07/06/2003
Número - 318


 

Sarita Barros



MITOLOGIA CONTEMPORÂNEA

Escolhi Lula, para ser Presidente do Brasil porque, entre outras coisas, pensava que com ele no poder, ficaríamos livres da ALCA. Parece que o tiro saiu pela culatra. Creio que ele vai nos entregar, junto com a América do Sul, ao Tio San, enroladinhos para presente. Fome Zero e ALCA não combinam. Só matando os famintos. Quem sabe irão todos para alguma frente de batalha?

Estamos em um mundo virtual. Matrix não é ficção. Quem determinou que com excesso de comida mais da metade do mundo não deve comer? O dinheiro que deveria fluir vive escondido, parado em contas suspeitas. Temos tecnologia para caríssimos esparadrapos coagulantes e milhões morrem de doenças da miséria, que deveriam ter sido erradicadas há décadas. Alguns moram em mais de mil metros quadrados, centenas de milhares moram na rua. Tem gente que nasce e morre sem nunca ter experimentado uma cama. Nos movemos em um mundo de fantasia determinado por regras sem sentido. Por quê?

O Mercado, o G8, os juros, o PIB, o FMI, a ONU. Quando farão parte da Mitologia da Era Ocidental? Poderemos fazer um paralelo entre a Mitologia Grega e esta. Zeus seria o Mercado. Saturno, o FMI. A ONU bem poderia ser o Olimpo. O G8, a família de Zeus. Os sacrifícios humanos ao Minotauro seriam os juros que impedem o desenvolvimento e sacrificam esperanças e sonhos da juventude.

Quem garante que a Mitologia Grega é mito? Daqui a dois mil anos, alguém do futuro ao ler nossos livros pensará que nossa história é lenda. Como seis bilhões de humanos deixar-se-iam governar por leis tão cruéis?

O fogo pertencia aos deuses e os homens os temiam. Com o fogo tornaram-se semelhantes aos deuses e estes se amedrontaram. Prometeu foi sacrificado mas o Olimpo passou a ser lenda. Haverá um Prometeu em nossa era?

Por momentos pensei que Lula pudesse ser esse Herói. Mas precisa ter muito amor ao próximo para entregar o fígado aos corvos, entregar o País é mais fácil e menos doloroso. Viver no Olimpo, seguir as leis de Zeus e ter Marte por amigo é muito mais nobre. Faz bem ao coração de um simples mortal. Quando as Parcas vierem aí será outra história. Terá ele a moeda necessária para a travessia do rio? Diz outra lenda, que a quem muito foi dado muito será cobrado.

Até que outra era chegue andaremos nus e nos alimentaremos de águas fétidas, detritos e carne humana.



(07 de junho/2003)
CooJornal no 318
    


Sarita Barros
produtora cultural, poeta e escritora
RS  
barros@alternet.com.br
  
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-02.htm