| Sarita Barros
RÉQUIEM
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Quero escrever sobre coisas triviais. Não consigo. Assim que ponho os
dedos no teclado lá vem ela. A guerra-do-bush. Fecho o computador. Faz
mais de mês que isso acontece. Se continuar nesse tranco, não mais
escreverei. Claro que o mundo não vai chorar por isso. Talvez até
agradeça, mas eu me importo. E para o bem de minha saúde mental
resolvi acabar com isso. Como? Enfrentando o monstro. A guerra-do-bush
quer vir? Venha.
Agora meus dedos silenciam. Parecem exauridos. Frios. Apagados. Se
recusam a falar sobre crianças despedaçadas, sonhos desfeitos, cultura
aniquilada.
Cérbero, aquele cão guardião dos infernos, está solto e devora o que
lhe aparece à frente. Cartago, fichinha comparada à Bagdad. Átila? Um
rapaz bem comportado. Legiões Romanas? Brinquedo de criança. Hitler,
encontrou seu irmão.
E a ONU? Está morta e não sabe. Virou Lulu de madame. Quase 200 países
baixaram a cabeça. Concordaram. Consentiram. Sinto vergonha de ser
humana. Somos reféns. Estamos mortos de medo. Soberania, o que é isso?
Democracia? Grande mentira.
E o mundo segue andando. Cego, surdo e paralítico. Quem pode mais
chora menos. Essa é a moral vigente. Esse, o modelo adotado. Júnior
quer petróleo? É só brincar de general e tomar todo o petróleo que bem
entender. Nem que para isso tenha de trucidar um povo. O que mais vai
querer? Nem precisa outra justificativa. BenLaden-Sadan-armaquímica é
universal. Se ninguém tem coragem de contestar, para que queimar
bestunto? Pobre Líbia.
Saques, incêndios, traumas, peste, doenças, mortandade. Por onde Átila
passava não mais nascia grama. O que irá brotar em Bagdad? Pobre
Iraque. Corpos em pedaços brotam? Germinam olhos em órbitas queimadas?
Membros não nascem das amputações. Nem florescem rostos em cabeças
deformadas. Não brotam bebês sadios de entranhas massacradas.
Pobre-de-nós.
Depois querem segurar a violência. Violência social. Violência
individual. Violência do Estado. Violência sexual Fernandinho Beiramar.
Narcotráfico. Gangs. Assaltos. Assassinatos. Seqüestros, Guerrilha
urbana. Faces da mesma dobradura. A violência está institucionalizada.
A vida virou moeda sem valor. A morte está banalizada.
Minha vó sempre dizia: “ri o roto do descosido”, quando certas coisas
aconteciam. O Iraque foi descosido e os rotos somos todos. Temos uma
chaga na alma. Assistimos por TV o fim de uma civilização. Triste
mundo que a isso assiste. Tristes guerras. Tristes gentes.
(10 de maio/2003)
CooJornal no 314
Sarita
Barros
produtora cultural, poeta e escritora
RS
barros@alternet.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-02.htm