02/10/2003
Número - 334

 

- A esperança não é só nossa
- After day
- Ahimsa
- Alegria na corte
- Alvíssaras
- Amélia sabe
- As torres
- Baggenses na 7ª Feira do Livro em Gramado
- Bichos sem rabo, aurora e crepúsculo
- Biografia
- Bolo de aniversário
- Comentário comentado
- Curriculum vitae
- De futuro e víscersa
- De volta ao começo
- Doze de outubro
- Faixa otária
- Feijão com arroz
- FENACRI
- Filhos da poda
- God save America
- Inesperado
- Jorge Amado
- Lua de Cristal
- Mitologia contemporânea
- Natureza em alta
- No reino Fazdeconta
- O caluniado
- O velho e o mar
- Pai
- Parábola sem hipérbole
- Pássaro preto
- Primavera
- Procissões
- Recordações
- Réquiem
- Sísifo e nós
- Segundo turno
- Shimsa
- Somos penta
- Tempo, prioridade e metas
- Tim Lopes
- Uma de papagaio
- Um outro mundo é possível

 

Sarita Barros


VITAMINA


 

Otávio, recém saído do Cine Guarani, entra no Café da Praça. Gosta do ambiente aconchegante. Limpeza, bom gosto, tranqüilidade. Encomenda um café expresso com dois pastéis suíços. Pouca gente faz pasteizinhos como esses. A massa quase se desmancha e o recheio de maçã verde, genuína delícia. Tem sorte de encontrar desocupado seu lugar preferido. A última mesa. Aquela junto ao mostrador. Senta-se de costas para o balcão. Assim enxerga todo o salão, o vai-e-vem na calçada e tem bom ângulo da praça. A mocinha de uniforme marinho está demorando a servi-lo. Mas, não tem mesmo muita pressa. Fica recordando o “Senhor dos Anéis”. Filme intrigante. Alguns pontos ficaram meio obscuros. Esse mundo de fantasia não é bem sua praia, talvez por isso sinta vontade de conhecê-lo. Andou sufocando a magia pela realidade. A emoção pela razão. E em nome da praticidade imolou muita coisa.

Percebe-se observado. Procura. Encontra uns olhos negros. Pertencem a uma garota, quinze, dezoito, ou vinte? Quando era novo elas eram ariscas. Agora são tão sem cerimônia. Sabia identificá-las facilmente. Agora todas se vestem, maquilam e malham segundo os mesmos padrões. As de doze querem aparentar dezoito. As de vinte demonstram quinze. O mesmo visual. Lindas, sadias, saradas. Ela sorri. Sente-se caçado. Mexe-se com desconforto quando lembra a frase: “beijo de menina tem vitamina”. Ultimamente anda desvitaminado. Quem sabe uma superdose? Sorri, mais para si que para ela, faz-lhe um sinal e se dirige ao caixa. A “menina” ao levantar-se mostra quão vitaminada é.

— Meu Deus! Fica vidrado nas curvas que se balançam em equilíbrio instável. Começa a andar quando sente o blusão batendo em suas costas. Como um raio o comercial da Sukita lhe cai sobre a cabeça.



(02 de outubro/2003)
CooJornal no 334
    


Sarita Barros
produtora cultural, poeta e escritora
RS  
barros@alternet.com.br
  
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-02.htm