Sarita Barros
COLETIVO |
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Pessoas apertadas, comprimidas, aglomeradas, jogadas umas sobre as outras
nas curvas e freadas bruscas, ruminam seus problemas. Pelo menos em
pensamento, quando não em viva voz, procuram fugir da situação humilhante
e pouco digna.
— Esta droga se arrasta. É hoje que perco o ponto!
— Ainda tenho de deixar Zequinha na creche. Quando chegar, a chata da D.
Lalá vai estar uma fúria porque teve de fazer café para seu Oscar. Muito
bem dona Maria da Silva! Agora virou madame! Não tem mais hora para
chegar? Qualquer dia desses vai ficar muito bem sentada e eu é que vou
para cozinha. Qual a desculpa desta vez? Inventa outra porque a do ônibus
atrasado, não agüento mais ouvir! Por que não tiram esta velharia da rua?
A gente corre até perigo de vida andando nele...
— Hoje vou ficar sem ver Bentinho. Ele entra daqui a quinze minutos! Tu
sabes Glória nossa escola fica pertinho da dele, mas eles começam antes.
Quem sabe amanhã? Cochicha Aninha.
— Estou com o Quim. A mãe anda com o desconfiômetro ligado. Não vai
acontecer nada. O problema é a gente arranjar dinheiro pra camisinha. Lá
em casa não sobra mais troco, passo a mão em tudo! Creio que é por isso
que ela está na minha cola. Segreda Glória de volta.
— Chega pra lá abusado! Vai te esfregar na mãe!
— Convencida! Com uma cara dessas e corpo de tábua de passar, só com o
sacolejo prum homem encostar em ti!
— Não te enxerga praga? Isso é gordura ou inchaço da cachaça?
— Calma minha gente. Olha a baixaria! Ninguém está disposto a parar no
Distrito. Interfere uma jovem de longos cabelos negros.
— Olha o jeito dela! Com esse arzinho de princesa e falando certinho deve
ser professora! Não é melhor que ninguém não minha filha. Eu é que não ia
ficar aturando filho dos outros pelo que tu ganha.
Que ingratidão! Eu me esforço, ando gripado, engasgando, afogado só para
não deixar estes miseráveis na mão, olha como me pagam! Triste vida de um
Coletivo honesto e batalhador. São ingratos e mal agradecidos, os homens.
Não valem tanto esforço e dedicação! Há mais de quarenta anos ando por
essa buracama toda. Tanto de dia como de noite. Faça chuva ou faça sol.
Para escutar essas coisas? Tem nêgo aqui que eu carrego desde que estava
na barriga da mãe! Agora que estou velho... vou mostrar com quantos
paus... ainda vão chorar por mim! Trimmm, schuzzzzpc, treerrecofcof,
shiapenxkgjhalflk!!!
— Que foi isso motorista?
— Calma. Vou descer e dar uma olhadinha.
O motorista levanta o capô, não entende nada do que vê: fios soltos,
fumaça, vapor, calor e lágrimas. Eu disse lágrimas? Murmura: é o burrinho,
o diferencial, fiação, rotor, mancal, são as velas, bateria... Meu Deus!
Tudo ao mesmo tempo! Se este ônibus fosse gente, diria que teve um
colapso. Só pro ferro velho, Dirigindo-se aos passageiros: Pessoal, pifou.
Oh!! Só me faltava essa, exclamam todos.
— Pobrezinho, eu gostava dele. Vivia tossindo que nem o vô Tidão, não é
manhê?
Todos se espalham. Cada um retoma seu drama e o sol pisca zombeteiro.
da!
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Mariana
(08 de agosto/2008)
CooJornal no 593