10/05/2003
Número - 314


 

Sarita Barros



RÉQUIEM

Quero escrever sobre coisas triviais. Não consigo. Assim que ponho os dedos no teclado lá vem ela. A guerra-do-bush. Fecho o computador. Faz mais de mês que isso acontece. Se continuar nesse tranco, não mais escreverei. Claro que o mundo não vai chorar por isso. Talvez até agradeça, mas eu me importo. E para o bem de minha saúde mental resolvi acabar com isso. Como? Enfrentando o monstro. A guerra-do-bush quer vir? Venha.

Agora meus dedos silenciam. Parecem exauridos. Frios. Apagados. Se recusam a falar sobre crianças despedaçadas, sonhos desfeitos, cultura aniquilada.

Cérbero, aquele cão guardião dos infernos, está solto e devora o que lhe aparece à frente. Cartago, fichinha comparada à Bagdad. Átila? Um rapaz bem comportado. Legiões Romanas? Brinquedo de criança. Hitler, encontrou seu irmão.

E a ONU? Está morta e não sabe. Virou Lulu de madame. Quase 200 países baixaram a cabeça. Concordaram. Consentiram. Sinto vergonha de ser humana. Somos reféns. Estamos mortos de medo. Soberania, o que é isso? Democracia? Grande mentira.

E o mundo segue andando. Cego, surdo e paralítico. Quem pode mais chora menos. Essa é a moral vigente. Esse, o modelo adotado. Júnior quer petróleo? É só brincar de general e tomar todo o petróleo que bem entender. Nem que para isso tenha de trucidar um povo. O que mais vai querer? Nem precisa outra justificativa. BenLaden-Sadan-armaquímica é universal. Se ninguém tem coragem de contestar, para que queimar bestunto? Pobre Líbia.

Saques, incêndios, traumas, peste, doenças, mortandade. Por onde Átila passava não mais nascia grama. O que irá brotar em Bagdad? Pobre Iraque. Corpos em pedaços brotam? Germinam olhos em órbitas queimadas? Membros não nascem das amputações. Nem florescem rostos em cabeças deformadas. Não brotam bebês sadios de entranhas massacradas. Pobre-de-nós.

Depois querem segurar a violência. Violência social. Violência individual. Violência do Estado. Violência sexual Fernandinho Beiramar. Narcotráfico. Gangs. Assaltos. Assassinatos. Seqüestros, Guerrilha urbana. Faces da mesma dobradura. A violência está institucionalizada. A vida virou moeda sem valor. A morte está banalizada.

Minha vó sempre dizia: “ri o roto do descosido”, quando certas coisas aconteciam. O Iraque foi descosido e os rotos somos todos. Temos uma chaga na alma. Assistimos por TV o fim de uma civilização. Triste mundo que a isso assiste. Tristes guerras. Tristes gentes.


(10 de maio/2003)
CooJornal no 314
    


Sarita Barros
produtora cultural, poeta e escritora
RS  
barros@alternet.com.br
  
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-02.htm