| Sarita Barros
PROCISSÕES
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Quinta feira, 19 de junho de 2003. Feriadão. Daqui a pouco chegam meu
irmão e cunhada. Já programei tudo. Comidas, bebidas e passeios. Os
sinos começam a tocar. Badalam festivos.
- Que será?, pergunto a minha mãe.
- É a procissão que vai começar.
Nem lembrava o porque do feriado. Corpus Chritis. A procissão do Corpo
de Deus. Quando estava no ginásio éramos obrigadas a fazer parte.
Devíamos usar uniforme de gala completo: sapatos colegiais (pretos de
cadarço) meia-esporte branca, saia marinho pregueada encostando na
meia, blusa branca e bleiser marinho com botões dourados. Nas
procissões em vez da boina branca usávamos o “bendito” véu, também
branco. Eu detestava o uniforme, principalmente os sapatos, eram
iguais a sapatos de homem.
Não podiam faltar rosário e missal. Formávamos na frente do Colégio e
respondíamos à chamada, que eram duas. Uma antes e outra depois da
procissão. A Segunda não era no Colégio e sim em frente à Igreja
Matriz. A procissão percorria toda a Avenida Sete (a principal da
cidade) desde a Igreja Nossa Senhora Auxiliadora. Levávamos mais de
duas horas para percorrer o caminho que normalmente era feito em
quinze minutos. O Padre Capelão e as Irmãs Dulce e Zilda puxavam
ladainhas e hinos.
Agora as crianças e seus mestres constroem lindos tapetes com flores,
serragem e muita criatividade. A obrigação não é explícita, mas se
forem revertem faltas e alguns pontos. Quando começa a chover depois
dos tapetes feitos e antes da procissão, dá um dó..., ver aquelas
lindas figuras irem desmanchando sem cumprirem sua função social.
Lembro das crianças que as fizeram. Quantas conseguirão terminar o
primeiro grau? Quantas terão oportunidade de fazer o Vestibular?
Em nosso país cada vez mais as oportunidades diminuem. Universidades
caras. Laboratórios sucateados. Nossos jovens são preocupados,
estressados e deprimidos. A preocupação de minha geração era conseguir
o diploma. O emprego, mera decorrência. Agora o diploma dá apenas
condições para a corrida desenfreada por uma vaga no mercado de
trabalho. Encontramos egressos das Universidades, disputando vaga para
Serviços Gerais. Enfermeiras diplomadas trabalhando e ganhando como
babá. Outro dia achei o entregador de jornais muito bem falante. Havia
terminado a Faculdade de Direito há dois anos, esse foi seu primeiro
emprego. A Prefeitura de minha cidade abriu concurso para 600 vagas
nos mais diversos setores. Os candidatos somavam 8.400. Filas e filas
de pessoas de todas as idades e com as mais diversas habilitações.
Vivemos em filas e em procissões. De uma sala a outra. De informação
em informação. As vagas são poucas. O salário é pequeno. As exigências
muitas. Éramos felizes sem o saber. Procissões só as da “Santa Madre
Igreja”. A preocupação principal era faltar ao ato litúrgico sem levar
ausência, driblando a vigilância doa padres, freiras e professores.
Não existia a procissão do INPS, do Concurso, da fila da matrícula, da
fila do banco, da fila de emprego. E o Senhor Morto somos todos nós
que desfilamos todos os dias nossa miséria e nossa glória de seres
humanos, mortais, vulneráveis e sublimes.
(21 de junho/2003)
CooJornal no 320
Sarita
Barros
produtora cultural, poeta e escritora
RS
barros@alternet.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-02.htm