16/02/2008
Número - 568



ARQUIVO
SARITA BARROS

 

Sarita Barros



Pausas

As pausas são necessárias. Se não fossem elas, como observar o cotidiano? Umas longas, outras nem tanto. Quem pode definir sua extensão? Há momentos que parecem horas e anos que se esvaem em segundos. Tanto em uns quanto nos outros há aquele instante em que tudo desaparece e a alma respira.

Domingo li três crônicas da Rio Total e todas se referiam a certos distanciamentos. Frei Betto fez um paralelo entre o tempo necessário à águia (para se retemperar e continuar vivendo com qualidade) e o tempo de reclusão no convento. Francisco Simões nos disse, um tanto veladamente, da sua reentrada no mundo do amor após anos de solitária viuvez. Sonia Alcalde faz alusão entre carnavais adolescentes e o de agora, junto à netinha.

Se não fora ela, a pausa, como apreciar as benesses, alegrias, tristezas, aflições? Quando vemos uma tela da qual gostamos, damos instintivamente uns passos atrás para melhor observá-la. Se grudássemos o nariz no quadro nada perceberíamos. Quando a vida nos atropela e ligamos o automático, ficamos estressados e confusos. O entendimento parece que dobra esquina, então paramos. Aí tudo retoma uma perspectiva, um direcionamento e as coisas fluem. Até as baterias das Escolas de Samba têm uma paradinha, um recuo. O bom compositor mescla notas e pausas na partitura. O guerreiro também tem o seu repouso.

Por quê este assunto? Porque entrando na Rio Total me bateu uma saudade enorme de voltar a cronicar. Pensei: após tanto tempo... será? Sim! Por que parei? Trancos da vida, interesses outros, dedos correndo meio automaticamente pelo teclado, tantas coisas. Senti necessidade de escrever e me pus a tal. Tenho um amigo –escritor e poeta – Irineu Volpato, que diz mais ou menos assim: “não importa se nos lêem ou não, escrever é um dom e um martírio. A gente precisa botar pra fora o que nos enche o coração”, sou obrigada a concordar. Disse ‘mais ou menos’ porque faço uma simbiose com o ouvido/lido e minha cabeça, aí a citação fica poluída.

Assim, após um longo período de hibernação, volto a estas páginas. Volto com alegria, paz e, no o mesmo estilo sem estilo, escrevendo sobre o que me fala o coração.




(16 de fevereiro/2008)
CooJornal no 568


Sarita Barros
escritora
Bagé