29/06/2002
Número - 265

 

 

 

Sarita Barros



TIM LOPES

Foi torturado. Trucidado. Morto. Quem foi Tim Lopes, o que Tim Lopes representava? Um repórter. Um pai de família. Um homem justiceiro. Alguém no exercício da profissão. Só isso? Quantos assim já foram mortos e no entanto não houve esse clamor nacional. Tim Lopes, no imaginário popular, era mais que isso. Representava a própria justiça. Representava a esperança dos que não tinham voz. Era o paladino, o herói. Novo Hércules a desempenhar seus trabalhos mitológicos. Os heróis não morrem, não podem morrer. E o herói morreu. O herói foi assassinado. As forças maléficas venceram o bem. Quem agora encarnará o anseio popular? Quem dará esperança ao caluniado, fé ao descrente, amor ao que perdeu toda e qualquer referência... Tim Lopes era tudo isso. Última porta aberta ao que já batera em todas as que estavam fechadas ou se fechavam à aproximação do desvalido de justiça, ao desesperançado.

Quem o matou? Os 2, 5, 7 ou mais bandidos da quadrilha? “Apenasmente” esses? Creio que há mais gente envolvida no processo. O crime organizado, dirão alguns. Os traficantes, dirão outros. Quem deixou o crime se organizar? Um “estado paralelo” não é formado num estalar de dedos. São necessários anos, quiçá décadas para que tal aconteça. Décadas de desmando político. Décadas de descaso oficial. Décadas de maracutaias, suborno e justiça caolha. Uma sociedade marginalizada cria seus próprios ídolos. Suas próprias leis. Forma um “outro estado”. Ouvidos oficiais não devem ser moucos. Olhos oficiais não devem usar óculos de lentes negras ou rosadas. Mãos oficiais não devem ser sujas. Nem os traseiros oficiais devem ter rabo. Sempre que a justiça for para alguns, a segurança para poucos, a saúde e educação para uma minoria, perde o Estado sua soberania e o povo qualidade de vida e direitos.

O episódio que culminou com a morte de Tim Lopes não envolveu apenas um homem assassinado e meia dúzia de executores. Se houvesse um Estado cônscio de seus direitos e deveres. Se a Constituição Federal fosse respeitada. Se a distribuição de renda não fosse tão escandalosa. Se o povo não se sentisse defraudado. Se as pessoas tivessem a quem recorrer, e em recorrendo fossem atendias, não haveria condição de ser criado um “estado paralelo”. Não haveria necessidade de um homem tentar superar-se transformando-se em herói popular, em lenda viva, em um “Zorro Brasileiro” enfrentando sozinho o crime organizado. Esse episódio representa a falência da sociedade.



(29 de junho/2002)
CooJornal no 265
    


Sarita Barros
produtora cultural, poeta e escritora
RS  
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