| Sarita Barros
INESPERADO
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A imaginação nos surpreende. Porém a imaginação geralmente borda sobre
o vislumbrado, conhecido, experimentado. São variações sobre um tema.
Dificilmente temos imaginação criativa. Sempre partimos de uma base. O
que causa impacto são coisas e fatos inesperados. Quando visitei o
Chile, ver os Andes com seus picos cobertos de neve eterna. Sentir o
ar gelado fustigando o rosto. Tocar no gelo da cordilheira. Admirar o
Aconcágua. Tudo isso e muito mais passava pela minha cabeça. Tudo se
realizou mas não surpreendeu. Dentro do script.
Causou impacto, entre outros:
• A cidade de Mendoza.
Lá não chove, não existe um curso dágua – 80.000 habitantes e 72
praças – Terras desérticas tornadas férteis pela canalização das
águas do degelo. Mendoza vive da Cordilheira. O homem modificou a
realidade. Fez do deserto um jardim.
• O vento da madrugada em Santiago.
A gente ouve a ventania, parece que está levando tudo, quando se abre
a janela nem uma folha se move. Isso causa um impacto. Onde está o
vento? Por que não o vejo? O vento corre por cima de Santiago, da
cordilheira da Costa para a cordilheira dos Andes. Fez refletir sobre
as coisas que não vemos, porém sentimos, o que nos dá a sensação de
que as vemos.
• As águas sulfurosas da “Puente del Inca”
Os nativos penduram coisas na montanha e as retiram em 25 dias. Depois
nos vendem lixo petrificado a dólar. Compramos luvas furadas, latinhas
de refri ou cerveja, tênis rasgados, botas com o solado aberto, pires,
pedaços de corda, tudo recoberto por uma finíssima camada de material
pétreo. — Turismo é a valorização do quotidiano, amor e convivência
com a natureza, com o meio ambiente. É a harmonia ambiental. É
sobretudo amor.
• O azul do lago de Portillo.
Escandalosamente azul. Dá vontade da gente se fundir nele. Entra pelos
olhos e azulece a alma. Parece tinta. Eu não esperava o lago. Ao me
chamarem, quase não fui. Quase perdido um momento único. Estar aberta
para o momento é uma sacada.
• O túnel subaquático em Santa Fé.
São mais de 2000m rodando sob o rio Paraná. Muitos fizeram a travessia
dormindo. Todo iluminado. Bonito. Lâmpadas de sinalização. Já
imaginaram um furinho, unzinho só bem pequenininho, nessa estrutura
toda?
• A tristeza dos chilenos.
Sou amarrada em gente. Quando exerci o Magistério sempre preferi sala
de aula ao setor. O povo chileno me pareceu contido, comedido e
triste. Eles passam uma dicotomia. São como o vento da madrugada. As
emoções rugem em algum lugar que o corpo aprisiona. Muito terno e
muito tailleur. Saias micro ou pregueadas. Escuras, claras,
estampadas. Sempre cheias de pregas. Pouco tênis. Sapatos e saltos em
profusão. Formais, atenciosos, politicamente corretos no falar e no
agir. Ou será a falta da alegria do negro na miscigenação?
Quando penso nas eleições que se aproximam minha imaginação pinta o
conhecido. Escravização do povo, aumento da faixa de miserabilidade,
acordos internacionais favorecendo potências estrangeiras. Dá tristeza
e tédio. Fomos colônia, vice-reino, império, ditadura. Somos república
e nunca fomos donos do próprio nariz. Sempre temos assinado acordos
leoninos. Entregamos nossa vida, saúde, riquezas por meia pataca de
mel coado. Nem por isso, por papel. Menos que isso: impulsos
eletrônicos.
Quando ficarei surpresa com algum governo?
(24 de agosto/2002)
CooJornal no 273
Sarita
Barros
produtora cultural, poeta e escritora
RS
barros@alternet.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-02.htm