16/02/2008
Número - 568



ARQUIVO
SARITA BARROS

 

Sarita Barros



uma de papagaio

Estava no velório da mãe de uma amiga quando comecei a lembrar. Senti vontade de rir. Tentava pensar em outra coisa. Procurava disfarçar. O assunto voltava a se enroscar em meus pensamentos. Saí antes do enterro. Resolvi, para me vingar, transformá-lo nesta.

Tenho uma amiga, muito querida, de idade aproximada a minha. Religiosa e pudica. Interessadíssima em ecologia social e ambiental. Preocupa-se com o bem estar dos outros. Incapaz dizer mal de alguém. Um amigo comum diz que, certa feita, inquirida sobre o estado civil de alguém, respondeu: é meio desquitadinho.

Essa pessoa resolveu, em reunião de nosso grupo, contar uma piada. Todos atentos. Ninguém piscava. Uma só respiração. 

Iniciou: "viviam em uma casa um homem e um papagaio" começou a rir, a ficar vermelha. Começamos a incentivar: vai em frente, conta, continua. "a conta telefônica foi às alturas e..." continua, não pára, segue. "hi-hi-hi" - ela ri fininho - "hi-hi-hi o homem interpelou o papagaio: foste tu que ligaste para o telesexo? hi-hi-hi" E daí? Vai! "eu sou religiosa, Nosso Senhor vai me perdoar, é tão engraçadinho", tapava a boca com uma mão, a outra espalmada sobre os olhos, dedos abertos e nos espiava através deles. - Claro que perdoa, ele está muito preocupado com a guerra na Europa. "será que devo? hi-hi-hi é tão bonitinho", continua: ajoelhou tem de rezar. Termina! "o papagaio negou, negou hi-hi-hi mas acabou confessando, fui eu. Aí o homem hi-hi-hi, eu sou religiosa, Deus vai me perdoar, não é? Lógico! - ríamos do embaraço - Continua. Que aconteceu com o bicho? "o homem pegou o papagaio e o pregou na parede com as asas abertas: vais ficar aí por uma semana. O papagaio desesperado olhou para o crucifixo e... hi-hi-hi não posso continuar, meu Jesus Cristinho querido tu sabes que não é por mal, mas é tão engraçadinho", ouviu-se apenas uma voz: "ou dá ou desce", os outros não conseguiam falar tanto ríamos. "o papagaio perguntou para o Cristo", estás há quanto tempo aí? Cristo respondeu: 2000 anos, não posso continuar hi-hi-hi ai que coisa, que calor, vocês juram que vou ser perdoada?" Juramos! Nem vais precisar confessar. Termina logo. Pelo amor de Deus, continua! "o papagaio revirou os olhos e exclamou: meu Pai, para onde será que ele ligou? Consegui! Terminei." 

Estava afogueada, bateu palmas confusa e feliz. Quebrou todos os paradigmas. Fez tudo ao contrário e prendeu nossa atenção até o fim. No meu caso até depois do fim. Jamais esquecerei essa, de papagaio. Espero que vocês também.
   

(julho 2001)
 


Sarita Barros
produtora cultural, escritora
Bagé