19/10/2002
Número - 282


 

Sarita Barros



AFTER DAY

Gosto de flores. Flores balançando suavemente em sua haste, em seu galho, em seu pé, num desvão de muro, jardim ou beira do caminho. Flores sorrindo em um vaso me dão aperto no coração. Temos o direito de decepá-las? Será esse o triste fim da beleza? Ser capturada para deleite de alguns...

Algumas mulheres querem prender a beleza e ficam presas ao passado. Maquilagem, corte de cabelo, cor de batom e trejeitos de quando tinham vinte, trinta anos. Parecem fantasmas delas mesmas. Outras usam vestes de adolescentes por toda vida, embora nem o corpo nem o rosto suportem tal vestidura. Parecem pós jovens.

Minha avó sempre dizia que cada idade tem sua beleza e vantagens. O importante era saber encontrá-las e saboreá-las. Isso ela me dizia quando eu estava louca para fazer quinze anos, ir ao clube à noite, chegar em casa depois das dez, namorar. “Deixa de pensar nos quinze e desfruta a beleza dos treze, nunca mais terás treze, só esta vez. Muita coisa que fazes agora não poderás fazer aos quinze. Procura as vantagens desta idade e goza delas até a última gota. Fazendo isso jamais terás vergonha de dizer tua idade, nem te arrependerás de ter vivido, porque realmente terás vivido. Ninguém se arrepende do que viveu e sim do que deixou de viver.” Na época não entendi toda a profundidade do conselho, mas como a amava e achava que sempre tinha razão, procurei desfrutar meus treze da melhor forma possível.

A medida que os anos vão chegando e passando verifico que foi a melhor receita de vida que já encontrei. Estou sempre procurando enxergar beleza e vantagens da etapa que estou vivendo. Engraçado, não é que ela tinha razão? Sempre há beleza e oportunidades e não tenho medo ou vergonha de dizer minha idade. Tenho até orgulho. Tenho ido um pouco além e procurado beleza e vantagens na época, lugar e ambiente onde estou inserida. Sempre há. Às vezes parece que não há saída, que o negócio está feio. Descubro uma janela ou clarabóia. Descobri que sempre existe uma luz, uma cor, um brecha, uma oportunidade, uma vantagem. Procuro viver minha vida da melhor forma possível. Viver meu hoje. Meu hoje nesta época de transição, neste país, neste estado, nesta cidade, nesta rua, nesta casa, neste aqui, neste agora.

Pegamos a mania de estarmos vivendo um pós qualquer coisa. Pós guerra. Pós romantismo. Pós ditadura. Pós moderno. Pós história. Pós eleições. Como se já tivéssemos vivido tudo o que nos fosse permitido viver, ver, gostar, gozar, amar. Como se nada mais fosse possível além do já experimentado. Como se estivéssemos fora do tempo, do lugar, da vida. Como se não houvesse esperança, realidade, sonho, saída. Como se o fogo estivesse apagado e a porta lacrada. Será que o país não está precisando da receita da minha vó Dinorah?



(19 de outubro/2002)
CooJornal no 282
    


Sarita Barros
produtora cultural, poeta e escritora
RS  
barros@alternet.com.br
  
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-02.htm