08/06/2002
Número - 262

 

Sarita Barros



AHIMSA

Esse é o nome do primeiro artigo do Código de Ética Yoga. Ahimsa, em sânscrito, quer dizer “não violência”. Não violência em um sentido amplo e abrangente. Respeito à vida e à integridade própria e/ou de outro ser (humano ou não). Integridade não apenas física, também emocional e mental. Eu me torno violenta quando desejo mal ao outro, quando “puxo o tapete” de alguém, quando o coração está transbordando ódio, raiva, ressentimento, mágoa e inveja. Eu cometo violência quando procuro cercear a liberdade do outro, quando procuro denegrir ou desprestigiar sua imagem.

A violência é condenada em todo código ético que se presa. Nas “Tábuas da Lei” está escrito: não matarás. O Torá e o Alcoorão também se referem à não violência. E o Código de hamurabi com o: “olho por olho e dente por dente” não deixava de punir a ação danosa. O respeito à vida e à liberdade é objetivo e meta de toda sociedade sadia. Em virtude dessa aspiração humana as ditaduras e regimes totalitários são considerados abomináveis.

Um aspecto sutil e ao mesmo tempo virulento, portanto paradoxal, de violência é a censura. A tesoura do censor corta pensamentos (cabeças) e sentimentos (corações). Esse é um meio do qual se vale todo ditador. É proibido pensar nos regimes totálitários. Aquele que pensa é o maior inimigo do cerceador de liberdades. Quem pensa, argumenta. Quem argumenta transforma opiniões, esclarece mentes, faz história, muda sentimentos e, alicerçado na razão, pode vir a derrubar governos embasados na violência. Por isso as ditaduras temem quem pensa e procuram reprimir sua expressão.

Ao ler “Da Crítica à Censura”, de Francisco Simões, Coojornal no. 261 meu coração voltou ao tempo em que não podíamos falar o que pensávamos nem ao amigo mais próximo, poderia ser membro da Polícia Secreta. Onde acusações de apaniguados eram encaradas como provas irrefutáveis. Tempo que faço questão de esquecer e peço a Deus que jamais volte. Infelizmente o ódio, o desejo de calar quem de nós discorda, não importa qual o meio empregado, pulula nos corações de muita gente. Gente que se tivesse um grão de poder mandaria espancar, torturar, quebrar os dentes e esmagar boca e dedos de quem ousou falar ou escrever algo discordante da opinião sacrossanta do “dono da verdade”. Pessoas sem argumento, incapazes da convivência, ineptos para o exercício democrático. Pessoas que não toleram a diferença, a diversidade, a liberdade de opinião.

Divido com vocês este poema feito em momento de dor, quando meus alunos desapareciam. Levados ou fugidos.

OPRESSÃO
São paredes/altos muros/muralhas de silêncio.
São pedras de sangue/afogando/engasgando/rasgando.
São ondas de orgulho
Submergindo
Vida abençoante/que palpita escondida
Entre homens/irmãos/amantes
Num mundo desesperançado/esvaziado de amor.

O Yama existe, pelo menos, há cinco mil anos. É o conjunto de elementos que devemos evitar: não violência, não mentir, não roubar, não perversão sexual e não possessividade. E nessa ordem, porque os sábios legisladores hindus sabiam que a violência leva à mentira que leva ao roubo que leva ao abuso sexual e à possessividade. Seqüencia essa que nos encadeia à Roda de Samsara. Que nos alija da Liberdade. Da Iluminação da Consciência.
 

(08 de junho/2002)
CooJornal no 262
    


Sarita Barros
produtora cultural, poeta e escritora
RS  
barros@alternet.com.br
  
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-02.htm