21/12/2002
Número - 291

 


 

Sarita Barros



SÍSIFO E NÓS

Dia desses conversando com um amigo enveredamos pela mitologia. Ele foi discorrendo sobre Sísifo. Várias interpretações, de Homero a Jung, passando por Camus e Baudelaire. Ele é perseguido por Sísifo, ou persegue o rei de Corinto. Procura sempre um sentido para o castigo e o conformismo do herói, ou anti-herói. Analisa-o sob vários enfoques. Procura uma visão holística, acha que falta algo nas interpretações.

Disse-lhe que não tenho predileção por essa história porque Acho Sísifo meio burrificado. Fazendo um trabalho sem gratificação alguma. Mecanicista. Cadê a propalada astúcia? Se fosse um pouquinho poeta ou anarquista e resolvesse sentar um tiquinho no rochedo e refletir um pouco... ou se parasse um instante para olhar a flor, em vez de pisá-la... talvez se desse conta do absurdo a que está submetido.

Para mim, Sísifo e sua pedra, é a metáfora ocidental para a roda de Samsara dos orientais. O ciclo das encarnações: nasce, morre e renasce, nasce, morre e renasce “ad infinitum” até que se dá conta do absurdo e resolve trabalhar um pouco o espírito a fim de romper o ciclo. Representa a grande massa humana. Pois, segundo as escrituras só meia dúzia, nestes seis bilhões conseguiram a libertação. Dá para contar nos dedos: Jesus, Maria, José, Buda, Maomé e mais alguns santos e iluminados. Todos nós continuamos a rolar a pedra montanha acima, presos a nossa ‘condição humana’ que de humana nada tem.

Sísifo me incomoda. Ele me faz lembrar a ignorância humana, a minha ignorância, a minha estupidez, a minha falta de perspectiva. Porque enquanto eu não levar a possibilidade de libertação a sério, continuarei pensando que sou um “corpo que tem um espírito” e esquecida da minha condição de “filha de Deus” continuarei a batalhar por migalhas num mundo ilusório, onde a disputa e a discórdia são a tônica. Essa é a minha interpretação do Mito.

Não é que gostou dessa abordagem? Disse que fiz paralelismo entre culturas, que, segundo esse ponto de vista, Sísifo se tornou um elo entre filosofias díspares. Creio que cultura demais faz mal...




(21 de dezembro/2002)
CooJornal no 291
    


Sarita Barros
produtora cultural, poeta e escritora
RS  
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http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-02.htm