25/09/2003
Número - 333

 


 

Sarita Barros


AMÉLIA SABE


 

Amélia sempre fora irrequieta. Desde assinzinha. Gostava de futebol e bola de gude. Sua mãe reclamava: “menina deve brincar com bonecas, por que teimas em desobedecer?” Baixava a cabeça, mas logo fugia e voltava arranhada, cabelos desfeitos, roupa suja e pés descalços. Se esgueirava pela porta da cozinha com a cumplicidade da negra ”Ba” que a banhava, curava, embonecava.

Como Ba a compreendia... Fora moleca. Corria livre pelos campos junto aos irmãos. Galopava conta o vento. Roubava ovos dos ninhos e tantas outras coisas que às sinhazinhas não eram permitidas. Pobre Amélia, suspirou enquanto lembrava “sua menina”, destinada à vida insossa das patroinhas: vestido engomado, saias sobre saias, sempre calçada. No eterno brinquedo de criar filhos e cozinhar.

Amélia cresceu foi estudar na cidade. Ficou em Colégio Interno. Trocou a vigilância da mãe pela das freiras que a perseguiam mais de perto. Adolescência confinada entre salas de estudo e alojamento. Livros, proibidos! Permitida a leitura sobre vida dos santos, tentações e sacrifícios. Nada sabia da vida.

Em noite de tempestade e escuridão total, foge a procura de vida e liberdade. Encontra um rapaz bem falante que a leva para Rivera. Faz agora trabalho não convencional. Continua confinada, mas... sabe.



(25 de setembro/2003)
CooJornal no 333
    


Sarita Barros
produtora cultural, poeta e escritora
RS  
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http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-02.htm