| Sarita Barros
Biografia
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Estou em dúvida se a minha é mais bio ou mais grafia. Creio que é mais bio.
Desde que nasci tenho passado por todos os “estados civis”, algumas profissões
e muitos afazeres. Tenho filho, enteados (as), genros, noras, netos (as).
Graças ao Pai-do-Céu todos eles mais minha mãe e irmãos permanecem neste lado
de cá.
Adoro ler e escrevo para me entender e abrir uma janela. Gosto de espiar o
outro e o mundo através dela. Escritor é bicho complicado e os ‘metidos a’
creio que o são em grau superlativo. Porque o escritor, por mais complicado
que seja, já admitiu o rótulo e, portanto, é só uma questão de decodificação.
Já a categoria dos ‘metidos a” – na qual me incluo – está no limbo: poderá
ser, talvez seja, se batalhar...
Tenho um livro – Papos e Pontos (casos comentados) – em parceria e outro, solo
– Verso Universo Reverso (poemas). Participo em várias antologias (poema,
crônica e conto). Tenho me metido em alguns Concursos e recebi um Primeiro
Lugar e várias Menções Honrosas. Mas a excitação dessa fase está arrefecendo.
Creio que em breve voltarei ao aconchego da gaveta. Faz parte do felino que às
vezes me habita. Concordo em muita coisa com Darwin, e tenho até uma teoria a
respeito. Segundo ela, carregamos a memória dos estágios anteriores. Então,
muitas vezes sou pedra. Algumas, sou árvore. Em outras: pássaro, cobra,
cachorro, gato, leão, formiga e outros bichinhos mais.
Quando estou pedra deixo as coisas passarem. Nada me importuna. Não penso nem
me mexo. Gosto de pedrice. Imutável. Indiferente ao sol e chuva. Na fase
ventania ando e corro para todo lado. Leio três livros ao mesmo tempo. Falta
tempo. No arvorecer fico muito sensível a cheiros e sons. Ouço o tempo e o
vento. O sol e a chuva. Sinto enorme prazer nos carinhos do vento e me delicio
com a chuva que aos poucos vai me molhando. Fico com muito medo do fogo, mas
aprecio os raios quentes do sol. Estendo as ramas e minha sombra é procurada
por viajantes e pássaros.
Também vejo as pessoas sob diferentes óticas e ângulos. A pedra vê alguém de
forma diferente da árvore ou do vento. Outra vez saí de casa e esqueci de
tirar a forma de jibóia. Precisava ver o pavor com que me olhavam. Uns
choravam outros gritavam. Muitos fugiram e alguns apareceram com paus e
pedras. Eu fui ficando encrespada. Como ousavam me ferir? A rua é pública. O
direito de ir e vir é garantido pela Constituição. Então deslizei e de um bote
me enrolei no mais ameaçador. Apertei um pouco, só um pouco para que sentisse
minha força. O homem esbugalhou os olhos de pavor e soltou a tranca da qual
estava armado. Os outros se apinharam à nossa volta. Sádicos. Queriam gozar o
espetáculo. Queriam ver um semelhante ser esmagado e engolido aos poucos.
Senti enorme raiva deles. Da sua maldade e indiferença. Fui afrouxando meus
anéis. Ouvi um murmúrio de desapontamento. Pressenti o perigo. Até uma jibóia
teme a multidão frustrada e ensandecida. Enfiei-me num bueiro e os deixei
vociferando indignados.
(28 de agosto/2003)
CooJornal no 329
Sarita
Barros
produtora cultural, poeta e escritora
RS
barros@alternet.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-02.htm