| Sarita Barros
AFTER DAY
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Gosto de flores. Flores balançando suavemente em sua haste, em seu
galho, em seu pé, num desvão de muro, jardim ou beira do caminho.
Flores sorrindo em um vaso me dão aperto no coração. Temos o direito
de decepá-las? Será esse o triste fim da beleza? Ser capturada para
deleite de alguns...
Algumas mulheres querem prender a beleza e ficam presas ao passado.
Maquilagem, corte de cabelo, cor de batom e trejeitos de quando tinham
vinte, trinta anos. Parecem fantasmas delas mesmas. Outras usam vestes
de adolescentes por toda vida, embora nem o corpo nem o rosto suportem
tal vestidura. Parecem pós jovens.
Minha avó sempre dizia que cada idade tem sua beleza e vantagens. O
importante era saber encontrá-las e saboreá-las. Isso ela me dizia
quando eu estava louca para fazer quinze anos, ir ao clube à noite,
chegar em casa depois das dez, namorar. “Deixa de pensar nos quinze e
desfruta a beleza dos treze, nunca mais terás treze, só esta vez.
Muita coisa que fazes agora não poderás fazer aos quinze. Procura as
vantagens desta idade e goza delas até a última gota. Fazendo isso
jamais terás vergonha de dizer tua idade, nem te arrependerás de ter
vivido, porque realmente terás vivido. Ninguém se arrepende do que
viveu e sim do que deixou de viver.” Na época não entendi toda a
profundidade do conselho, mas como a amava e achava que sempre tinha
razão, procurei desfrutar meus treze da melhor forma possível.
A medida que os anos vão chegando e passando verifico que foi a melhor
receita de vida que já encontrei. Estou sempre procurando enxergar
beleza e vantagens da etapa que estou vivendo. Engraçado, não é que
ela tinha razão? Sempre há beleza e oportunidades e não tenho medo ou
vergonha de dizer minha idade. Tenho até orgulho. Tenho ido um pouco
além e procurado beleza e vantagens na época, lugar e ambiente onde
estou inserida. Sempre há. Às vezes parece que não há saída, que o
negócio está feio. Descubro uma janela ou clarabóia. Descobri que
sempre existe uma luz, uma cor, um brecha, uma oportunidade, uma
vantagem. Procuro viver minha vida da melhor forma possível. Viver meu
hoje. Meu hoje nesta época de transição, neste país, neste estado,
nesta cidade, nesta rua, nesta casa, neste aqui, neste agora.
Pegamos a mania de estarmos vivendo um pós qualquer coisa. Pós guerra.
Pós romantismo. Pós ditadura. Pós moderno. Pós história. Pós eleições.
Como se já tivéssemos vivido tudo o que nos fosse permitido viver, ver,
gostar, gozar, amar. Como se nada mais fosse possível além do já
experimentado. Como se estivéssemos fora do tempo, do lugar, da vida.
Como se não houvesse esperança, realidade, sonho, saída. Como se o
fogo estivesse apagado e a porta lacrada. Será que o país não está
precisando da receita da minha vó Dinorah?
(19 de outubro/2002)
CooJornal no 282
Sarita
Barros
produtora cultural, poeta e escritora
RS
barros@alternet.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-02.htm