21/06/2003
Número - 320

 


 

Sarita Barros



PROCISSÕES

Quinta feira, 19 de junho de 2003. Feriadão. Daqui a pouco chegam meu irmão e cunhada. Já programei tudo. Comidas, bebidas e passeios. Os sinos começam a tocar. Badalam festivos.

- Que será?, pergunto a minha mãe.

- É a procissão que vai começar.

Nem lembrava o porque do feriado. Corpus Chritis. A procissão do Corpo de Deus. Quando estava no ginásio éramos obrigadas a fazer parte. Devíamos usar uniforme de gala completo: sapatos colegiais (pretos de cadarço) meia-esporte branca, saia marinho pregueada encostando na meia, blusa branca e bleiser marinho com botões dourados. Nas procissões em vez da boina branca usávamos o “bendito” véu, também branco. Eu detestava o uniforme, principalmente os sapatos, eram iguais a sapatos de homem.

Não podiam faltar rosário e missal. Formávamos na frente do Colégio e respondíamos à chamada, que eram duas. Uma antes e outra depois da procissão. A Segunda não era no Colégio e sim em frente à Igreja Matriz. A procissão percorria toda a Avenida Sete (a principal da cidade) desde a Igreja Nossa Senhora Auxiliadora. Levávamos mais de duas horas para percorrer o caminho que normalmente era feito em quinze minutos. O Padre Capelão e as Irmãs Dulce e Zilda puxavam ladainhas e hinos.

Agora as crianças e seus mestres constroem lindos tapetes com flores, serragem e muita criatividade. A obrigação não é explícita, mas se forem revertem faltas e alguns pontos. Quando começa a chover depois dos tapetes feitos e antes da procissão, dá um dó..., ver aquelas lindas figuras irem desmanchando sem cumprirem sua função social. Lembro das crianças que as fizeram. Quantas conseguirão terminar o primeiro grau? Quantas terão oportunidade de fazer o Vestibular?

Em nosso país cada vez mais as oportunidades diminuem. Universidades caras. Laboratórios sucateados. Nossos jovens são preocupados, estressados e deprimidos. A preocupação de minha geração era conseguir o diploma. O emprego, mera decorrência. Agora o diploma dá apenas condições para a corrida desenfreada por uma vaga no mercado de trabalho. Encontramos egressos das Universidades, disputando vaga para Serviços Gerais. Enfermeiras diplomadas trabalhando e ganhando como babá. Outro dia achei o entregador de jornais muito bem falante. Havia terminado a Faculdade de Direito há dois anos, esse foi seu primeiro emprego. A Prefeitura de minha cidade abriu concurso para 600 vagas nos mais diversos setores. Os candidatos somavam 8.400. Filas e filas de pessoas de todas as idades e com as mais diversas habilitações.

Vivemos em filas e em procissões. De uma sala a outra. De informação em informação. As vagas são poucas. O salário é pequeno. As exigências muitas. Éramos felizes sem o saber. Procissões só as da “Santa Madre Igreja”. A preocupação principal era faltar ao ato litúrgico sem levar ausência, driblando a vigilância doa padres, freiras e professores. Não existia a procissão do INPS, do Concurso, da fila da matrícula, da fila do banco, da fila de emprego. E o Senhor Morto somos todos nós que desfilamos todos os dias nossa miséria e nossa glória de seres humanos, mortais, vulneráveis e sublimes.



(21 de junho/2003)
CooJornal no 320
    


Sarita Barros
produtora cultural, poeta e escritora
RS  
barros@alternet.com.br
  
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-02.htm