23/02/2008
Número - 569



ARQUIVO
SARITA BARROS

 

Sarita Barros



PANIFICADORA

Comprei uma máquina de fazer pão. Estou me divertindo a valer! Todo dia um pão diferente. E aquele cheirinho maravilhoso tomando conta de tudo. Nunca dei certo com massas. Meus bolos/pães saiam pesados, murchos, queimados, afundados e era aquela frustração. Horas perdidas amassando, deixando levedar, esperando, torcendo e no final um fracasso perfeito. Até os bolinhos-de-chuva. As crianças diziam que estavam mais para pesadelo que para sonho. Concluí que não era do metier. Acabei desistindo. Agora virei padeira de mão cheia. Mas sempre dou os créditos à Britânia Bello Pane.

Interessante como guardamos sentimentos. Eu nem lembrava das tentativas malogradas, nem suspeitava que houvessem feito mal. Só com a alegria fora de propósito e a sensação de bola cheia foi que me dei conta das percepções enterradas fundo na memória. Guardadas há muito tempo. Que atitudes e reações, quanta coisa fiz ou deixei de fazer movida pelo que meu inconsciente tem arquivado?

O pior é que na maioria das vezes atuamos no automático. Sem nos apercebermos o que nos leva a agir de determinada maneira. Sou assim. Sempre fiz assim. E lá vamos nós, lépidos e fagueiros, repetindo até a exaustão determinados padrões. E não há tempo para um exame de consciência, para uma releitura comportamental, para um relax, para um momento só nosso. Aos poucos vamos sepultando partes de nós. E também, aos poucos, perdemos a identidade de filhos de Deus. Ficamos atados aos preconceitos, tabus, crenças e outros aprisionamentos. Nos robotizamos. Para cada situação passamos a ter um botãozinho, que ao ser acionado dá conta do recado. E nós? E o livre arbítrio?

Parodiando Platão: “Conhece-te a ti mesmo”. Eis a chave.
 



Recorde, dessa edição, a crônica Parábola sem hipérbole, da mesma autora.




(23 de fevereiro/2008)
CooJornal no 569


Sarita Barros
produtora cultural, escritora
Bagé