Sarita Barros


PAI

Herói e refúgio. Cavalinho e palhaço. Seus braços, o melhor amparo. Sua voz acalma a dor e acende a luz. Que conforto, ouvir "o pai está aqui" quando eu me punha a chorar medrosa com medo do escuro... 

Aos domingos saíamos pela manhã. Só nós dois. Mãos dadas. Meu peito estufado de orgulho.

Se esfolava algum joelho corria chorando para ele. "Deixa ver princesa. Não dá para sair as tripas... quando casar sara".  Eu abria o berro de fúria e desespero. Quando eu casar! Quanto tempo para sarar? Passava o dedo em minhas lágrimas, provava: "Esta minha filha tem um mar por dentro!"  Eu sorria feliz. Todo um mar cabia em mim. A dor passava. Secava as lágrimas com as costas das mãos e me jogava em seu pescoço. "Sou uma forte! Não vou morrer por um machucado bobo que não dá nem pra sair uma tripinha." Recebia tapinhas carinhosos na cabeça... "Só alguém muito especial pode carregar um mar..."

Quando morreu... peguei seu casaco cinza de estimação. Casaco de andar em casa e arredores. Casaco de lã tecido à máquina. 

Quando o mundo me fere, o amor machuca, a saudade extravasa, eu o coloco sobre os ombros. A alma fica em paz. O coração acalma. Relaxo. Sinto suas batidinhas e ouço a voz de acalanto, "minha princesa, tens um mar dentro de ti...".


(agosto 2001)
    


Sarita Barros
produtora cultural, poeta e escritora
RS  
barros@alternet.com.br
  
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-02.htm