16/11/2002
Número - 286

 


 

Sarita Barros



A ESPERANÇA NÃO É SÓ NOSSA

Recebi carta de uma tia uruguaia que mora em Montevidéu. Feliz com a vitória de Lula. Dizendo que essa vitória representa uma esperança para “Latinoamérica” Que é o começo de uma era de Justiça Social e Solidariedade. Que por fim Tio San deixará de ser o dono dos países em desenvolvimento. Que o Lula representa um novo “San Martin” – herói que lutou pela liberdade da Hispano América. Que todo este mundo meridional está com os olhos postos no Brasil. Que o “povo brasileiro deu um basta no entreguismo, nas vergonhosas privatizações. Que o brasileiro mostrou ao mundo que sabe o que quer. Que essa eleição massiva foi um recado aos Povos do Norte e ao FMI. Que agora o Brasil, finalmente, irá ocupar a liderança entre as Nações.

Era tanta alegria, tanta esperança e confiança que senti vergonha. Vergonha das minhas dúvidas, pessimismo e coração apertado. Ao mesmo tempo fiquei ainda menor. Não havia me dado conta que estávamos sendo referência e exemplo. Que com essa eleição viramos vitrine do mundo. Que nossas atitudes estão sendo vigiadas, pesadas e medidas. Será que Lula e o PT sabem disso? Que saímos do nosso quintal e nos arremessamos ao espaço?

Estamos encarnando o espírito libertário. Somos hodierna Cuba. Em vez da Sierra Maestra, a rampa. Em vez das armas, o voto. Fico pensando qual será o “bloqueio”. Cuba sofreu e ainda sofre as conseqüências do seu “ato de rebeldia”, da “vitória del pueblo”. Está arrasada, sucateada e definha dia-a-dia. Foi impotente às forças externas. Não conseguiu aliados. E com ela afundou-se nossa esperança de liberdade. E cada vez mais fomos nos transformando em hambúrguer e coca cola.

Hoje pouco possuímos. O Banco do Brasil está indo pras cucúias. E a Serra Pelada com seu ouro? Foi-se junto com a Vale para a Alemanha. Areias monazídicas, ferro, ouro, pedras preciosas... andam por aí com outras riquezas nossas. Nossa fauna e flora patenteada pelos gringos com o beneplácido dos nossos Três Poderes. Ainda nos resta água, ar, algo da Amazônia e alguma coisa mais além deste povo sofrido, batalhador e alegre. Estamos entre as dez maiores economias do mundo e somos campeões em má distribuição de renda. Sofremos fome, doença e falta de justiça social. Com todo esse quadro de desalento e tristeza estamos inspirando outros povos. Somos “La Esperanza de América”.

Peço a Deus, contrita e de joelhos, que ilumine Lula, seus primeiro e segundo escalões, o novo Congresso, o PT e todos os partidos, quer da direita, quer da esquerda para que seu governo consiga, pelo menos, diminuir um pouco o desnível social, câncer que vem nos carcomendo. Que devolva um pouco da nossa soberania. Que nos devolva o orgulho de sermos cidadãos brasileiros. Que não defraude esta esperança. Esperança que não é só nossa.



(16 de novembro/2002)
CooJornal no 286
    


Sarita Barros
produtora cultural, poeta e escritora
RS  
barros@alternet.com.br
  
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-02.htm