Sarita Barros
Pausas |
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As pausas são necessárias. Se não fossem
elas, como observar o cotidiano? Umas longas, outras nem tanto. Quem pode
definir sua extensão? Há momentos que parecem horas e anos que se esvaem
em segundos. Tanto em uns quanto nos outros há aquele instante em que tudo
desaparece e a alma respira.
Domingo li três crônicas da Rio Total e todas se referiam a certos
distanciamentos. Frei Betto fez um paralelo entre o tempo necessário à
águia (para se retemperar e continuar vivendo com qualidade) e o tempo de
reclusão no convento. Francisco Simões nos disse, um tanto veladamente, da
sua reentrada no mundo do amor após anos de solitária viuvez. Sonia
Alcalde faz alusão entre carnavais adolescentes e o de agora, junto à
netinha.
Se não fora ela, a pausa, como apreciar as benesses, alegrias, tristezas,
aflições? Quando vemos uma tela da qual gostamos, damos instintivamente
uns passos atrás para melhor observá-la. Se grudássemos o nariz no quadro
nada perceberíamos. Quando a vida nos atropela e ligamos o automático,
ficamos estressados e confusos. O entendimento parece que dobra esquina,
então paramos. Aí tudo retoma uma perspectiva, um direcionamento e as
coisas fluem. Até as baterias das Escolas de Samba têm uma paradinha, um
recuo. O bom compositor mescla notas e pausas na partitura. O guerreiro
também tem o seu repouso.
Por quê este assunto? Porque entrando na Rio Total me bateu uma saudade
enorme de voltar a cronicar. Pensei: após tanto tempo... será? Sim! Por
que parei? Trancos da vida, interesses outros, dedos correndo meio
automaticamente pelo teclado, tantas coisas. Senti necessidade de escrever
e me pus a tal. Tenho um amigo –escritor e poeta – Irineu Volpato, que diz
mais ou menos assim: “não importa se nos lêem ou não, escrever é um dom e
um martírio. A gente precisa botar pra fora o que nos enche o coração”,
sou obrigada a concordar. Disse ‘mais ou menos’ porque faço uma simbiose
com o ouvido/lido e minha cabeça, aí a citação fica poluída.
Assim, após um longo período de hibernação, volto a estas páginas. Volto
com alegria, paz e, no o mesmo estilo sem estilo, escrevendo sobre o que
me fala o coração.
(16 de fevereiro/2008)
CooJornal
no 568