01/03/2008
Número - 570



ARQUIVO
SARITA BARROS

 

Sarita Barros



OUTONO ANTECIPADO

Em pleno verão as folhas das árvores da Praça da Estação estão caindo. Parece que o outono se antecipou. Enviou delicada carta à natureza e as árvores estão respondendo. Se tivesse mandado um mail, nós é que estaríamos a par da acontecência. Faz dois anos que os Plátanos da praça não mostram aquela farra de sépias, ferrugem avermelhada, escandalosos amarelos e bordôs. As folhas simplesmente entristecem e caem. Já no pé adquirem um tom sem graça de papel pardo e se despencam assim sem contentamento algum. Ano passado atribuí o ocorrido à falta de chuva. Este ano tivemos boa média pluviométrica, mas já começaram a se cobrir com esse sudário desvitalizado.

No outono, em minhas andanças, sempre dou um jeitinho de cruzar a praça para assistir beleza esparramada. Tão bom sentir sob os pés o croc-croc das folhas. E as imensas árvores desnudas com os galhos apontando o céu, parecem rezar. Por quem? Creio que por nós, para que a humanidade aprenda a respeitar as outras formas de vida.

Agora, verão ainda, encenam um ritual macabro sem cor nem som. As folhas não estralam mais. Ficam frouxas, molengas não oferecem resistência. Como se nada mais importasse. Desistidas. Será que nos abandonaram à própria sorte? Já não merecemos o espetáculo outonal. Não mais seu amor? Estarão nos pagando na mesma moeda? Creio que não. Tenho, pra mim, que somos os culpados. Algo resultante da ação humana, sobre o planeta, está provocando isso. Radiações? Buraco de ozônio? Chuva ácida? O quê meu Deus estamos fazendo para tirar o colorido dos Plátanos?

Talvez seja estresse. Inventamos um ritmo tão louco que não vivemos, somos triturados pelas rodas da engrenagem que criamos. Perdemos as cores da vida. Se algo não for radical, alucinante, terrorífico, não tem sabor. Perdemos a sensibilidade para o sutil. E de alguma forma estamos contagiando a Natureza com nossa alucinação, nossa morbidez. Quem sabe rezando pelas árvores voltaremos a ser sensatos. Quem sabe olhando com carinho ao nosso redor, teremos paz no coração. E com o coração cheio de paz daremos adeus à tensão de cada dia e talvez, assim, os plátanos voltem a sorrir tapizando nosso chão com alegria.




(01 de março/2008)
CooJornal no 570


Sarita Barros
produtora cultural, escritora
Bagé