19/07/2003
Número - 324

 


 

Sarita Barros



O VELHO E O MAR
 

Li esse conto do Hemingway quando adolescente e detestei. Fiquei com uma sensação de desalento. Demorei a ler. Era só Santiago, o mar e o peixe. Uma agonia. Li um bom pedaço e parei. Depois fui atrás e li outro pedaço. Assim, aos poucos, cheguei ao fim. Odiando fui até o final. Nunca mais li nada do autor.

Anos mais tarde, conversando com meu segundo marido, sobre livros e autores, em tarde outonal, após café com bolo de chuva, ele, que tinha vasta biblioteca, disse:
- Espera, vou trazer um livro que tens de ler. É uma obra prima. Um clássico contemporâneo.
E me veio com “O VELHO E O MAR”. Olhei-o nas mãos dele, nem segurei e:
- Já li e não gostei. Só fui até o fim por pura teimosia.
Ele arregalou os olhos de espanto:
- Essa tua espontaneidade me encanta. Vais dizendo o que pensas de forma pura e simples. Já leste POR QUEM OS SINOS DOBRAM? Também é dele.
- Nunca mais li nada dele. Fiz cruz. Vou experimentar, quem sabe?
Ele levou-o e trouxe o romance. Adorei. Fiz as pazes com Hemingway. Mas nunca voltei ao conto.

Agora fazendo a Oficina de Criação Literária. Uma das leituras imprescindíveis é essa. Quando o Alcy recomendou, gelei “esse livro é o meu peixe” pensei. Ontem minha amiga Sonia sabedora do trauma, ligou:
- Já li ‘aquele’ queres vir pegar?
- Sim, dessa forma acabo logo com isso. Deve ser bom porque lembro dele até hoje. De outros que gostei, nem recordo o nome.
- Eu achei ótimo. Tudo o que o Cheuiche disse.
- Não lembro bem do fim, parece que ele devolve o peixe ao mar. Fica sem ele depois do sacrifício todo, não é?
- Venha pegar para saber.

Comecei a reler. Só levantei quando acabei. Um livro perfeito. Agora entendi o porquê de não haver gostado dele. É desanimador do ponto de vista ocidental. Isso deve ter batido de frente com meus anseios juvenis. Toda a amargura do autor vem à tona. O homem por melhor que seja, por mais bem feito que faça seu trabalho, termina derrotado quando as forças do destino se juntam contra ele. A sorte é fundamental para o triunfo. Santiago, após 85 dias sem pesca, só e velho, pega o maior peixe de sua vida e não ganha um tostão furado por ele. Carne excelente devorada pelos tubarões. O pescador perde faca, linha, arpão e leme, quiçá a própria vida, pois sente que algo se quebrou dentro dele ao cuspir a gosma grudenta. Admite a derrota. Perde tudo menos a confiança em si. E se conforma com sua falta de sorte. Aí entra a filosofia oriental – desconhecida então para mim. Ensina a aceitação. A impermanência. O momento de triunfo pode ser seguido da queda mais profunda. O que vale é a dedicação e amor ao trabalho, não os seus frutos. Venha o que vier, como vier, deve ser aceito.

Creio que Hemingway nos brindou com seu drama íntimo. Sua luta desesperante com forças maiores que ele. Forças que brincaram com seu talento, vontade, amor e fé. Forças que comeram o fruto do seu trabalho, a harmonia e o significado de sua vida, seu peixe. Sua carne. Hemingway não conseguiu a paciência e aceitação de Santiago. Talvez não tivesse sequer um Manolim em quem confiar. O genial escritor produziu um homem atormentado, ou o homem atormentado gerou um escritor talentoso?



(19 de julho/2003)
CooJornal no 324
    


Sarita Barros
produtora cultural, poeta e escritora
RS  
barros@alternet.com.br
  
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-02.htm