| Sarita Barros
LUA-DE-CRISTAL
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Era uma vez,
no misterioso Oriente, há muitos anos, tantos que ficaram perdidos nas
areias do tempo, dois grandes reinos. Um nas Terra do Sol, outro nas
Terras da Lua. Nas Terras do Meio, numerosos sultanatos. O príncipe
Guerreiro-do-Sol e a princesa Lua-de-Cristal apaixonaram-se.
Casaram-se para felicidade de seus pais e súditos. Lua-de-Cristal
vivia em êxtase, não sabia como merecera o amor do Guerreiro-do-Sol.
Grande, esguio, alto e dourado sendo ela pequenina/branca/redonda como
a lua. Na noite de núpcias não tirou o véu que lhe cobria a mão
esquerda. Tanto insistiu seu príncipe consorte que, entre lágrimas,
retirou a seda. Mostrou pequena cicatriz no dedo mínimo. Cicatriz
proveniente de queda sofrida quando criança. Caíra sobre roseira e um
espinho rasgou-lhe fundo a tenra carne. Ele riu dos receios dela,
beijou-lhe a mimosa mão, jurando que jamais notaria a marca. A
princesa prostrou-se a seus pés jurando servi-lo para sempre. Os anos
passaram e a cada rusguinha Lua de Cristal: “assim me tratas porque
sou pequenina/branca e redonda como a lua e tenho esta terrível marca
que me deforma a mão”. Ele ria, insistindo que mal se via a “terrível
deformação”. Com o tempo deixou de pegar a mão esquerda da esposa.
O Rei morreu. Findas as exéquias, deveria marcar-se a data para a
entronização do novo casal real. O Príncipe, taciturno e solitário.
Nem o bobo-da-corte, nem saltimbancos conseguiam arrancar-lhe um leve
sorriso. Em determinado momento anunciou à corte que assumiria o trono
dez luas após a que seu pai morrera. Todos estranharam. Escolher data
tão distante. Todo herdeiro marcava duas luas, no máximo.
Guerreiro-do-Sol não ouviu conselheiros e partiu. Sem mesmo avisar sua
princesa, que se sentiu excluída. Muitas lágrimas rolaram por suas
faces antes de dormir exausta. No dia seguinte ocupou-se com o
planejamento da festa de elevação. Fez tudo sozinha. Não sabia por
onde andava nem quando chegaria seu esposo. Convites a Reis, Marajás e
Sultões do mundo inteiro. Seus emissários atravessaram a “grande água”
e a linha das montanhas. Para o Rei, manto tecido com fios de ouro,
para a Rainha capa com tramas de prata rebordada a brilhantes. As
vestes simbolizavam a união dos dois maiores reinos do Oriente.
Na lua anterior à estabelecida para a cerimônia chega o príncipe com
nova esposa. Lua de Cristal não consegue acreditar. Sente-se traída.
“Juraste, quando nos casamos, jamais tomar Segunda Esposa.”
– Não poderia dar ao povo do maior Reino da Terra uma esposa aleijada.
A princesa encarnando todas as fúrias: “essa Segunda Esposa é
pequenina/branca e redonda como eu. Aleijada é ela, falta-lhe o dedo
mínimo da mão esquerda”.
O príncipe toma as mãos da nova esposa e as
beija emocionado.
– Cristalina Lua é perfeita. Nada lhe falta, nasceu com nove dedos.
Quando a vi tão pequena, recordei como senti minha grandeza ao te
abraçar pela primeira vez; quando vi sua nívea brancura reafirmou-se
meu desejo por esse branco leitoso, que jamais minha pele terá; quando
vi sua fofura, rememorei a maciez e conforto da tua carne tenra e
amorosa. Ela me olhou e mostrou as mãos: “ó principe dos príncipes sou
a única mulher da terra com nove dedos. Sempre imaginei ter um destino
glorioso. Nove é o número da humanidade, o grande número dos deuses”.
Amei a espontaneidade dela, seu porte altivo, sua nobreza. Aceitou ser
minha esposa sob a condição de ser, de fato, Primeira. Não pude negar.
Tem estatura de verdadeira rainha apesar de filha de um pequeno Sultão
das Terras do Meio.
(27 de julho/2002)
CooJornal no 269
Sarita
Barros
produtora cultural, poeta e escritora
RS
barros@alternet.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-02.htm