08/08/2008
Número - 593



ARQUIVO
SARITA BARROS

 

Sarita Barros

 

COLETIVO

Pessoas apertadas, comprimidas, aglomeradas, jogadas umas sobre as outras nas curvas e freadas bruscas, ruminam seus problemas. Pelo menos em pensamento, quando não em viva voz, procuram fugir da situação humilhante e pouco digna.

— Esta droga se arrasta. É hoje que perco o ponto!

— Ainda tenho de deixar Zequinha na creche. Quando chegar, a chata da D. Lalá vai estar uma fúria porque teve de fazer café para seu Oscar. Muito bem dona Maria da Silva! Agora virou madame! Não tem mais hora para chegar? Qualquer dia desses vai ficar muito bem sentada e eu é que vou para cozinha. Qual a desculpa desta vez? Inventa outra porque a do ônibus atrasado, não agüento mais ouvir! Por que não tiram esta velharia da rua? A gente corre até perigo de vida andando nele...

— Hoje vou ficar sem ver Bentinho. Ele entra daqui a quinze minutos! Tu sabes Glória nossa escola fica pertinho da dele, mas eles começam antes. Quem sabe amanhã? Cochicha Aninha.

— Estou com o Quim. A mãe anda com o desconfiômetro ligado. Não vai acontecer nada. O problema é a gente arranjar dinheiro pra camisinha. Lá em casa não sobra mais troco, passo a mão em tudo! Creio que é por isso que ela está na minha cola. Segreda Glória de volta.

— Chega pra lá abusado! Vai te esfregar na mãe!

— Convencida! Com uma cara dessas e corpo de tábua de passar, só com o sacolejo prum homem encostar em ti!

— Não te enxerga praga? Isso é gordura ou inchaço da cachaça?

— Calma minha gente. Olha a baixaria! Ninguém está disposto a parar no Distrito. Interfere uma jovem de longos cabelos negros.

— Olha o jeito dela! Com esse arzinho de princesa e falando certinho deve ser professora! Não é melhor que ninguém não minha filha. Eu é que não ia ficar aturando filho dos outros pelo que tu ganha.

Que ingratidão! Eu me esforço, ando gripado, engasgando, afogado só para não deixar estes miseráveis na mão, olha como me pagam! Triste vida de um Coletivo honesto e batalhador. São ingratos e mal agradecidos, os homens. Não valem tanto esforço e dedicação! Há mais de quarenta anos ando por essa buracama toda. Tanto de dia como de noite. Faça chuva ou faça sol. Para escutar essas coisas? Tem nêgo aqui que eu carrego desde que estava na barriga da mãe! Agora que estou velho... vou mostrar com quantos paus... ainda vão chorar por mim! Trimmm, schuzzzzpc, treerrecofcof, shiapenxkgjhalflk!!!

— Que foi isso motorista?

— Calma. Vou descer e dar uma olhadinha.

O motorista levanta o capô, não entende nada do que vê: fios soltos, fumaça, vapor, calor e lágrimas. Eu disse lágrimas? Murmura: é o burrinho, o diferencial, fiação, rotor, mancal, são as velas, bateria... Meu Deus! Tudo ao mesmo tempo! Se este ônibus fosse gente, diria que teve um colapso. Só pro ferro velho, Dirigindo-se aos passageiros: Pessoal, pifou. Oh!! Só me faltava essa, exclamam todos.

— Pobrezinho, eu gostava dele. Vivia tossindo que nem o vô Tidão, não é manhê?

Todos se espalham. Cada um retoma seu drama e o sol pisca zombeteiro.
da!


 Leia, também, nessa edição: Mariana



(08 de agosto/2008)
CooJornal no 593


Sarita Barros
instrutora de yoga, escritora
Bagé

Direitos Reservados