| Sarita Barros
AMÉLIA SABE
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Amélia sempre fora irrequieta. Desde assinzinha. Gostava de futebol e bola de
gude. Sua mãe reclamava: “menina deve brincar com bonecas, por que teimas em
desobedecer?” Baixava a cabeça, mas logo fugia e voltava arranhada, cabelos
desfeitos, roupa suja e pés descalços. Se esgueirava pela porta da cozinha com
a cumplicidade da negra ”Ba” que a banhava, curava, embonecava.
Como Ba a compreendia... Fora moleca. Corria livre pelos campos junto aos
irmãos. Galopava conta o vento. Roubava ovos dos ninhos e tantas outras coisas
que às sinhazinhas não eram permitidas. Pobre Amélia, suspirou enquanto
lembrava “sua menina”, destinada à vida insossa das patroinhas: vestido
engomado, saias sobre saias, sempre calçada. No eterno brinquedo de criar
filhos e cozinhar.
Amélia cresceu foi estudar na cidade. Ficou em Colégio Interno. Trocou a
vigilância da mãe pela das freiras que a perseguiam mais de perto.
Adolescência confinada entre salas de estudo e alojamento. Livros, proibidos!
Permitida a leitura sobre vida dos santos, tentações e sacrifícios. Nada sabia
da vida.
Em noite de tempestade e escuridão total, foge a procura de vida e liberdade.
Encontra um rapaz bem falante que a leva para Rivera. Faz agora trabalho não
convencional. Continua confinada, mas... sabe.
(25 de setembro/2003)
CooJornal no 333
Sarita
Barros
produtora cultural, poeta e escritora
RS
barros@alternet.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-02.htm