| Sarita Barros
MARIANA
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Mariana tem orgulho da sua profissão. Autônoma. Sindicalizada. Cobra por hora
trabalhada. Faxineira. Trinta e cinco anos. Mas há uma semana anda um tanto
deprimida. Começou a pensar no futuro. Quer um lar e filhos. Olha-se ao espelho
e murmura:
Melhor que muita madama que tem casa e marido que a sustente. Meu corpo
não é de jogar fora, tudo no lugar. Tenho um palminho de cara melhor que muita
bruaca da TV, e ninguém me encontrou. Nem marido, nem caça-talentos. Suspira.
Joga um beijo para a imagem. Os lábios vermelhos e apetitosos parecem flor de
hibisco. Não desanima minha santa teu dia há de chegar.
Mariana dá uma volta no amplo quarto iluminado batendo o espanador na palma da
mão. Distraída se enreda na colcha de damasco amarelo-ouro e procurando o
equilíbrio perdido, esbarra na penteadeira. Um vidrinho de Chanel voa sobre ela
que cai sentada no esforço de salvá-lo. Consegue, mas fica embebida de perfume.
Meu bom Deus e agora? Dona Lalica vai pensar que me banhei no número cinco dela
por vontade minha própria. Vou me lavar. Não. Nunca cheirei tão bem.
Nesse momento seu Francisco entra. Havia esquecido alguns papéis.
- Mariana que fazes aí?
Ela se abraça a ele chorando. Os olhos castanhos estão súplices.
- Uma desgraça.
- Que foi criatura? Ela o abraça mais forte
- Quando tinha quinze fui tomar banho no açude, me deu câimbra e quase morri
afogada. Um primo me salvou.
Conta como ficou agradecida e excitada com o fato e meio sem querer querendo
acabou tendo sua primeira transa.
- Não entendi a ligação, diz o homem.
- É que eu tinha ganho esse perfume de aniversário. Estou com ele.
- E daí?
- Toda vez que sinto esse cheiro lembro tudo e tenho de transar senão fico
biruta. Daí o senhor entrou... Não consigo resistir esse charme todo. Nunca
tinha reparado no seu jeito de homem seu Francisco.
Deixou cair o desengonçado uniforme diante dos olhos esbugalhados do patrão.
Francisco nunca imaginara que tanta beleza pudesse ser opacificada por uma
simples bata de algodão grosso.
Seu Francisco não reclama mais das dores de cabeça da dona Lalica. Mariana não
encontrou um caça-talentos, mas... caçou um marido. Descobriu os prazeres de
ser a outra.
(06 de novembro/2003)
CooJornal no 339
Sarita
Barros
produtora cultural, poeta e escritora
RS
barros@alternet.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-02.htm