28/08/2003
Número - 329

 


 

Sarita Barros


Biografia

 

Estou em dúvida se a minha é mais bio ou mais grafia. Creio que é mais bio. Desde que nasci tenho passado por todos os “estados civis”, algumas profissões e muitos afazeres. Tenho filho, enteados (as), genros, noras, netos (as). Graças ao Pai-do-Céu todos eles mais minha mãe e irmãos permanecem neste lado de cá.

Adoro ler e escrevo para me entender e abrir uma janela. Gosto de espiar o outro e o mundo através dela. Escritor é bicho complicado e os ‘metidos a’ creio que o são em grau superlativo. Porque o escritor, por mais complicado que seja, já admitiu o rótulo e, portanto, é só uma questão de decodificação. Já a categoria dos ‘metidos a” – na qual me incluo – está no limbo: poderá ser, talvez seja, se batalhar...

Tenho um livro – Papos e Pontos (casos comentados) – em parceria e outro, solo – Verso Universo Reverso (poemas). Participo em várias antologias (poema, crônica e conto). Tenho me metido em alguns Concursos e recebi um Primeiro Lugar e várias Menções Honrosas. Mas a excitação dessa fase está arrefecendo. Creio que em breve voltarei ao aconchego da gaveta. Faz parte do felino que às vezes me habita. Concordo em muita coisa com Darwin, e tenho até uma teoria a respeito. Segundo ela, carregamos a memória dos estágios anteriores. Então, muitas vezes sou pedra. Algumas, sou árvore. Em outras: pássaro, cobra, cachorro, gato, leão, formiga e outros bichinhos mais.

Quando estou pedra deixo as coisas passarem. Nada me importuna. Não penso nem me mexo. Gosto de pedrice. Imutável. Indiferente ao sol e chuva. Na fase ventania ando e corro para todo lado. Leio três livros ao mesmo tempo. Falta tempo. No arvorecer fico muito sensível a cheiros e sons. Ouço o tempo e o vento. O sol e a chuva. Sinto enorme prazer nos carinhos do vento e me delicio com a chuva que aos poucos vai me molhando. Fico com muito medo do fogo, mas aprecio os raios quentes do sol. Estendo as ramas e minha sombra é procurada por viajantes e pássaros.

Também vejo as pessoas sob diferentes óticas e ângulos. A pedra vê alguém de forma diferente da árvore ou do vento. Outra vez saí de casa e esqueci de tirar a forma de jibóia. Precisava ver o pavor com que me olhavam. Uns choravam outros gritavam. Muitos fugiram e alguns apareceram com paus e pedras. Eu fui ficando encrespada. Como ousavam me ferir? A rua é pública. O direito de ir e vir é garantido pela Constituição. Então deslizei e de um bote me enrolei no mais ameaçador. Apertei um pouco, só um pouco para que sentisse minha força. O homem esbugalhou os olhos de pavor e soltou a tranca da qual estava armado. Os outros se apinharam à nossa volta. Sádicos. Queriam gozar o espetáculo. Queriam ver um semelhante ser esmagado e engolido aos poucos. Senti enorme raiva deles. Da sua maldade e indiferença. Fui afrouxando meus anéis. Ouvi um murmúrio de desapontamento. Pressenti o perigo. Até uma jibóia teme a multidão frustrada e ensandecida. Enfiei-me num bueiro e os deixei vociferando indignados.



(28 de agosto/2003)
CooJornal no 329
    


Sarita Barros
produtora cultural, poeta e escritora
RS  
barros@alternet.com.br
  
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-02.htm