidomita.
Crianças que nasceram com deformidade nos membros superiores em
virtude de suas mães haverem tomado remédio com essa substância
durante a gravidez. Muitas vieram ao mundo sem antebraço. Só toquinhos
de braço. Outras com dedinhos onde deveria ser o cotovelo. Algumas com
mãos pequeninas saindo dos cotovelos. Vi uma com pequenas mãos de três
dedos nos ombros, Ou têm um braço normal e o outro com algum tipo de
problema. O remédio foi liberado antes do tempo, pressão dos
laboratórios. Foi liberado antes de serem estudados os efeitos que
poderiam causar nos bebês. Essas crianças passaram a ser chamadas
“filhos da talidomita”.
No ano seguinte os troncos (cujo cerne exposto e desprotegido,
apodreceu) nus, frios e secos são novamente serrados. Foi-se mais uma
árvore. Causa mortis: poda assassina. Morte encomendada. Feita aos
pedaços. Antes sorteavam uma ou outra árvore em meio a muitas. Agora
os delinqüentes, devido à impunidade, estão mais audazes e arrasam
quarteirões inteiros. Agem acobertados pelas autoridades. Contratados
pelas prefeituras. Nossas ruas e avenidas estão ficando feias e sem
vida. Nossas lareiras, em grande parte, alimentadas pelas “filhas da
poda”.
As vítimas são produzidas pela ganância, pela rapacidade e pela
cupidez humana.
(01 de junho/2002)
CooJornal no 261
Sarita
Barros
produtora cultural, poeta e escritora
RS
barros@alternet.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-02.htm