| Sarita Barros
A ESPERANÇA NÃO É SÓ NOSSA
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Recebi carta de uma tia uruguaia que mora em Montevidéu. Feliz com a
vitória de Lula. Dizendo que essa vitória representa uma esperança
para “Latinoamérica” Que é o começo de uma era de Justiça Social e
Solidariedade. Que por fim Tio San deixará de ser o dono dos países em
desenvolvimento. Que o Lula representa um novo “San Martin” – herói
que lutou pela liberdade da Hispano América. Que todo este mundo
meridional está com os olhos postos no Brasil. Que o “povo brasileiro
deu um basta no entreguismo, nas vergonhosas privatizações. Que o
brasileiro mostrou ao mundo que sabe o que quer. Que essa eleição
massiva foi um recado aos Povos do Norte e ao FMI. Que agora o Brasil,
finalmente, irá ocupar a liderança entre as Nações.
Era tanta alegria, tanta esperança e confiança que senti vergonha.
Vergonha das minhas dúvidas, pessimismo e coração apertado. Ao mesmo
tempo fiquei ainda menor. Não havia me dado conta que estávamos sendo
referência e exemplo. Que com essa eleição viramos vitrine do mundo.
Que nossas atitudes estão sendo vigiadas, pesadas e medidas. Será que
Lula e o PT sabem disso? Que saímos do nosso quintal e nos
arremessamos ao espaço?
Estamos encarnando o espírito libertário. Somos hodierna Cuba. Em vez
da Sierra Maestra, a rampa. Em vez das armas, o voto. Fico pensando
qual será o “bloqueio”. Cuba sofreu e ainda sofre as conseqüências do
seu “ato de rebeldia”, da “vitória del pueblo”. Está arrasada,
sucateada e definha dia-a-dia. Foi impotente às forças externas. Não
conseguiu aliados. E com ela afundou-se nossa esperança de liberdade.
E cada vez mais fomos nos transformando em hambúrguer e coca cola.
Hoje pouco possuímos. O Banco do Brasil está indo pras cucúias. E a
Serra Pelada com seu ouro? Foi-se junto com a Vale para a Alemanha.
Areias monazídicas, ferro, ouro, pedras preciosas... andam por aí com
outras riquezas nossas. Nossa fauna e flora patenteada pelos gringos
com o beneplácido dos nossos Três Poderes. Ainda nos resta água, ar,
algo da Amazônia e alguma coisa mais além deste povo sofrido,
batalhador e alegre. Estamos entre as dez maiores economias do mundo e
somos campeões em má distribuição de renda. Sofremos fome, doença e
falta de justiça social. Com todo esse quadro de desalento e tristeza
estamos inspirando outros povos. Somos “La Esperanza de América”.
Peço a Deus, contrita e de joelhos, que ilumine Lula, seus primeiro e
segundo escalões, o novo Congresso, o PT e todos os partidos, quer da
direita, quer da esquerda para que seu governo consiga, pelo menos,
diminuir um pouco o desnível social, câncer que vem nos carcomendo.
Que devolva um pouco da nossa soberania. Que nos devolva o orgulho de
sermos cidadãos brasileiros. Que não defraude esta esperança.
Esperança que não é só nossa.
(16 de novembro/2002)
CooJornal no 286
Sarita
Barros
produtora cultural, poeta e escritora
RS
barros@alternet.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-02.htm