Sarita Barros
Hoje estou saudosista |
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Culpa de um velho álbum de fotografias, ou melhor, de retratos. Sim, as
fotos eram chamadas retratos. Influência de um tempo mais antigo, quando
só um pintor-retratista podia fixar para a posteridade os traços
fisionômicos de alguém.
Folhando esse álbum surgem figuras e momentos que só existem ali. A
meninice de meus pais. Meus avós, tios-avós. Bisavós. E tantos mais, que
nunca conheci, imortalizados no instante. Sorrindo. Carrancudos.
Ataviados. Descuidados porque surpreendidos pela máquina indiscreta.
E quando o retratista vinha em casa? Quanta emoção! As crianças nem
piscavam. O homem entrava com enorme volume ao qual ia dando forma.
Surgiam, assim de repente, três pés finos que ele ajeitava e firmava,
colocando por sobre eles uma caixa coberta por pano preto. A família
reunida em pose oficial. O homem punha a cabeça dentro da caixa e quase
sumia dentro dela. Voltava a sair e ia arrumar alguma criança que não
ficara bem aprumada. Voltava, entrava, saia, voltava a entrar e sair não
sei quantas vezes mais. Até que satisfeito apontava uma luz e ouvia-se um
estrondo. Os pequenos choravam, os nem tanto corriam, as mulheres
tagarelavam e os homens acendiam cachimbos e charutos. A vida, que ficara
em suspenso, voltava com força total.
Depois de meses chegava pelo correio um pacote vindo de Porto Alegre ou
São Paulo. O pai o abria em cima da mesa de jantar. Papel, cartão e mais
papel até surgir o retrato, envolto em papel de seda, todo emoldurado. E
ia para o lugar já pré-determinado na parede. Pendurado junto aos colegas:
uns em sépia, outros colorizados. E dormiam em pé, algumas vezes, por mais
de uma geração.
Hoje temos máquinas digitais que fotografam em cor, em movimento, de
noite, na chuva, marcam a data, filmam com e sem som. São instantâneas e
podemos descartar as imagens que não queremos. E tiramos foto tomando
café, caminhando, comendo e... só do braço, da perna, da unha.
Quem imortaliza um instante não é mais só o pintor, o fotógrafo, o pai.
Qualquer um, especialmente as crianças, possuem esse poder. Da máquina ao
computador e logo está na rede. Assim a imagem foi banalizada. É bom? É
mau? Não sei. Como disse Campoamor: “todo es según el color del cristal
com que se mira”.
(08 de março/2008)
CooJornal
no 571