| Sarita Barros
TIM LOPES
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Foi torturado. Trucidado. Morto. Quem foi Tim Lopes, o que Tim Lopes
representava? Um repórter. Um pai de família. Um homem justiceiro.
Alguém no exercício da profissão. Só isso? Quantos assim já foram
mortos e no entanto não houve esse clamor nacional. Tim Lopes, no
imaginário popular, era mais que isso. Representava a própria justiça.
Representava a esperança dos que não tinham voz. Era o paladino, o
herói. Novo Hércules a desempenhar seus trabalhos mitológicos. Os
heróis não morrem, não podem morrer. E o herói morreu. O herói foi
assassinado. As forças maléficas venceram o bem. Quem agora encarnará
o anseio popular? Quem dará esperança ao caluniado, fé ao descrente,
amor ao que perdeu toda e qualquer referência... Tim Lopes era tudo
isso. Última porta aberta ao que já batera em todas as que estavam
fechadas ou se fechavam à aproximação do desvalido de justiça, ao
desesperançado.
Quem o matou? Os 2, 5, 7 ou mais bandidos da quadrilha? “Apenasmente”
esses? Creio que há mais gente envolvida no processo. O crime
organizado, dirão alguns. Os traficantes, dirão outros. Quem deixou o
crime se organizar? Um “estado paralelo” não é formado num estalar de
dedos. São necessários anos, quiçá décadas para que tal aconteça.
Décadas de desmando político. Décadas de descaso oficial. Décadas de
maracutaias, suborno e justiça caolha. Uma sociedade marginalizada
cria seus próprios ídolos. Suas próprias leis. Forma um “outro
estado”. Ouvidos oficiais não devem ser moucos. Olhos oficiais não
devem usar óculos de lentes negras ou rosadas. Mãos oficiais não devem
ser sujas. Nem os traseiros oficiais devem ter rabo. Sempre que a
justiça for para alguns, a segurança para poucos, a saúde e educação
para uma minoria, perde o Estado sua soberania e o povo qualidade de
vida e direitos.
O episódio que culminou com a morte de Tim Lopes não envolveu apenas
um homem assassinado e meia dúzia de executores. Se houvesse um Estado
cônscio de seus direitos e deveres. Se a Constituição Federal fosse
respeitada. Se a distribuição de renda não fosse tão escandalosa. Se o
povo não se sentisse defraudado. Se as pessoas tivessem a quem
recorrer, e em recorrendo fossem atendias, não haveria condição de ser
criado um “estado paralelo”. Não haveria necessidade de um homem
tentar superar-se transformando-se em herói popular, em lenda viva, em
um “Zorro Brasileiro” enfrentando sozinho o crime organizado. Esse
episódio representa a falência da sociedade.
(29 de junho/2002)
CooJornal no 265
Sarita
Barros
produtora cultural, poeta e escritora
RS
barros@alternet.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-02.htm