08/03/2008
Número - 571



ARQUIVO
SARITA BARROS

 

Sarita Barros



Hoje estou saudosista

Culpa de um velho álbum de fotografias, ou melhor, de retratos. Sim, as fotos eram chamadas retratos. Influência de um tempo mais antigo, quando só um pintor-retratista podia fixar para a posteridade os traços fisionômicos de alguém.

Folhando esse álbum surgem figuras e momentos que só existem ali. A meninice de meus pais. Meus avós, tios-avós. Bisavós. E tantos mais, que nunca conheci, imortalizados no instante. Sorrindo. Carrancudos. Ataviados. Descuidados porque surpreendidos pela máquina indiscreta.

E quando o retratista vinha em casa? Quanta emoção! As crianças nem piscavam. O homem entrava com enorme volume ao qual ia dando forma. Surgiam, assim de repente, três pés finos que ele ajeitava e firmava, colocando por sobre eles uma caixa coberta por pano preto. A família reunida em pose oficial. O homem punha a cabeça dentro da caixa e quase sumia dentro dela. Voltava a sair e ia arrumar alguma criança que não ficara bem aprumada. Voltava, entrava, saia, voltava a entrar e sair não sei quantas vezes mais. Até que satisfeito apontava uma luz e ouvia-se um estrondo. Os pequenos choravam, os nem tanto corriam, as mulheres tagarelavam e os homens acendiam cachimbos e charutos. A vida, que ficara em suspenso, voltava com força total.

Depois de meses chegava pelo correio um pacote vindo de Porto Alegre ou São Paulo. O pai o abria em cima da mesa de jantar. Papel, cartão e mais papel até surgir o retrato, envolto em papel de seda, todo emoldurado. E ia para o lugar já pré-determinado na parede. Pendurado junto aos colegas: uns em sépia, outros colorizados. E dormiam em pé, algumas vezes, por mais de uma geração.

Hoje temos máquinas digitais que fotografam em cor, em movimento, de noite, na chuva, marcam a data, filmam com e sem som. São instantâneas e podemos descartar as imagens que não queremos. E tiramos foto tomando café, caminhando, comendo e... só do braço, da perna, da unha.

Quem imortaliza um instante não é mais só o pintor, o fotógrafo, o pai. Qualquer um, especialmente as crianças, possuem esse poder. Da máquina ao computador e logo está na rede. Assim a imagem foi banalizada. É bom? É mau? Não sei. Como disse Campoamor: “todo es según el color del cristal com que se mira”.



(08 de março/2008)
CooJornal no 571


Sarita Barros
produtora cultural, escritora
Bagé