10/08/2002
Número - 271

 

Sarita Barros



NATUREZA EM ALTA

Semana passada fiquei feliz ao abrir o Coojornal. Nada menos que três cronistas nos brindaram com vitalidade, através de “ANDAR É VIVER, CORES DE INVERNO E PÔR-DO-SOL”.

Mergulhamos na alma do cronista através da sua alegria em caminhar admirando a paisagem de Ipanema. Deslumbrarmo-nos com a Quaresmeira, suas cores e épocas. — A primeira vez que subi a serra catarinense quase desmaiei de emoção ante aqueles morros coloridos. Senti vontade de voar sobre eles e comer toda aquela beleza. Tenho uma certa belofagia, quando vejo algo lindo quero integrá-lo em mim. O antropófago ancestral se manifesta e me dá uma vontade danada de engolir, mastigar. Literalmente babei através daquela serra —. Aplaudimos o espetáculo do sol que se põe: “o sol, ainda um adolescente saltitante, brinca de pique-esconde atrás do Morro Dois Irmãos rajando o céu de um vermelho que se esmaece em laranja para logo além se pintar em púrpura”. Que descrição magistral de. A menina fez das letras pincéis e pintou o arrebol em palavras.

A natureza nos aproxima de Deus e nos faz esquecer a discórdia, e o mau caratismo que infesta a sociedade. Se nos dedicássemos mais a ela (natureza) viveríamos menos este artificialismo que nos consome. Através das paisagens de dentro e da exaltação da beleza natural nossa alma encontra paz e alegria.

Não a paz da imobilidade, do nada sentir e fazer. Que isso não é paz, é paralisação do sentir e agir. Mas a paz verdadeira, aquela que nos diz termos um lugar no mundo. Que nos diz não precisarmos nos preocupar, pois nenhum ladrão irá roubá-lo, nem rato algum haverá de roê-lo. Essa paz é que nos dá forças para investir em aperfeiçoamento, desenvolver nossa criatividade, aprimorar nossa produtividade. Nos faz cidadãos, patriotas, solidários, amigos, tolerantes e compassivos. Essa paz é que nos dá a fé que remove montanhas, a esperança no futuro da humanidade, o amor que nos liberta.

Não a alegria barata traduzida em um riso sem brilho. Mas a alegria interior traduzida em contentamento. Contentamento que é um cântico de louvor ao Criador e Sua Obra. Alegria de nos sabermos filhos e herdeiros Dele. Alegria advinda da confiança de repousarmos em Sua mão. Alegria advinda do conhecimento de existir um Poder maior que o do FMI e do Tio Sam juntos. E que esse Poder é justo. Que esse Poder jamais irá tomar o que possuímos em troca de verdinhas emitidas para esse fim: tomar o que temos de precioso. Por fugirmos da Natureza, por nos desvincularmos do natural e nos submetermos ao normal estamos pagando um alto preço. O normal nos robotizou, tirou nossa independência e soberania. Nos fez esquecer nossa origem e nos transformou em capacho do Deus Mercado. A esse falso deus e seus apaniguados empenhamos futuro, glória, honra, bens e vergonha.



(10 de agosto/2002)
CooJornal no 271
    


Sarita Barros
produtora cultural, poeta e escritora
RS  
barros@alternet.com.br
  
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-02.htm