| Sarita Barros
SÍSIFO E NÓS
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Dia desses conversando com um amigo enveredamos pela mitologia. Ele
foi discorrendo sobre Sísifo. Várias interpretações, de Homero a Jung,
passando por Camus e Baudelaire. Ele é perseguido por Sísifo, ou
persegue o rei de Corinto. Procura sempre um sentido para o castigo e
o conformismo do herói, ou anti-herói. Analisa-o sob vários enfoques.
Procura uma visão holística, acha que falta algo nas interpretações.
Disse-lhe que não tenho predileção por essa história porque Acho
Sísifo meio burrificado. Fazendo um trabalho sem gratificação alguma.
Mecanicista. Cadê a propalada astúcia? Se fosse um pouquinho poeta ou
anarquista e resolvesse sentar um tiquinho no rochedo e refletir um
pouco... ou se parasse um instante para olhar a flor, em vez de
pisá-la... talvez se desse conta do absurdo a que está submetido.
Para mim, Sísifo e sua pedra, é a metáfora ocidental para a roda de
Samsara dos orientais. O ciclo das encarnações: nasce, morre e
renasce, nasce, morre e renasce “ad infinitum” até que se dá conta do
absurdo e resolve trabalhar um pouco o espírito a fim de romper o
ciclo. Representa a grande massa humana. Pois, segundo as escrituras
só meia dúzia, nestes seis bilhões conseguiram a libertação. Dá para
contar nos dedos: Jesus, Maria, José, Buda, Maomé e mais alguns santos
e iluminados. Todos nós continuamos a rolar a pedra montanha acima,
presos a nossa ‘condição humana’ que de humana nada tem.
Sísifo me incomoda. Ele me faz lembrar a ignorância humana, a minha
ignorância, a minha estupidez, a minha falta de perspectiva. Porque
enquanto eu não levar a possibilidade de libertação a sério,
continuarei pensando que sou um “corpo que tem um espírito” e
esquecida da minha condição de “filha de Deus” continuarei a batalhar
por migalhas num mundo ilusório, onde a disputa e a discórdia são a
tônica. Essa é a minha interpretação do Mito.
Não é que gostou dessa abordagem? Disse que fiz paralelismo entre
culturas, que, segundo esse ponto de vista, Sísifo se tornou um elo
entre filosofias díspares. Creio que cultura demais faz mal...
(21 de dezembro/2002)
CooJornal no 291
Sarita
Barros
produtora cultural, poeta e escritora
RS
barros@alternet.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-02.htm