24/08/2002
Número - 273

 

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Sarita Barros



INESPERADO

A imaginação nos surpreende. Porém a imaginação geralmente borda sobre o vislumbrado, conhecido, experimentado. São variações sobre um tema. Dificilmente temos imaginação criativa. Sempre partimos de uma base. O que causa impacto são coisas e fatos inesperados. Quando visitei o Chile, ver os Andes com seus picos cobertos de neve eterna. Sentir o ar gelado fustigando o rosto. Tocar no gelo da cordilheira. Admirar o Aconcágua. Tudo isso e muito mais passava pela minha cabeça. Tudo se realizou mas não surpreendeu. Dentro do script.

Causou impacto, entre outros:
• A cidade de Mendoza.
Lá não chove, não existe um curso dágua – 80.000 habitantes e 72 praças – Terras desérticas tornadas férteis pela canalização das águas do degelo. Mendoza vive da Cordilheira. O homem modificou a realidade. Fez do deserto um jardim.

• O vento da madrugada em Santiago.
A gente ouve a ventania, parece que está levando tudo, quando se abre a janela nem uma folha se move. Isso causa um impacto. Onde está o vento? Por que não o vejo? O vento corre por cima de Santiago, da cordilheira da Costa para a cordilheira dos Andes. Fez refletir sobre as coisas que não vemos, porém sentimos, o que nos dá a sensação de que as vemos.

• As águas sulfurosas da “Puente del Inca”
Os nativos penduram coisas na montanha e as retiram em 25 dias. Depois nos vendem lixo petrificado a dólar. Compramos luvas furadas, latinhas de refri ou cerveja, tênis rasgados, botas com o solado aberto, pires, pedaços de corda, tudo recoberto por uma finíssima camada de material pétreo. — Turismo é a valorização do quotidiano, amor e convivência com a natureza, com o meio ambiente. É a harmonia ambiental. É sobretudo amor.

• O azul do lago de Portillo.
Escandalosamente azul. Dá vontade da gente se fundir nele. Entra pelos olhos e azulece a alma. Parece tinta. Eu não esperava o lago. Ao me chamarem, quase não fui. Quase perdido um momento único. Estar aberta para o momento é uma sacada.

• O túnel subaquático em Santa Fé.
São mais de 2000m rodando sob o rio Paraná. Muitos fizeram a travessia dormindo. Todo iluminado. Bonito. Lâmpadas de sinalização. Já imaginaram um furinho, unzinho só bem pequenininho, nessa estrutura toda?

• A tristeza dos chilenos.
Sou amarrada em gente. Quando exerci o Magistério sempre preferi sala de aula ao setor. O povo chileno me pareceu contido, comedido e triste. Eles passam uma dicotomia. São como o vento da madrugada. As emoções rugem em algum lugar que o corpo aprisiona. Muito terno e muito tailleur. Saias micro ou pregueadas. Escuras, claras, estampadas. Sempre cheias de pregas. Pouco tênis. Sapatos e saltos em profusão. Formais, atenciosos, politicamente corretos no falar e no agir. Ou será a falta da alegria do negro na miscigenação?

Quando penso nas eleições que se aproximam minha imaginação pinta o conhecido. Escravização do povo, aumento da faixa de miserabilidade, acordos internacionais favorecendo potências estrangeiras. Dá tristeza e tédio. Fomos colônia, vice-reino, império, ditadura. Somos república e nunca fomos donos do próprio nariz. Sempre temos assinado acordos leoninos. Entregamos nossa vida, saúde, riquezas por meia pataca de mel coado. Nem por isso, por papel. Menos que isso: impulsos eletrônicos.
Quando ficarei surpresa com algum governo?


(24 de agosto/2002)
CooJornal no 273
    


Sarita Barros
produtora cultural, poeta e escritora
RS  
barros@alternet.com.br
  
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-02.htm