06/11/2003
Número - 339

 

 

Sarita Barros


MARIANA


 

Mariana tem orgulho da sua profissão. Autônoma. Sindicalizada. Cobra por hora trabalhada. Faxineira. Trinta e cinco anos. Mas há uma semana anda um tanto deprimida. Começou a pensar no futuro. Quer um lar e filhos. Olha-se ao espelho e murmura:
Melhor que muita madama que tem casa e marido que a sustente. Meu corpo não é de jogar fora, tudo no lugar. Tenho um palminho de cara melhor que muita bruaca da TV, e ninguém me encontrou. Nem marido, nem caça-talentos. Suspira. Joga um beijo para a imagem. Os lábios vermelhos e apetitosos parecem flor de hibisco. Não desanima minha santa teu dia há de chegar.

Mariana dá uma volta no amplo quarto iluminado batendo o espanador na palma da mão. Distraída se enreda na colcha de damasco amarelo-ouro e procurando o equilíbrio perdido, esbarra na penteadeira. Um vidrinho de Chanel voa sobre ela que cai sentada no esforço de salvá-lo. Consegue, mas fica embebida de perfume.
Meu bom Deus e agora? Dona Lalica vai pensar que me banhei no número cinco dela por vontade minha própria. Vou me lavar. Não. Nunca cheirei tão bem.

Nesse momento seu Francisco entra. Havia esquecido alguns papéis.
- Mariana que fazes aí?
Ela se abraça a ele chorando. Os olhos castanhos estão súplices.
- Uma desgraça.
- Que foi criatura? Ela o abraça mais forte
- Quando tinha quinze fui tomar banho no açude, me deu câimbra e quase morri afogada. Um primo me salvou.
Conta como ficou agradecida e excitada com o fato e meio sem querer querendo acabou tendo sua primeira transa.
- Não entendi a ligação, diz o homem.
- É que eu tinha ganho esse perfume de aniversário. Estou com ele.
- E daí?
- Toda vez que sinto esse cheiro lembro tudo e tenho de transar senão fico biruta. Daí o senhor entrou... Não consigo resistir esse charme todo. Nunca tinha reparado no seu jeito de homem seu Francisco.

Deixou cair o desengonçado uniforme diante dos olhos esbugalhados do patrão. Francisco nunca imaginara que tanta beleza pudesse ser opacificada por uma simples bata de algodão grosso.

Seu Francisco não reclama mais das dores de cabeça da dona Lalica. Mariana não encontrou um caça-talentos, mas... caçou um marido. Descobriu os prazeres de ser a outra.


(06 de novembro/2003)
CooJornal no 339
    


Sarita Barros
produtora cultural, poeta e escritora
RS  
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