Sarita Barros
PANIFICADORA |
 |
Comprei uma máquina de fazer pão. Estou me divertindo a valer! Todo dia um
pão diferente. E aquele
cheirinho maravilhoso tomando conta de tudo. Nunca dei certo com massas.
Meus bolos/pães saiam
pesados, murchos, queimados, afundados e era aquela frustração. Horas
perdidas amassando,
deixando levedar, esperando, torcendo e no final um fracasso perfeito. Até
os bolinhos-de-chuva. As
crianças diziam que estavam mais para pesadelo que para sonho. Concluí que não era do
metier. Acabei
desistindo. Agora virei padeira de mão cheia. Mas sempre dou os créditos à Britânia Bello Pane.
Interessante como guardamos sentimentos. Eu nem lembrava das tentativas
malogradas, nem
suspeitava que houvessem feito mal. Só com a alegria fora de propósito e a
sensação de bola cheia foi
que me dei conta das percepções enterradas fundo na memória. Guardadas há
muito tempo. Que
atitudes e reações, quanta coisa fiz ou deixei de fazer movida pelo que
meu inconsciente tem
arquivado?
O pior é que na maioria das vezes atuamos no automático. Sem nos
apercebermos o que nos leva a agir
de determinada maneira. Sou assim. Sempre fiz assim. E lá vamos nós,
lépidos e fagueiros, repetindo
até a exaustão determinados padrões. E não há tempo para um exame de
consciência, para uma
releitura comportamental, para um relax, para um momento só nosso. Aos
poucos vamos sepultando
partes de nós. E também, aos poucos, perdemos a identidade de filhos de
Deus. Ficamos atados aos
preconceitos, tabus, crenças e outros aprisionamentos. Nos robotizamos.
Para cada situação passamos
a ter um botãozinho, que ao ser acionado dá conta do recado. E nós? E o
livre arbítrio?
Parodiando Platão: “Conhece-te a ti mesmo”. Eis a chave.

Recorde, dessa edição, a crônica
Parábola sem hipérbole, da mesma autora.
(23 de fevereiro/2008)
CooJornal
no 569